Apenas Uma Garota – Meredith Russo

Apenas Uma Garota, da autora Meredith Russo, é um lançamento de 2017 da editora Intrínseca.

SOBRE O LIVRO

Amanda Hardy é uma adolescente trans que, após um evento traumático na cidade onde vivia com a mãe, se muda para o interior, para a casa do pai com quem pouco se falava até então. Amanda busca, deste modo, começar uma nova vida, uma vida onde ninguém precise conhecer seu passado e na qual ela possa ser apenas uma garota comum.

Mas Amanda sabe que precisa ter cuidado. Em uma cidade do interior, criar intimidade e deixar que seus colegas se aproximem demais pode ser catastrófico. Ela sabe que, se quer viver uma vida nova, é importante que ninguém descubra as transformações pelas quais seu corpo passou para que refletisse sua identidade.

“Pensei na cicatriz acima da orelha e lembrei que, mesmo já tendo feito a cirurgia, mesmo que já não existisse nada além de documentos que pudessem revelar meu passado, eu nunca estaria realmente segura.”

Começar uma nova vida, no entanto, nunca é tão simples. Mesmo que invisível, o passado de Amanda a acompanha, sob a forma de medo e de barreiras que ela impõe a si mesma. Seus novos amigos, porém, começam a quebrar, aos poucos, tais barreiras e, ao fazê-lo, a garota se vê diante de um salto no escuro cujo resultado jamais poderia prever.


MINHA OPINIÃO

Apenas Uma Garota é uma história propositalmente simples. O caminho de Amanda é relativamente linear e possui dois grandes pontos traumáticos e transformadores, um em seu passado, ao qual temos acesso aos poucos através de capítulos em flash-back, e um que ocorre no trecho final do livro. Mas é uma obra muito bem realizada e é na sua beleza simples, no fato de que ela consiste na história de uma garota comum, que ama quadrinhos, videogames e desenho como tantas outras, tentando sobreviver à adolescência, que reside seu trunfo.

Acompanhamos a protagonista em um momento delicado em que, depois de muita dificuldade em entender-se e aceitar-se enquanto uma jovem trans, ela sabe quem é neste sentido, mas ainda é apenas uma adolescente com muitas outras dúvidas, tais como a carreira que irá seguir e o tipo de relacionamento que ela será capaz de ter com pessoas que não necessariamente então prontos para aceitá-la por completo. Seu próprio pai, conforme vamos descobrindo ao longo da leitura, ainda tem dificuldades em lidar com o fato de que esteve durante anos criando uma filha, e não um filho, e é interessante observar como se dá este processo e como eles vão, aos poucos, encontrando uma nova forma de se relacionarem.

Como a própria autora ressalta em sua nota, no entanto, existem infinitas formas de viver a experiência de ser trans, e não há a intenção de transformar Amanda em dogma ou parâmetro. A própria autora é uma mulher trans, mas isso não significa que a experiência da personagem tenha sido a sua. O modo de ser de Amanda enquanto trans é propositalmente simples para que haja espaço na narrativa para que a sua leitura nos leve a compreender melhor a sua condição e, a partir disso, nos inspire a ampliar nossas noções, muitas vezes equivocadas, sobre gênero e sexo.

Na minha opinião, é exatamente isso que o livro consegue realizar, pois nos mostra claramente que o modo como lidamos com nossas diferenças, sejam elas relativas ou não ao nosso gênero, reflete uma escolha disponível a todos nós: podemos odiar, negar e temer a diferença ou podemos fazer um esforço para compreendê-la. E, o mais interessante da história de Amanda, é que não é necessariamente as pessoas que esperamos que fazem a escolha da compreensão. Muitos fazem a escolha do ódio.

Eu gostei bastante da edição, principalmente da diagramação do texto e do modo sutil pelo qual os capítulos que se passam no presente são distinguidos daqueles narrados em flash-back, mas achei que, embora muito bonita, a capa vende uma história um pouco mais sombria, mais adequada a um thriller, por exemplo, do que a história com a qual nos deparamos. Além disso, senti que a tradutora, em alguns momentos, fica muito apegada a uma tradução literal e esquece, por exemplo, que nós não temos a tradição do Homecoming Dance  e, portanto, traduzir este termo por “baile de boas-vindas” não acrescenta muito ao leitor.

O modo como Russo mantém a história da protagonista simples e interessante faz com que o livro não seja tão pesado e educativo quanto outros que tratam deste tipo de temática. É um livro muito prazeroso de ler, com uma escrita fluida e que engaja o leitor com facilidade. Assim, é o tipo de história que vai agradar tanto àqueles em busca de uma obra que trabalhe a temática trans quanto àqueles que estão simplesmente em busca de um romance jovem adulto (YA) gostoso de ler e que, ao mesmo tempo, foge um pouco dos padrões.

35estrelasb

APENAS UMA GAROTA

Autor: Meredith Russo

Editora: Intrínseca

Ano de publicação: 2017

Prestes a entrar na vida adulta, Amanda Hardy acabou de mudar de cidade, mas a verdadeira mudança de sua vida vai ser encarar algo muito mais importante: a afirmação de sua identidade. Tudo que ela mais quer é viver como qualquer outra garota. E, embora acredite firmemente que toda mudança traz a promessa de um recomeço, ainda não se sente livre para criar laços afetivos. Até que ela conhece Grant, um garoto diferente de todos os outros. Ela não consegue evitar: aos poucos, vai permitindo que Grant entre em sua vida. Quanto mais eles convivem, mais ela se sente impelida a se abrir e revelar seu passado, mas ao mesmo tempo tem muito medo do que pode acontecer se ele souber toda a verdade. Porque o segredo que Amanda esconde é que ela era um menino.
Em seu romance de estreia, Meredith Russo retrata o processo de transição de uma adolescente transexual, parcialmente inspirada em suas próprias experiências. Enquanto traz à tona questões difíceis como dilemas existenciais, preconceito e bullying, o livro também fala de forma esperançosa e leve sobre amizade, descobertas e autoaceitação.

Escritora, mestranda em Filosofia, mas, acima de tudo, apaixonada por livros. Carioca com preguiça de praia, gosta mesmo de uma tarde aconchegante na companhia de um livro e uma caneca de chá gigantesca.

  • Carolina Santos

    me perdi no meio do desenrolar da trama achei muito Clichê e me lembrava vários outros livros que já tinha assistido com a mesma história a protagonista tem um problema e para tentar se safar dele acaba indo para outro lugar esperar as coisas amenizar