Arranha-Céu – Coragem Sem Limite (2018) | Crítica

A premissa criativa de Arranha-Céu – Coragem Sem Limite (ainda não fui convencido por esse título) é uma só: existe um prédio muito alto e o Dwayne “The Rock” Johnson vive cenas de ação lá. A partir daí cria-se uma história para justificar essa ideia, um roteiro pouco verossímil é encenado e o resultado é uma sequência de 1h40min de pequenas cenas em que os personagens quase morrem.

A trama que criaram para se encaixar com o filme não é super consistente, mas também não é sem pé nem cabeça: o arquiteto bilionário Zhao Long Zhi (Chin Han) construiu, em Hong Kong, um edifício chamado A Pérola – um prédio com mais de 200 andares, seu próprio sistema de energia, uma centena de andares comerciais, outra centena de andares residenciais e, segundo Zhao, sua própria sociedade. Mas antes de inaugurar os andares acima do 96º, o bilionário contrata Will Sawyer (The Rock), um ex-agente de campo do FBI que trabalha atualmente no setor privado, para estudar A Pérola e encontrar as fraquezas nos procedimentos de segurança.

A médica Sarah (Neve Campbell), esposa de Will, e os gêmeos (McKenna Roberts e Noah Cottrell), o acompanham nessa missão, se mudando para o prédio por 6 meses antes do filme começar – no dia que Will apresenta sua avaliação e é oficialmente contratado (lê-se: ganha acesso aos protocólos de segurança d’A Pérola).

A ideia de se ter uma cidade completa dentro de um prédio é algo que nós, que fomos crianças no fim dos anos 90 e início dos anos 2000, tivemos contato, é aquela ideia da tecnologia engolir até o espaço físico da sociedade, e é uma premissa interessantíssima para se tratar no cinema. Aqui, evidentemente, não tem muito espaço para as questões filosóficas e sociológicas disso, então tudo o que o filme pode fazer é nos entregar o prazer de ver essas tecnologias em ação. E isso meio que falta.

Apesar da equipe de imagem fazer um ótimo trabalho com A Pérola – tem várias cenas em um parque que fica no andar 98 e é deslumbrante -, é palpável a falta de criatividade para lidar com o conceito, sendo que as infinitas possibilidades são o que tornam esse conceito interessante. Senti que a produção achou uma ideia ótima e depois não soube o que fazer com ela, faltou inspiração. O filme acaba apelando para cenas clássicas como os protagonistas atravessando pontes quebradas, personagens com asma em meio a incêndios e a sequência em que The Rock pula de um guindaste para dentro do prédio – exposta em todos os trailers e cartazes.

O mesmo se repete no clímax, que desde o início do filme promete ser visualmente deslumbrante por se passar dentro da estrutura esférica no topo do prédio – uma sala composta por centenas de telas de ulta-resolução, capazes de criar qualquer cenário e realidade através da tecnologia. O triste é que essa estrutura é utilizada apenas como uma sala de espelhos para confundir os personagens, tradição presente em qualquer filme de temática circense.

Aliás, fiquei muito ressentido por terem desperdiçado possíveis cenas ao amanhecer e durante o dia (o filme se passa quase inteiramente à noite), pois obviamente os visuais do prédio ficariam espetaculares.

Os arcos dramáticos do personagens não chegam a decepcionar, justamente por se tratar de um filme de ação pipoca, em que as expectativas são baixas. O amor da família e, em especial, do amor de Will por sua esposa e filhos, é o maior pilar dramático do filme e é constantemente posto à prova em todas as cenas de ação. E, embora o filme evite a todo custo entrar em qualquer debate sobre a existência de um prédio como A Pérola (tanto na frente tecnológica quanto nas social e econômica), não se sente falta de algum outro pilar. Essa é a história de Will e sua família, o arranha-céu é apenas o pano de fundo.

A família, aliás, tem ótimos momentos ao longo da projeção. A autoconfiança da filha Georgia é revigorante e empoderadora, enquanto o papel de “dama em perigo” fica com seu irmão, Henry, e mesmo assim é confrontado por momentos inspiradores aqui e ali. Neve Campbell (minha eterna Sidney, da quadrilogia Pânico) tem duas ou três cenas de luta em que mostra a que veio e carrega o filme junto com Dwayne Johnson até o final – aliás, sinto que se o filme não tivesse esse ator como protagonista, teria se beneficiado muito de um reposicionamento de marca, vendendo a produção com o casal na frente do holofote, em vez de apenas Johnson.

Pessoalmente, me diverti assistindo Arranha-Céu, é um daqueles filmes de desligar o cérebro e só apreciar as cenas de ação. Mesmo sem nenhum ponto muito forte, e até com alguns vários tropeços honestos, como diálogos fracos e falta de criatividade com o conceito, o resultado é um bom filme de Temperatura Máxima pra ver depois de um almoço de família.

PS: eu vi em 3D e achei muito bom; se tiver grana pra isso, veja também.

ARRANHA-CÉU – CORAGEM SEM LIMITE

Diretor: Rawson Marshall Thurber

Elenco: Dwayne Johnson, Neve Campbell, Chin Han e mais.

Ano de lançamento: 2018

Responsável pela segurança de arranha-céus, o veterano de guerra Will Sawyer (Dwayne Johnson), corre contra o tempo para salvar sua família, presa no edifício mais alto e tecnologicamente avançado do mundo – A Pérola.

Gaúcho porto-alegrense apaixonado por cinema, séries de televisão e gatos. Relações Públicas por formação; comunicador por natureza.