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Até o último homem (2016) | Crítica

Com seis indicações no Oscar 2017 (melhor filme, diretor, ator principal para Andrew Garfield, montagem, edição de som e mixagem de som), “Até o último homem” estreou dia 26 de janeiro nos cinemas brasileiros. 

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“Até o último homem” não é um filme sobre guerra, mas sobre a consciência de um soldado que, em meio às loucuras da guerra, escolhe permanecer convicto a seus valores e a sua fé. A peça é baseada na história real de Desmond Doss (interpretado por Andrew Garfield), um combatente da segunda guerra mundial que se alistou para “servir ao seu país” e se recusou a pegar em armas por manter sua crença cristã fundamental de que o assassinato é o pior pecado possível. Seu papel na guerra foi o de salvar vidas – durante a Batalha de Okinawa, foi médico.

Desmond Doss foi o que o Direito chama de “objetor de consciência”, isto é, um indivíduo que por razões morais, racionais ou religiosas recusa-se a seguir qualquer ou determinada ordem do serviço militar por estas serem incompatíveis com seus princípios. Portanto, a história do filme não é somente a história de uma guerra literal, mas também a de uma guerra de valores que se dá dentro da mente de um homem que não está disposto a deixar suas convicções pacifistas e religiosas. Durante a projeção, Desmond é chamado de covarde e mesmo acusado de louco, quando, ironicamente, no contexto das batalhas, ele parece ser o único são por preferir a paz e demonstrar enorme coragem através da força de sua fé.

É de se pegar a história de Doss e esfregar na cara de todo o religioso que se diz cristão, mas apoia a pena de morte ou urge pela violência contra seus semelhantes/diferentes, comportamento neurótico que de cristianismo tem nada, e muito mais se assemelha ao sentimento popular que levou Hitler ao poder e o levou à guerra do que aquilo que Jesus ensinou aos seus discípulos.

Interpretado belamente por Andrew Garfield, Desmond, o herói da vida real, cujo heroísmo é muito bem tratado na história, fez o que acredito ser a escolha moral perfeita. O filósofo Kant, por exemplo, dizia que devemos agir como se a máxima da nossa ação (não matarás, por exemplo) fosse transformada em lei universal, isto é, agir do jeito que todos deveriam agir, sendo essas ações fins em si mesmos, ou seja, visando nada mais do que a satisfação na própria ação (escolhe-se não matar por princípio, e não por interesses terceiros). Opositor feroz de Kant, Nietzsche, dizia que devemos agir segundo valores criados por nós mesmos, pois a ética praticada pela maioria seria sempre decadente e falha, cabendo a nós, superá-la através da força da nossa vontade. Desmond, além de superar um ambiente moral degradado pela morte e pela raiva através da própria fé, e prezando por seus próprios valores, também agiu conforme uma lei universal – caso todos fossem como ele, nem guerra haveria.

Apesar da grande história, Mel Gibson deixa a desejar em aspectos de sua direção. A escolha constante pela famigerada trilha sonora melodramática e automática de senso comum põe em risco a emoção de algumas cenas, entedia em umas e não compromete em outras. A narrativa humanista em torno da história de Desmond não enxerga a mesma humanidade nos oponentes japoneses, retratados de maneira caricata em demasia, fazendo-nos esquecer que eram eles também humanos. Se estes se sacrificavam em prol de seus ideais e de seu império, suicidavam-se e eram combatentes incansáveis, há razões mais complexas e sentimentais do que o simples pertencimento às “forças do mal”. Mesmo o roteiro concede ao personagem de Andrew a empatia para com os japoneses que o diretor não tem.

A direção de fotografia de Simon Duggan tende a valorizar cores durante os primeiros atos do filme, a vida longe da guerra é colorida e agradável, enquanto no front deparamo-nos com um mundo quase preto e branco, escuro, deprimente. Os horrores da guerra são impactantes neste filme, na qual a Arte e a Maquiagem nos trazem imagens realistas e cruas, dissonantes para com a constante escolha pelo CGI em explosões ou baleamentos. Ressalto aqui que, caso o fenômeno La La Land não surta efeito, “Até o último homem” pode abocanhar Oscares nas categorias de mixagem e edição de som, indicação de praxe (e muito merecida) para filmes de guerra. Parte do realismo cru do filme também está no que ouvimos, com lógica parecida sendo dada à categoria de Montagem (ou Edição).

É de se lembrar também que durante a fase de treinamento dos soldados ao longo do filme, a projeção lembra muito o clássico “Nascido para matar”, de Stanley Kubrick, quase transcendendo os limites da inspiração, flertando com o plágio. Contudo, o conservadorismo (no sentido cinematográfico) garante, apesar dos deslizes, a Mel Gibson a entrega competente de uma história poderosa e emocionante. Muito melhores e mais emocionantes são as histórias quando descobrimos que seus heróis de fato existiram.

PS: No trecho em que comparo Kant e Nietzsche, caberiam maiores explicações acerca do posicionamento nietzscheano de Desmond, um cristão convicto, não inseridas por mim por não fazerem jus à proposta geral da crítica.  Fico aberto a questionamentos.

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ATÉ O ÚLTIMO HOMEM

Diretor: Mel Gibson

Elenco: Andrew Garfield, Vince Vaughn, Teresa Palmer e mais

Ano de lançamento: 2017

Durante a Segunda Guerra Mundial, o médico do exército Desmond T. Doss (Abdrew Garfield) se recusa a pegar em uma arma e matar pessoas, porém, durante a Batalha de Okinawa ele trabalha na ala médica e salva mais de 75 homens, sendo condecorado. O que faz de Doss o primeiro Opositor Consciente da história norte-americana a receber a Medalha de Honra do Congresso.

É colaborador do Resenhando Sonhos.
Cético, é daqueles que precisam ver para crer.
Pedro é estudante de Jornalismo na UFRGS, cinéfilo e meio míope.