A Essência do Mal – Luca D’Andrea

A Essência do Mal é o primeiro thriller do autor Luca D’Andrea. Ele foi lançado em 2018 pela editora Intrínseca.

Sobre o livro

Em 2012, o americano Jeremiah Salinger é um produtor de documentários. Sua vida transforma-se quando ele decide mudar para a cidade natal da esposa, no interior da Itália, com ela e a filha de 5 anos. A cidade é Siebenhoch e trata-se de um pequeno vilarejo. Muito bonito, mas que possui histórias muito antigas.

Logo depois de iniciar com um novo projeto, Jeremiah passa por um grande trauma. E por isso, ele desenvolve um TEPT – Transtorno do Estresse Pós-traumático – e passa a ouvir uma estranha voz dentro da sua cabeça que ele chama apenas de a Besta. E isso é algo que pode impactar tanto sua vida profissional quanto pessoal. Apesar dos problemas, sua mente nunca parou de funcionar e sua curiosidade pode levá-lo a encontrar algo assombroso no passado dessa cidade.

“Aquela voz. E o cheiro dela. O cheiro da Besta. Um cheiro metálico, que deixava uma camada de insensibilidade na minha boca. Um cheiro antigo. Antigo a ponto de revirar o estômago. Porque a Besta era antiga. Tão antiga que… finalmente gritei.”

Em 1985, três jovens foram brutalmente assassinados e decepados nas montanhas que rodeiam o vilarejo. Esse é conhecido como o massacre de Bletterbach. O cruel assassino nunca foi encontrado e esse parece ser um assunto muito delicado entre o povo que vive nesse pequeno lugar. Essa sádica história vira a obsessão desse estrangeiro, e ele não desistirá até desvendar esse mistério.


Minha opinião

É só falar em Stephen King que eu já levanto minhas orelhas. Ao observar na contracapa do livro a afirmação de que é “facilmente comparável” com ele, fiquei no mínimo curiosa. A sinopse foi outra que me deixou atenta. Um lugar remoto, assassinatos sem explicação e uma voz que o protagonista ouve e denomina apenas de “a Besta”. Pronto, eu já tinha todos os elementos que me interessavam.

O que constatei é: sim, a escrita é extremamente parecida com a do King. Um pai que, apesar de amoroso e espirituoso, tem os seus problemas, mortes estranhas e sem explicações, descrições detalhadas (por vezes até desnecessárias), diálogos fluidos e uma voz assombrosa. Mas, fora isso, nada mais. Creio que construí grandes expectativas para essa trama. Estava pronta para encontrar algo extremamente sombrio e bem elaborado, mas o livro me entregou uma história lenta, morna e que misturou diversos elementos na ânsia de entregar algo original.

Não me entenda mal, a escrita é realmente boa, mas o enredo deixa a desejar. Se o autor seguisse por outro viés, seria um livro digno de 5 estrelas. Mas essa necessidade de dar explicações mirabolantes com o intuito de “impactar” o leitor com uma grande revelação, apenas me desagrada. Vale mais uma revelação simples e bem escrita que uma elaborada e sem nenhum sentido aceitável.

“Mergulhei na treva que devora os mundos. Encontrei-me à deriva no espaço profundo. Uma única, imensa, infindável noite eterna de uma brancura espectral.”

A premissa de que algo demoníaco está adormecido nessa montanha, me levou a matutar sobre diversas suposições. Daí minha mente fértil passou a questionar sobre a vida, o universo e tudo mais. Quantos mistérios existem por aí e nem sonhamos? Imagina o que o ser humano ainda não descobriu? Quantos monstros podem estar escondidos apenas esperando que algum desafortunado vá importuná-los? Não sei. Só que sei há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia. Já diria Shakespeare. E pensei que aqui me depararia com algo, no mínimo, interessante.

Os lugares apresentados pelo autor são esplêndidos. Todas essas descrições me levaram a correr para o google atrás de imagens de montanhas e pacatos vilarejos da Europa.  São passados muitos detalhes para ajudar o leitor a compor esse mundo revestido de branco, de belas vielas e lugares. Quase sentimos que estamos junto com Jeremiah desbravando essas terras.

Quero ressaltar dois personagens: o primeiro é Jeremiah, pai amoroso, cheio das piadas engraçadas e que possui grande amor pela filha e a esposa. Mas, que não pensa duas vezes antes de entrar de cabeça em uma investigação e que por vezes arrisca mais que a vida atrás de respostas. Por vezes sua inconsequência me deixava abalada. Ele se arrisca muito e mais para o final eu já estava cansada de seus heroísmo.

“Eu revia a Besta. Ouvia o sibilo. Mas a Besta estava menos presente, a sua voz estava mais abafada, como se pertencesse a outra vida. Não era mais uma lembrança que me devorava, mas alguma coisa indefinida e indefinível. Longe, para minha sorte.”

O segundo é o vilarejo. Sim, você não leu errado. Esse lugar parece ter vida própria. Seus peculiares habitantes, os buxixos, aquela estranheza com os forasteiros e o quanto ele parece pulsar com tantos segredos. Cada um possui algo que ficou escondido no passado e queremos desvendar. Os clássicos fofoqueiros de plantão, as autoridades que exageram no poder e aqueles que apenas querem levar sua vida sem incomodar ninguém. Figuras já conhecidas daqueles que viveram em lugares assim.

A Besta também não poderia ser deixada de lado.  Afinal, ela foi o ponto que mais interessou e eu imaginava que ela seria quase uma protagonista de tudo isso. Sempre que ela era ouvida, eu esperava um grande show. Mas, tenho até vergonha de admitir, não sei se eu realmente entendi o que estava por trás dela. Também não sei se ela teve toda a relevância que merecia. Fiquei insatisfeita, não vou negar. Faltou explorar esse elemento, que apenas foi colocado na trama sem realmente ser apresentado de maneira satisfatória.

Mas enfim, se você quer passear por esses lugares incríveis e dar uma de investigador, não deixe de dar uma chance a esse livro. Acompanhe a história de um homem consumido pela obsessão e vontade de fazer justiça. E descubra o que está por trás dessas mortes.

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A ESSÊNCIA DO MAL

Autores: Luca D’Andrea

Editora: Intrínseca

Ano de publicação: 2018

Um lugar amaldiçoado. Um caso abandonado. Um assassino que não deixa rastros. Jeremiah Salinger ganha a vida fazendo documentários, até que se muda com a família para uma região remota da Itália. Lá, após um acidente com o helicóptero em que está fazendo uma filmagem, passa a ser atormentado pela ideia de que existe nas montanhas ao redor uma força que não consegue entender e a que chama de A Besta. Anos depois, em um passeio com a filha no Bletterbach — um desfiladeiro com toneladas de fósseis —, Jeremiah escuta uma conversa que lhe dá um novo foco na vida. Em 1985, três jovens foram mortos ali, e seus corpos, desmembrados por um assassino que nunca foi descoberto. Para solucionar o mistério, que marcou uma cidade inteira por décadas, Jeremiah mergulha em um quebra-cabeça macabro e fascinante.

É colaboradora do Resenhando Sonhos.
Natural de São Sepé, atualmente morando em Santa Maria.
Formada em Gestão da TI pela URCAMP e cursando Produção Editorial na UFSM.
Apaixonada por livros, Johnny Cash e cachorros.