Animais Fantásticos e Onde Habitam (2016) | Crítica

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Em Animais fantásticos e onde habitam, J.K Rowling presenteia os potterheads, o público e todos nós, vis condenados que até hoje esperam suas cartas de admissão em Hogwarts, com uma imaginativa expansão do universo mágico apresentado na saga de Harry Potter; desta vez ambientada na Nova York dos anos 20, em um tempo em que os bruxos se veem ameaçados em meio a uma conflituosa convivência com os “no-majs” (não bruxos) – sinônimo estadunidense para “trouxas”, como dizem os britânicos. Nesta expansão, J.K, que assina a produção e o roteiro, cria uma peça nova baseada em sua obra homônima, pretentida como um livro didático de magizoologia (descrevendo as criaturas mitológicas do mundo bruxo) e caderno de anotações de Harry, lançada em 2001. O que significa que o conteúdo do filme é original e não publicado em literatura, passando-se décadas antes do acontecido em Hogwarts.

Na história, somos apresentados a Newt Scarmander, magizoólogo que chega a Nova York à procura de um espécime americano para seu enorme “zoológico”, carregado consigo em sua maleta mágica. O objetivo de Newt é catalogar esse seres e também protegê-los dos efeitos que sua descoberta pelo mundo tanto mágico ou humano pode ter. Ao chegar à cidade, Newt acidentalmente troca de malas com Jacob Kowalski, um trabalhador comum que sonha em abrir uma padaria, após uma cômica confusão em um banco, o que acarreta na trágica libertação de muitos dos animais e criaturas fantásticas carregadas por Newt – situação agravante da crise que passa a comunidade bruxa americana necessitante de discrição e cuidado: estão à beira de um conflito grave com os “no-majs” devido a prática da magia.

Posto isto, evito aqui maiores revelações sobre enredo, potenciais spoilers, entre outras coisas-que-não-devem-ser-nomeadas. Animais fantásticos e onde habitam é, acima de tudo, um delicioso retorno ao universo mágico da saga de Harry Potter, criada por J.K Rowling, merecedora de todos os elogios por criar um mundo tão imaginativo, e trazido à vida em forma de filme de maneira competente pelo diretor David Yates. Eu sentia saudade dos pôsteres e jornais com imagens animadas, dos feitiços e de toda a mitologia que os acompanha, admito.

Animais fantásticos e onde habitam não é um “Cidadão Kane” (filme icônico, clássico absoluto e homenageado em uma das cenas do filme, aliás) e nem pretende o ser; ele é, antes de tudo, uma espécie de retribuição amorosa de Rowling aos fãs da saga e do universo de Potter, que ao ser transposto a Nova York dos anos 20 em meio aos Fords T, ao jazz (que poderia ter sido melhor aproveitado) e às tensões políticas pré Segunda Guerra, cria um mundo romântico e acreditável, mesmo com os feitiços e varinhas e outros elementos fantásticos. David Yates, o diretor, acompanha J.K em sua competência, apesar de menores deslizes; mas desculpáveis dado a pretensão da obra.

Efetivo ao estabelecer as premissas da história, o roteiro desenrola-se com naturalidade e inventividade até meados do filme, momento em que se dão as primeiras ações dos personagens, e passam a surgir as primeiras consequências dramáticas; o script, então, passa a fazer uso de clichês, soluções “mágicas” (com perdão do trocadilho) e artifícios melodramáticos comuns ao gênero dos demais blockbusters – o que não é pecado nenhum: denota antes a sobriedade de J.K em sua estreia como roteirista ao equilibrar a originalidade e criatividade de seus livros e os clichês onipresentes no cinema atual, de Marvel à Michael Bay, sem se curvar totalmente a eles. Não condeno os clichês, eles são necessários, em alguma medida, para uma arte cinematográfica de massas (isto é, consumível e compreensível por todos), sendo mérito da roteirista o equilíbrio criado: contudo, talvez tenha faltado maior ousadia por parte dela para a criação de uma obra mais original e única; tal opção, de qualquer maneira, passa longe de comprometer a qualidade da obra.

Ao fim, Animais fantásticos e onde habitam é um filme que não cede ao seus poucos erros e nos mantém sempre conscientes de suas virtudes, deixando muitos elementos em aberto para a histórias das sequências que hão de vir. Ao assistirem, os fãs e potterheads chorarão e entrarão em êxtase, o público comum se comoverá, e os críticos chatos reclamarão dos clichês do script; todos, porém, em uníssono, ainda assim se emocionarão com a lembrança nostálgica do quão belo é o imaginativo mundo de bruxos e trouxas criado por J.K. Rowling.

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ANIMAIS FANTÁSTICOS E ONDE HABITAM

Diretor: David Yates

Elenco: Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Dan Fogler e mais

Ano de lançamento: 2016

O excêntrico magizoologista Newt Scamander (Eddie Redmayne) chega à cidade de Nova York levando com muito zelo sua preciosa maleta, um objeto mágico onde ele carrega fantásticos animais do mundo da magia que coletou durante as suas viagens. Em meio a comunidade bruxa norte-america, que teme muito mais a exposição aos trouxas do que os ingleses, Newt precisará usar todas suas habilidades e conhecimentos para capturar uma variedade de criaturas que acabam fugindo.

É colaborador do Resenhando Sonhos.
Cético, é daqueles que precisam ver para crer.
Pedro é estudante de Jornalismo na UFRGS, cinéfilo e meio míope.