{Alegoria da caverna #1} Bill Hicks e o passeio

AVISO: Essa vai ser longa (até por isso dividi em várias partes)…

Os anos 90, ainda que para muitos sejam definidos como uma ‘década perdida’ culturalmente, infelizmente, é uma década que sofreu com um turbilhão arrebatador de circunstâncias conflitantes todas vindas das mais difusas direções e se encontrando num ponto focal.

Caíra o muro de Berlim, levando com ele o comunismo da URSS junto de vários regimes ditatoriais pelo mundo. Além disso, as primeiras e mais contundentes evidências de nossa crise ambiental surgiam com o El Niño (e sua irmã mais nova e modesta La Niña) acarretando em diversos efeitos climáticos por todo o globo. Os avanços na área de informática permitiam não só um computador em cada casa como o acesso interconectado de todos estes em rede – e com isso, inúmeros avanços se deram nas mais diversas áreas do conhecimento humano, com a possibilidade de compilação de dados com maior velocidade, assim como projeções matemáticas com maior precisão e eficiência. Graças ao escalonamento de velocidade de processamento, o projeto Genoma nascido nos anos 90 passou de mapear os genes de fungos e bactérias para o de animais mais complexos, incluindo o ser humano, e, a noção de DNA passou a fazer mais e mais parte de nosso vocabulário – inclusive com a clonagem se tornando uma realidade com a ovelha Dolly.

Culturalmente, os anos 90 começaram, na verdade, no fim dos anos 80, afinal, o Nirvana surge em 87 (e dá voz ao grunge, o movimento musical mais relevante da década) enquanto em 88 o NWA surgiu com o polêmico Fuck da Police do álbum Straight Outta Compton (nome compartilhado pelo filme lançado em 2015 que conta a história do grupo) e Spike Lee lançou seu primeiro filme Faça a coisa certa, e, em dezembro de 89 Os Simpsons estrearam na tv.

Ainda que, aparentemente, todos estes elementos do parágrafo anterior sejam desconexos, todos eles tem uma mensagem e ideia principal que é bastante semelhante em vociferar algumas das angústias de uma geração cansada da ‘propaganda de margarina’ de uma falsidade consumista dos anos 80. Até mais, nos casos de Spike Lee e o NWA de uma falsidade que os excluía simplesmente pela cor de sua pele.

Curiosamente, se existe algo que sintetizou tudo isso, todo esse sentido de alienação e confusão diante de um mundo que não parece real foi John Carpenter com o filme de 1988 Eles Vivem (They Live, no original) em que o protagonista, um trabalhador braçal com enorme dificuldade de achar emprego, descobre acidentalmente que nosso mundo é permeado por mensagens subliminares para manter a humanidade dócil e domada, pronta para ser assimilada por uma raça alienígena superior.

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Esse é um tema que se repete pelo menos mais três vezes na década de 90, de maneira mais sutil com Arquivos X (de 93 que traz uma invasão alienígena ocorrendo secretamente nos bastidores), e mais direta com os Invisíveis (de 94 que traz um grupo de anarquistas em roupa de couro lutando contra uma invasão pandimensional que vem ocorrendo secretamente nos bastidores) e o Matrix (de 99 com um grupo de anarquistas em roupa de couro lutando contra uma invasão robótica que já aconteceu secretamente nos bastidores).

Digo pelo menos, pois ainda existem vários outros exemplos como Twin Peaks de 1990 por David Lynch com seu quarto vermelho e os questionamentos sobre realidade e nossa percepção dela – e que abriu caminho para possibilitar os Arquivos X anos mais tarde, enquanto, em 1998 O Show de Truman com Jim Carrey e dirigido por Peter Weir lançava o mesmo tom de um mundo artificialmente concebido da Matrix – também gerido por um vilão que busca ganho pessoal a partir disso tudo, só que aqui dinheiro e não baterias.

Todos tem em comum ideias antigas da alegoria da caverna de Platão (que a percepção do mundo como conhecemos, pode, na verdade, ser minimalista devido a nossa capacidade de compreender a extensão da realidade… É um pouco mais complexo que isso). Uma ideia de que não era possível confiar nas instituições, pois estavam a nos vender mentiras – o que, devemos lembrar, era até certo ponto verdade… Pode parecer estranho hoje, mas a indústria de cigarros era gigantesca, patrocinando eventos culturais (como o Free Jazz Festival que era enorme), eventos esportivos (Ayrton Senna era patrocinado pela Camel) e propagandas de cigarro passavam na televisão a todo momento e horário (inclusive durante programas infantis, com os exemplos dos Flintstones fazendo comercial de cigarros) sem qualquer tipo de aviso ou discriminação de como o produto faz mal.

Mais que isso, havia uma inquietação comum que estava fervilhando e surgindo e que, um homem era capaz de sintetizar em sua fala: Bill Hicks. Hicks com sua voz ardida e (mau) humor ácido, que era mais um pastor que um comediante de stand up, falando sobre a humanidade com seu enorme cinismo (afinal, somos apenas vírus com sapatos) e o humorista conseguiu em um de seus mais brilhantes momentos explicar toda a situação. É apenas um passeio.

(Tradução livre)
O mundo é como um passeio em um parque de diversões.
E quando você escolhe andar nele, pensa que é real porque isso é o que há de poderoso em nossas mentes. E o passeio sobe e desce e dá voltas. Tem emoções e frios na barriga e é bem brilhante e colorido, barulhento e divertido, por um tempo. Algumas pessoas estão no passeio por um bom tempo e começam a se perguntar “Isso é de verdade ou só um passeio?” E outras pessoas se lembram, e nos olham e dizem “Ei, não se preocupe, não tenha medo, nunca, porque é só um passeio”.
E nós matamos essas pessoas.
“Calem-no! Nós temos muito investido nesse passeio! Calem-no! Olhem para minhas rugas de preocupação… Olhe para minha conta bancária, e minha família. Isso tem que ser verdadeiro”.
É só um passeio. Mas nós sempre terminamos matando aquelas boas pessoas que tentam nos falar isso, já notaram? E deixamos os malditos tomarem controle. Mas isso não importa porque…? É só um passeio.
Podemos mudar isso a qualquer momento que queiramos. Só precisamos escolher. Não precisa de esforço, emprego, economias ou dinheiro… Uma escolha, agora mesmo, entre medo e amor.
Aos olhos do medo você deve comprar travas para a porta, armas e se isolar.
Aos olhos do amor por outro lado você enxerga todos nós como uma única pessoa.
Veja o que nós podemos fazer para que mundo seja um lugar melhor, um passeio melhor… Pegue todo o dinheiro gasto com armas e com (o departamento de) defesa todo ano e passemos a gastar dando roupas, comida e educação aos pobres do mundo – o que nós poderíamos ter feito diversas vezes sem a exclusão de um único ser humano – sobrando recursos para explorar o espaço. Juntos. Tanto interior quanto exterior. Para sempre. E em paz.

Agora que os principais atores e elementos foram apresentados, temos tudo pronto para a parte 2 com uma resenha propriamente dita de Os Invisíveis e suas semelhanças (e diferenças) para o Matrix. Aguarde :)

É colaborador do Resenhando Sonhos.
Mestrando em ciências ambientais, pós graduado em geoprocessamento. Apaixonado por quadrinhos e literatura desde pequeno, escritor ocasional além de um INTJ em tempo integral.