A Luz Que Perdemos – Jill Santopolo

A Luz Que Perdemos é um livro da autora Jill Santopolo. Sua publicação é de 2018 pela editora Arqueiro.

Sobre o Livro

Enquanto os aviões atingiam as torres gêmeas em 11 de setembro, Lucy e Gabe experimentavam um sentimento muito parecido com um encontro de almas. Jovens, na faculdade, acabavam de se conhecer e já acreditavam que nascia ali uma relação especial. Única. O encontro durou pouco tempo, cada um seguiu com a sua vida, até que anos depois se reencontraram e foi como se não houvesse existido nem um centímetro de distância entre eles. A paixão era intensa. Como uma espécie de reação química daquele tipo que acontece quando a gente joga Mentos dentro de uma garrafa de Coca Cola: a coisa explode, respinga em quem está por perto, atinge um tamanho muito grande em poucos instantes, mas não necessariamente dura muito tempo. A separação desta vez se deu porque Gabe precisava se encontrar enquanto pessoa, enquanto profissional. Ele tinha acabado de descobrir uma fascinação pela fotografia e acreditava que seu destino era registrar situações que aconteciam do outro lado do mundo… Em países que viviam situações delicadas. Em lugares que estavam em guerra.

“As linhas que separavam você de mim dissolviam-se cada vez mais em um nós.”

Lucy tinha suas próprias aspirações, e nesse momento, embora doesse muito, eles perceberam que ambos tinham o direito de seguir em busca de seus sonhos. Pelo menos daqueles que eram individuais, que não incluíam o outro. Infelizmente essa consciência não diminuía o tamanho da dor, o desespero que vem com a separação de quem a gente ama, com a ruptura de uma relação até então idealizada. Eles eram perfeitos juntos, afinal… Mas essa perfeição não foi suficiente para mantê-los juntos. Hoje, anos depois, Lucy conta tudo o que aconteceu depois do término. Que outra relações começaram a partir dali, de que maneira os sonhos foram se realizando ou se interrompendo. A protagonista conta, de maneira sensível e direta, como se estivesse conversando diretamente com mais alguém, todas as consequências que precisamos enfrentar após cada decisão. Ela fala, sem tentar esconder sua dor, como cada ato, cada palavra e cada pensamento pode repercutir na nossa vida e na de pessoas que estão por perto. Ela explica como o tempo nem sempre é nosso aliado. E que não é necessariamente verdade que ele cura todas as feridas.


Minha Opinião

O que faz você gostar de um livro? O que faz você terminar uma história achando que ela foi incrível? O que pesa na hora de decidir se um livro é bom ou ruim? Eu costumo analisar de maneira bem ampla: primeiro vejo a capa, sou dessas que muitas vezes escolhe a ordem de leitura de acordo com o que o livro me fez sentir, visualmente falando. Quando possível, gosto de pegar o livro, ver como ele se encaixa nas minhas mãos, observo se a fonte foi bem escolhida e se vai facilitar minha leitura. Depois disso, eu começo a ler, muitas vezes sem conhecer a sinopse daquela obra, tentando ir descobrindo aos poucos do que se trata aquele trabalho. Com este livro segui mais ou menos esse ritual, e com exceção de uma ou duas dicas que a capa nos dá, eu confesso que não estava preparada para o que a história nos reserva.

A narrativa é intimista desde o começo. Lucy vai contando para Gabe toda a história deles, sob a perspectiva dela, desde o momento que eles se conheceram. O marco inicial aqui é o atentado às torres gêmeas, um acontecimento que marca os protagonistas e que por isso volta e meia é citado. Ela conta como aconteceu a aproximação, como houve o afastamento, como a vida seguiu seu fluxo apesar de qualquer coisa. Desde o começo a gente sente que tem algo ali. A Lucy não é perfeita, mas é uma personagem cheia de camadas que vai revelando aos poucos conforme nos conta sobre sua vida e sentimentos. Ela é inteligente, apaixonada, divertida e passional. Ela é muito empática e sensível com relação ao outro, de modo que seu comportamento desperta no leitor sensações como: não acredito que você fez isso. Ou, ainda bem que você agiu assim… Uma dicotomia maluca e total.

“Se eu fosse um árbitro, se a vida fosse um jogo, eu deveria ter parado e gritado Falta! Ou Recomece! Como fazia quando eu estava na colônia de férias. Mas não há árbitros na vida real, nunca há um recomeço.”

É por isso que a narrativa, totalmente parcial, já que temos somente o ponto de vista dela, nos faz sentir sentimentos contraditórios desde o começo, e a confusão aumenta quando conhecemos Gabe. Um jovem sonhador, que se transforma em um homem corajoso, impulsivo, apaixonado. Que aos poucos vai se transformando em um profissional incrível, e que por isso muitas vezes faz com que o leitor concorde com determinadas decisões que ele tomou.

A parte boa de acompanhar a trajetória deste personagem é que a autora misturou fatos reais na narrativa, nos transportando para o Iraque, Afeganistão e suas zonas de guerra. Para os Estados Unidos lidando com  o terrorismo, elegendo o Obama, mostrando as particularidades de seus bairros mais famosos, mostrando o contexto histórico de cada época, com a parte boa e a ruim. Isso enriqueceu a narrativa, transformou Gabe em uma pessoa mais real do que imaginária. Em contrapartida a gente sente uma dose grande demais de tristeza vindo desse personagem, o que torna a história ainda mais agridoce. Gabe é aquele tipo de personagem paradoxal. É lindo e feio em igual medida.

“Há muitos momentos decisivos que mudam nosso mundo. Algumas vezes, a causa é nossa decisão. Outras, os desígnios do universo, do destino, de Deus, de algum poder supremo, não importa o nome. Não sei, faz hoje treze anos que luto com esse problema.”

Outros personagens importantes são inseridos na obra e cumprem bem seu papel. O irmão de Lucy, seu novo amor, suas amigas, os filhos… Cada um destes personagens surge por um motivo, e estes são explicados conforme a protagonista vai relatando fatos significativos que aconteceram durante treze anos. Situações que se mostraram importantes no momento em que aconteceram ou só tempos depois… Tudo aqui está de alguma maneira conectado, e isto mostra o quanto Jill Santopolo é talentosa. O texto é fluido e bem construído, de forma que até os livros citados pelos personagens linkam perfeitamente com esta história. Ela vai construindo uma teia totalmente emaranhada num primeiro momento, mas que vai se desenrolando de maneira tão incrível que é impossível não reconhecer que o livro é bom. Que é ótimo.

Acontece que, particularmente falando, para eu gostar de um livro, ele precisa ser muito mais do que bom, ou incrível, ou bem escrito. Ele precisa ser muito mais que uma capa bonita e ter muito mais do que uma autora talentosa. Não me entendam mal, A Luz que Perdemos é um livro fantástico, por tudo o que já citei. Mas principalmente porque faz o leitor apreender tudo de maneira extrema, desde o começo, desde que pegamos ele nas mãos e sentimos a aspereza da capa. Desde o inicio lidamos com emoções diversas e a gente sabe que não são todas as histórias capazes de nos tocar dessa maneira. Mas é esse ponto tão especial do livro, um ponto que o torna tão bacana, que me fez desgostar tanto dele. Eu senti tanto, fiquei tão melancólica, tão triste, com um sentimento de desesperança tão grande quando a história acabou, que fiquei imaginando o quanto um “E SE” é cruel. O quanto ser empática pode ser desaconselhável em determinados momentos da vida, mesmo que essa empatia se dê por personagens literários.

Fiquei aqui pensando no quanto me sinto mal em finalizar uma leitura com esse sentimento de ter ficado na bad, quando o que costumo procurar nas histórias é justamente um sentimento de esperança. Então, depois de tudo isso, vou reformular a pergunta lá de cima:  que dilema é esse que os autores nos impõe, de ter que lidar com essa situação, de achar um livro incrível e ainda assim não ter gostado dele? Como é possível avaliar uma obra que nos faz sentir desta forma? Se alguém souber de uma resposta para essa questão, aceito dicas, sugestões, conselhos. Ou indicações de outras histórias que sejam capazes de nos tirar de uma ressaca literária sem precedentes.

A LUZ QUE PERDEMOS

Autor: Jill Santopolo

Editora: Arqueiro

Ano de publicação: 2018

Lucy e Gabe se conhecem na faculdade na manhã de 11 de setembro de 2001. No mesmo instante, dois aviões colidem com as Torres Gêmeas. Ao ver as chamas arderem em Nova York, eles decidem que querem fazer algo importante com suas vidas, algo que promova uma diferença no mundo.
Quando se veem de novo, um ano depois, parece um encontro predestinado. Só que Gabe é enviado ao Oriente Médio como fotojornalista e Lucy decide investir em sua carreira em Nova York.
Nos treze anos que se seguem, o caminho dos dois se cruza e se afasta muitas vezes, numa odisseia de sonhos, desejo, ciúme, traição e, acima de tudo, amor. Lucy começa um relacionamento com o lindo e confiável Darren, enquanto Gabe viaja o mundo. Mesmo separados pela distância, eles jamais deixam o coração um do outro.
Ao longo dessa jornada emocional, Lucy começa a se fazer perguntas fundamentais sobre destino e livre-arbítrio: será que foi o destino que os uniu? E, agora, é por escolha própria que eles estão separados?
A Luz Que Perdemos é um romance impactante sobre o poder do primeiro amor. Uma ode comovente aos sacrifícios que fazemos em nome dos ­nossos sonhos e uma reflexão sobre os extremos que perseguimos em nome do amor.

Uma leitora frenética e inquieta, apaixonada por histórias fantásticas e com uma tendência a se deliciar com romances água com açúcar. Viciada em fotografias e gatos, é uma apreciadora das pequenas coisas e costuma ver beleza até onde não há.