As Cavernas de Aço – Isaac Asimov

As Cavernas de Aço é o primeiro livro da Série dos Robôs, escrito por Isaac Asimov. Publicado inicialmente em 1950, foi relançado pela editora Aleph 2013.

SOBRE O LIVRO

Milhares de anos no futuro, quase toda a galáxia fora colonizada e a Terra passou a ser só mais um dos inúmeros planetas habitados pela raça humana. Depois de tanto tempo, os Siderais, como são chamados os nativos dos outros planetas, já nem consideram mais a Terra como berço da civilização humana, e até mesmo evitam visitar o planeta devida as suas condições precárias de saúde pública e de poluição.

Todos os planetas contam com a presença de robôs, porém na Terra, o assunto é ainda tabu e gera muita revolta e desconforto entre os habitantes. O policial Elijah Baley é um deles. Ele não gosta da ideia de máquinas assumindo funções humanas e tem uma apatia enorme por elas, quase como que um ódio mortal. Até que um importante embaixador Sideral é encontrado morto, na Terra. Um reboliço atinge o departamento policial e Elijah é recrutado para resolver o caso, antes que os Siderais concluam que nem mesmo a Terra tenha capacidade de resolver os próprios problemas.

“Há um impulso humano conhecido como misericórdia, um ato humano conhecido como perdão.
– Não estou familiarizado com essas palavras, parceiro Elijah.
– Eu sei – murmurou Baley. – Eu sei.”

Não ruim o bastante, os Siderais enviam um robô humanoide de última geração, R. Daneel Olivaw, para ser parceiro de Baley (e observar sua atuação) e tencionar ainda mais a situação. O descontentamento do policial se torna maior e será preciso muita força de vontade para comandar o caso sem perder a lucidez. Em meio à desconforto e desconfiança, os dois terão de deixar de lado seus preconceitos e receios e se unirem para descobrir quem – e como – cometeu o crime. Enquanto isso, uma onda anti-robôs ameaça romper na cidade e depende de Baley conseguir solucionar o caso antes que o pior aconteça.


MINHA OPINIÃO

Antes de comprar o livro, alguns blogs que falavam sobre ele passavam a mesma mensagem: “um livro onde os robôs encontram Hercule Poirot“. Hercule Poirot, como se sabe, é um dos personagens mais famosos da literatura policial, fruto da genialidade da dama do crime, Agatha Christie. Sendo eu apreciador dos livros da Agatha, fiquei intrigado com esse “detalhe” e mais curioso em saber o porquê. Então, quando terminei a leitura deste livro, também cheguei a essa mesma conclusão. A trama contém toda a peculiaridade futurista de Isaac Asimov, mas é cheia de cliffhangers e mistérios como os romances de Christie.

Interessante saber, porém, que na época em que foi escrito, Asimov não acreditava no seu potencial. Até aquele momento ele só havia publicado contos, nenhum romance de robôs. A ideia base foi sugerida por seu editor em uma conversa típica entre os dois, e após o lançamento, veio a surpresa: se tornou o livro mais vendido do autor (até ele lançar sua Magnum Opus, Série Fundação). Mas o autor fez por merecer. Além de uma história policial com robôs, As Cavernas de Aço visa o futuro e aborda discussões sociais que hoje em dia estão em pauta, como a crescente automatização dos meios de produção em substituição à mão de obra humana, os avanços tecnológicos no ramo das Inteligências Artificiais, o medo iminente de uma desgraça e muito mais.

“Eu providenciei isso especialmente ano passado, Lije. Acho que não mostrei a você antes. Venha aqui e dê uma olhada. Nos velhos tempos, todos os escritórios tinham coisas assim. Chamavam-se “janelas”. Você sabia disso?”

Daria até pra dizer de certa forma que a narrativa de Asimov flerta com a distopia, dada a complexabilidade das questões que ele apresenta, bem como a sua construção de mundo “otimista” mas recheado de problemas. Aqui temos uma Terra praticamente acabada, tomada pela poluição e doenças. Tanto é que as pessoas há anos não veem o nascer do sol, não saem ao ar livre, muito menos caminham em um campo verde. Todas as pessoas vivem fechadas dentro de cubículos interconectados, sem nenhum tipo de vista externa. Compõem uma grande comunidade, almoçam em um salão comunitário, os banheiros masculinos são coletivos e as cidades cresceram a tal ponto que praticamente tudo virou um aglomerado só. As pessoas se movem de um local a outro por meio das faixas deslizantes, várias esteiras, cada uma com uma diferente velocidade e direção. Por todos os lados só o que se vê são paredes e tetos como feito de metal. Daí então o nome do livro.

Porém, essa Terra apresenta um elevado grau de preconceito e aversão à presença dos robôs. Há até uma corrente ideológica denominada medievalistas, que pregam a fé em uma Terra passada onde as pessoas podiam andar livremente pelas ruas, ver o céu azul e não tinham máquinas para tomar seus empregos. O policial detetive Elijah Baley não é um medievalista, mas flerta com alguns dos ideias do movimento: ele também tem certa repugnância de robôs e não confia nem um pouco neles (semelhanças com o detetive Spooner do filme I, Robot pode ser mera coincidência). Até há robôs trabalhando em sua companhia na polícia, mas são do tipo mais básico, que só recebem ordens e ainda se parecem com caras de metal. Mas isso mudaria ao ser chamado para investigar o assassinato do Sideral.

Com desprezo pela polícia terrestre, os Siderais enviam um robô ultra moderno para avaliar e solucionar a investigação. Seu nome é Daneel Olivaw e ele é facilmente confundido com um humano comum. Somente olhando muito de perto é que poderia-se concluir ser ele um robô. E esse é um dos conflitos que Baley tem: ter um parceiro robô que consegue fingir facilmente ser um humano. E se ele fosse um assassino? Mesmo munido com as Três Leis (veja em Eu, Robô), o policial tinha enorme desconfiança que um robô tão evoluído assim poderia de forma indireta ser responsável por um assassinato. Tanto é que a relação inicial dos dois é fria e cheia de desprezo, mas conforme vão convivendo e tentando resolver o crime juntos, o detetive percebe que a sua aversão por robôs pode ser um tanto quanto irracional. Assim, uma faísca de uma boa amizade começa a surgir.

“A maioria dos Terráqueos eram Medievalistas de um jeito ou de outro. Era fácil ser um Medievalista quando isso significava recordar uma época em que a Terra era o mundo, e não apenas um dos 50 mundos. Ainda por cima o desajustado dentre os 50 mundos.

E onde entra Agatha Chritie nisso tudo? Pois bem, a forma como os personagens conduzem a investigação é muito similar ao do personagem Poirot. Em vários momentos eles formulam ideias, refutam hipóteses, chegam perto de resolver o crime e… tudo volta à estaca zero. Uma nova pista, uma falha no raciocínio de Baley e tudo o que sobra são peças de um quebra-cabeça incompleto. Mas assim como o detetive de Christie, todo detalhe tem sua importância cedo ou tarde e, sendo assim, lá pelas páginas finais Baley e Olivaw fazem o xeque-mate. Se a dama do crime escrevesse ficção científica policial, seria exatamente como As Cavernas de Aço: cativante, enigmático, envolvente e muito, mas muito bem pensado.

Além da trama excelente, o mérito do livro também está em suas críticas e analogias sociais e políticas. Os medievalistas podem ser entendidos como pessoas perigosas tais como os nazistas foram. Isso porque esse movimento tenta encontrar um meio de libertar o planeta dos robôs, purificar o mundo, seja por bem ou por mal. Só que para eles isso representava um bem à humanidade (Hitler também pensava isso dos judeus, mas sabemos as atrocidades que ocorreram…) Até começa a surgir um motim na trama, o que deixa as coisas ainda mais instigantes. Também a questão do preconceito é muito bem tratada e desenvolvida na relação entre os dois protagonistas. Baley até suporta trabalhar na companhia do robô, mas não quer dizer que ele goste ou que veja isso com bons olhos.

Mas sem dúvida a analogia mais interessante – e que poucas resenhas que eu li apontaram – é a do Mito da Caverna, criado por Platão. O mito é bem simples: pessoas dentro de uma caverna tem medo do que há fora dela, e quando alguém de fora diz que há um paraíso lá, é prontamente taxado de louco. É o mesmo que acontece no livro: já fazem tantos anos que as pessoas moram dentro de suas cavernas de metal que elas acreditam fielmente que o mundo exterior é perigoso, cruel e impróprio, e que qualquer um que pense o contrário ficou louco. Nesse ponto Asimov nos mostra o ponto que a alienação tecnológica chegou. Uma boa metáfora para o mundo de hoje: cada vez mais preso no virtual  e menos no real.

“– Olhem só. Ele chama aquelas coisas de homens! Qual é o problema com você? Eles não são homens. São ro-bôs! – Ela destacou cada sílaba. – E vou te dizer o que eles fazem, caso você não saiba. Eles roubam empregos dos homens. É por isso que sempre são protegidos pelo governo. Eles trabalham em troca de nada e, por causa disso, famílias têm que morar lá nos abrigos e comer purê de levedura cru!”

A única coisa que por ventura me incomodou no livro é que em alguns pequenos defeitos na trama, como enrolar em partes não necessárias e também a superficialidade com que ele caracteriza personagens femininas. Apesar do livro tratar sobre preconceito, as personagens femininas descritas pelo autor mostram o seu próprio preconceito com elas. São geralmente mulheres amedrontadas, dependentes de um homem salvador e vulneráveis sozinhas. Mesmo sabendo que na época em que foi escrito (1950-60) esse pensamento era um tanto “comum”, o autor manter esse tipo de estereótipo mostrava sua falha em desconstruir determinados paradigmas.

Tirando esse detalhe negativo, o livro é incrível. Há muita crítica política e social e falar delas nesta resenha transformaria isso quase em um artigo acadêmico. Além disso, a junção da ficção com policial é algo que na maior parte das vezes dá super certo (temos aí Blade Runner, Automata, Robocop, etc) e que nos transportam para mundos altamente críveis. A edição gráfica dessa série feita pela Aleph está incrivelmente bonita. A diagramação é fluida e a capa é metalizada, um luxo puro. Por fim e não menos importante, super recomendo a leitura deste livro – e do autor em geral. Suas tramas sempre trazem algo de novo para os leitores, questionam o nosso cotidiano e nos mostram que o futuro pode ser bom, se deixarmos velhos costumes para trás.

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AS CAVERNAS DE AÇO

Autor: Isaac Asimov

Editora: Aleph

Ano de publicação: 2013

Em Nova York, o investigador de polícia Elijah Baley é escalado para investigar o assassinato de um embaixador dos Mundos Siderais. A rede de intrigas envolve desde sociedades secretas até interesses interplanetários. Mas nada o preocupa tanto quanto o seu parceiro no caso, cuja eficiência pode tomar o seu emprego, algo cada vez mais comum. Pois seu parceiro é um robô. Publicado no início da década de 1950, As Cavernas de Aço é o primeiro romance da consagrada Série dos Robôs de Isaac Asimov, mesclando de forma magistral os gêneros de ficção científica e literatura policial./p>

É colaborador do Resenhando Sonhos.
Catarinense, Publicitário formado pela UNOESC, apaixonado por sci-fi, distopias e suspense policial. Fã de Arquivo X e Supernatural, sonha um dia encontrar os aliens.