fbpx

A Melhor Escolha (2018) | Crítica

Além de Richard Linklater, poucos conseguem dar tanto significado a uma cena simples de pessoas sentadas, de boa, conversando. Em A Melhor Escolha, essa é sua arma secreta.

Linklater é responsável por obras como Boyhood, Escola de Rock, a trilogia Before (Antes do Amanhecer, Antes do Pôr do Sol, Antes da Meia-Noite) e o recente Everybody Wants Some, que trataram da juventude, de romances e relacionamentos construídos em cima dos sonhos e medos proporcionados por ela. Foram obras brilhantes que habilitaram o diretor e escritor a pisar em novo território em A Melhor Escolha, uma trama, essencialmente, sobre homens na terceira idade lidando com a morte.

Last Flag Flying, que no Brasil foi intitulado A Melhor Escolha (o que definitivamente não foi a melhor escolha) (sim, é pra rir), é essencialmente um road trip movie, acompanhando o trio protagonista numa viagem pela costa leste americana. Larry, Sal e Mueller – Steve Carrell, Bryan Cranston e Lawrence Fishburne, respectivamente – serviram juntos no Vietnam nos anos 70; foram jovens, irresponsáveis e inconsequentes juntos, mas, depois do retorno aos Estados Unidos, se separaram. 30 anos depois começa a história do filme, em 2003, quando Larry procura os outros dois para pedir um favor: seu filho, Larry Jr, foi morto em combate (desta vez, a guerra foi no Iraque) e ele precisa do apoio dos antigos amigos para reaver o corpo e enterrá-lo.

Como eu comentei no início do texto, os diálogos que Linklater usa para expor o que os personagens vivem e sentem são a pérola do filme; mas as atuações são o conseguem levar este roteiro a um patamar palpável e real. Steve Carrell é o mais verossímil deles: um tiozão com personalidade fraca que, ao perder todos que ama, se volta a seus amigos “mais próximos”, os colegas de serviço que não via há 30 anos. Carrell é o protagonista do filme, mas protagoniza poucas cenas, o que fala ainda mais sobre a construção de seu Larry – condenado a ser a vítima e o coadjuvante ao longo de sua vida.

Enquanto isso Bryan Cranston entrega uma performance em geral bem balanceada (um pouco forçado aqui e ali, mas no geral bem consistente; Sal é o coração rebelde do trio, piadista e sarcástico, e suas ações são a principal engrenagem que leva o filme para frente. Fishburne fica com o papel de Mueller, que era devasso na juventude e agora é pastor em uma igreja no interior; ele é o sensato do grupo, e suas melhores cenas são quando consegue se abrir diante dos amigos.

No início da sessão pensei que havia decifrado tudo: era um road trip sobre guerra que teria Carell no centro, Cranston como o diabinho em um ombro e Mueller como o anjinho no outro. Ao longo das conversas e “enrascadas” que o grupo se encontra, mais exposição vêm à tona e mais camadas são adicionadas a eles. Não é nada disso. Mesmo que Mueller seja a representação do tópico da espiritualidade, da religião e do reforçado papel de Deus e das crenças na vida dos veteranos de guerra, seu personagem também fala de amizade e amor. Mesmo que Sal seja o velho fanfarrão, dono de bar, alcoólatra solteirão, personificando a rebeldia que os acompanhou quando jovens, aos poucos vamos vendo como chegou lá e que assuntos ele trás à dinâmica.

Enfim, eu poderia discorrer sobre as tensões que as personalidades dos três despertam umas às outras, mas não preciso, porque o filme faz isso! Esse é o filme! E esse é o talento de Richard Linklater: ele consegue fazer filmes cujas histórias são sobre os personagens, e não filmes cujos personagens são submetidos a histórias.

A Melhor Escolha pode ter alguns defeitos como seu tamanho (um pouco longo demais, mesmo) ou suas opiniões sobre a guerra, os Estados Unidos e as Forças Armadas; mas o filme tece suas reflexões sobre morte, culpa, memória e perdão de formas tão delicadas e profundas que, honestamente, não há como não sentir com eles.

Este também não é um filme que eu dispararia recomendando a todos, não é uma obra-prima, nem um grande provocador de reflexões pertinentes. Mas é um filme apropriado para um domingo chuvoso em que você está se sentindo introspectivo, um combo de duas horas de sorrisos melancólicos, risadas culpadas e pura compaixão.

A MELHOR ESCOLHA

Diretor: Richard Linklater

Elenco: Bryan Cranston, Laurence Fishburne, Steve Carell e mais

Ano de lançamento: 2018

Anos depois de terem levado Meadows (Steve Carell) para a prisão, os marinheiros Buddusky (Bryan Cranston) e Mulhall (Laurence Fishburne recebem uma ligação do velho amigo pedindo que ambos o ajudem a trazer para casa o corpo do filho que foi morto na Guerra do Iraque.

Gaúcho porto-alegrense apaixonado por cinema, séries de televisão e gatos. Relações Públicas por formação; comunicador por natureza.