Altered Carbon (2018) | Crítica

Toda a nossa vida é baseada em um ciclo, que começa no nascimento e termina com a nossa morte. Todos os seres vivos em determinado momento vão morrer. É assim que é desde que sabemos que existimos. Mas, e se a morte pudesse ser burlada? E se fosse possível viver para sempre, mudando apenas de corpo? Será que o mundo seria melhor? A civilização seria melhor? É nesta premissa que se baseia a nova produção original da Netflix, Altered Carbon, baseado na série literária de mesmo nome e que já teve resenha aqui no blog (link aqui).

A série se passa em um futuro distante, no século XXV, onde a tecnologia humana evolui a tal ponto de ser possível transferir a consciência de uma pessoa para um cartucho e, a partir dele, para outro corpo, aqui conhecido como capa. Com essa tecnologia, praticamente ninguém morre, e os que detém de poder financeiro maior, podem viver por centenas de anos. Assim, muitos deles passaram a ser chamados de Matusas, em comparação ao personagem bíblico Matusalém.

Incorporando o protagonista está Takeshi Kovacs (Joe Kinnaman – Bryon Mann), um ex-emissário do Protetorado, uma espécie de exército de alta patente de desempenho biológico. Após alguns crimes cometidos no Mundo de Harlan, um dos inúmeros planetas colonizados, ele é capturado e sua mente é enviada há 200 anos longe de sua casa. Sua nova morada é a Terra, na cidade de Bay City. Chegando aqui, ele recebe uma missão: desvendar o assassinato do matusa Laurens Bancroft e assim ganhar sua liberdade ou voltar para a geladeira. Após algum tempo de renúncia, Takeshi acaba aceitando o emprego e inicia a investigação.

Paralelamente a ele, temos a personagem Cristin Ortega (Marta Higareda), a agente policial que anteriormente investigou o possível assassinato de Bancroft, chegando a conclusão de que ele tentara cometer suicídio. Ao mesmo tempo em que ela fica de olho nos passos de Kovacs, ela passa a descobrir outras conspirações ligadas à capa que Takeshi habita, além de outros crimes até então desconexos. Os caminhos dos dois personagens se cruzam continuamente, e cada vez mais o cerco vai se fechando, as conspirações vão aparecendo e a trama ficando mais ácida e aprofundada.

Com apenas 10 episódios na primeira temporada, é possível falar positivamente da série, se comparada com o seu livro base. Diferentemente na obra escrita, onde achei a trama sobrecarregada com cenas de sexo, drogas e monólogos extensos, a série consegue ganhar vida própria e caminhar de forma mais suave e espontânea. Nela temos várias linhas temporais, onde adentramos a cabeça e o passado de Takeshi Kovacs, seu passado dentro do Protetorado, entre outros aspectos, bem como podemos acompanhar de forma separada as investigações feita por Ortega e as conclusões que as suas pesquisas resultam. Além disso, as cenas de sexo e drogas são bem pouco presentes, muitas vezes durando apenas alguns breves segundos.

A série também se destaca por tornar mais discutível o papel do ser humano como algo vivo, e que a morte representa dentro desse ciclo. Da mesma forma que no livro, há pressão por parte dos grupos religiosos que não concordam com “imortalidade” e que condenam a tecnologia, dizendo ser obra do demônio e que somente Deus pode conceder a vida aos seres humanos. O debate entre a existência ou não da alma como parte integrante do ser humano é feito constantemente, cabendo ao expectador tirar as próprias conclusões. Um dos episódios que achei mais interessante foi em um jantar de família, da Ortega e sua mãe, onde ambas discutem sobre o papel de “deus” na sociedade e o que de fato era milagre; como os cartuchos salvavam vidas, e porque a religião atrasavam alguns casos na Justiça, já que para os adeptos do catolicismo, por exemplo, após morrer seu cartucho não poderia ser baixado em um novo corpo.

É comum no gênero cyberpunk idealizar um futuro distópico, onde a qualidade de vida se perde e a sociedade se desmoraliza. Não é difícil ver que Altered Carbon bebe da mesma fonte de Blade Runner, não apenas pela ambientação, mas também pelas representações gráficas da cidade, com seus prédios altos e iluminados por diversas luzes neon, quase todas em tons de vermelho e roxo, sem falar também na presenta de inúmeras máquinas tão humanas que às vezes é complicado saber quem é quem dentro da trama. Juntamente com esses detalhes há o dilema das diferenças sociais. Os matusas são os ricos poderosos que podem trocar de capa sempre que quiserem, enquanto os mais pobres lutam diariamente para manter as suas capas a salvo, caso contrário, não terão dinheiro para comprar uma nova.

Ainda que o enredo se perca um pouco em algumas explicações demasiadas, os episódios são muito bem amarrados entre si e os personagens da série conseguem explorar de forma clara as diversas facetas do universo representado. Além disso, observei que a série trouxe duas grandes mudanças na trama. Uma delas é o amigo de Takeshi, Vernon Elliot (Ato Essandoh), que se alia a ele na investigação, enquanto no livro ele é apenas uma das pessoas que acabam sendo interrogadas por Kovacs. A outra mudança também é a inclusão do elo familiar, representada pela irmã do protagonista, Reileen Kawahara (Dichen Lachman), que até onde me recordo no livro não se faz presente.

Deixando de fora as perdas que o enredo faz, e também algumas atuações questionáveis dos personagens, dá para dizer que Altered Carbon consegue se manter de “queixo erguido” em sua primeira temporada. Ainda que alguns dos conceitos tratados não seja nenhuma novidade no mundo da ficção científica, como a transferência de mente entre corpos e a presença de robôs perfeitamente humanos, os assuntos abordados acabam por cativar o expectador e reascendem a discussão social quanto à questão da essência humana enquanto ser inteligente e dominante e também as implicações sociais que a alta tecnologia desencadeia, onde o que se espera é uma igualdade prática, mas o que se vê é luta desenfreada por poder e riqueza.

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ALTERED CARBON

Diretor: Laeta Kalogridis

Elenco: Joe Kinnaman, James Purefoy, Martha Higareda e mais.

Ano de lançamento: 2018

No futuro, a sociedade se acostumou à prática da troca de corpos: após armazenar a consciência de uma pessoa, ela pode ser transferida a outra “capa”, podendo viver várias vidas. O mercenário Takeshi Kovacs (Joel Kinnaman) acorda após 250 anos em outro corpo. Além de se adaptar a esta situação e à nova sociedade, ele é contratado por um homem riquíssimo para descobrir o autor de seu próprio assassinato. Tak conta com a ajuda de uma policial mexicana, um ex-militar tentando ajudar sua filha e um robô equipado com inteligência artificial.

É colaborador do Resenhando Sonhos.
Catarinense, Publicitário formado pela UNOESC, apaixonado por sci-fi, distopias e suspense policial. Fã de Arquivo X e Supernatural, sonha um dia encontrar os aliens.