Belas Adormecidas – Stephen King & Owen King

Belas Adormecidas é o primeiro livro do autor Owen King juntamente com seu pai Stephen King. Ele foi lançado pela Suma em 2017.

Sobre o livro

Em 2017, na pequena cidade de Dooling, uma mulher misteriosa aparece. Evie Black, dotada de grande beleza e certas peculiaridades, chega para mudar a vida dos habitantes deste pacato lugar. Juntamente com sua chegada, as mulheres de todo o mundo começam a cair em um sono profundo, onde uma espécie de casulo as envolve e faz com que elas não acordem mais. E o pior, quando tentam rasgar esse véu para acordá-las, elas levantam furiosas e agressivas atacando quem se atreveu a incomodar o seu sono, voltando a dormir logo após resolver o assunto. Para surpresa geral, a única mulher que parece não ser afetada por essa, que muitos tratam como a doença Aurora, é a própria Evie.

Em pouco tempo quase todas as mulheres do mundo estão envoltas em casulos. E cada vez vemos mais mariposas rondando os lugares. Ninguém entende o que está acontecendo e o medo do desconhecido assola os sobreviventes. Logo constata-se que apenas as mulheres são afetadas por essa doença. E é na penitenciária feminina de Dooling, que a estranha mulher que consegue dormir e acordar está. Surge a necessidade de descobrir quais os segredos e planos que essa mulher guarda. E cabe ao doutor Clint Norcross, psiquiatra da instituição, manter a ordem e descobrir com o que eles estão lidando. Ele conta com a ajuda de diversas pessoas, principalmente sua esposa, a xerife Lila que reluta em dormir e abandonar a cidade e aqueles que ama.

“Seus olhos estavam fechados. A expressão de fúria tinha desaparecido. Uma expressão de serenidade inabalada assumiu o lugar dela. De repente, ela sumiu, escondida pela substância branca. A mãe da criança a segurou no colo, a aninhou e começou a beijar os dedos sujos de sangue.”

É claro que toda situação de caos gera o medo. E não demora para que os homens fiquem divididos. Alguns querendo proteger suas mulheres e outros querendo destruí-las. Assim formam-se as Brigadas do Maçarico. Que veem no ato de atear fogo nessas mulheres, uma forma de destruir essa doença. É assim que conhecemos a história dos habitantes desse lugar, desvendamos seus segredos e motivações. E vemos, na estranha figura de Evie, uma grande dúvida. Quem é ela? As mulheres estão mortas? Elas vão acordar algum dia?


Minha opinião

Sabe aqueles livros que você sente falta após terminar? Que você começa a “economizar” as páginas quando percebe que está chegando ao final? Pois é. Foi muito difícil me despedir das mulheres de Dooling. Esse livro tão intenso e cheio de personagens marcantes, nos deixa ávidos por desvendar mais mistérios, por conhecer mais sobre o passado de todos esses habitantes fascinantes dessa pequena cidade. Essa história me conquistou completamente, tanto pelo tema, que é algo que me interessa, quanto pelas pessoas que fizeram parte dessa narrativa. Nos dias que sucederam o término da leitura, me senti quase uma órfã.

Já gostaria de deixar claro que: mesmo sendo fã do Stephen eu simplesmente NÃO CONSEGUI notar diferença na escrita dele para a do Owen. Digam que eu não sou fã de verdade, que sou cega ou louca. Mas foi realmente muito difícil encontrar diferenças. Ambos possuem a mesma formar de apresentar uma história, esmiuçar eventos paralelos e buscar uma maneira de criar um laço entre leitor e escritor. Algo que encontro também nos livros de Joe Hill, outro filho do King. O que posso fazer se a família adora escrever sobre o mesmo gênero e segue os mesmos passos para confeccionar uma excelente história? O livro é bem extenso, com mais de 700 páginas. Porém, por incrível que parece, não sentimos o peso dele. A ânsia por chegar a um desfecho prende o leitor de uma maneira única, clássica do King pai e, agora, do King filho.

“Com teias de aranha no cabelo e a morte na ponta dos dedos.”

Algumas pessoas reclamaram do grande fluxo de personagens, não achei isso um ponto negativo. Principalmente por existir, logo no começo, uma lista completa com seus nomes, idades e profissões. Isso auxiliou logo no início, quando ainda não conhecia eles, mas depois que fiquei familiarizada com cada um, não precisei mais consultar essa ajuda. Acredito que tantas personagens são inevitáveis quando a trama passa em uma cidade, que é o centro da história juntamente com esses eventos.

Nesse livro temos uma história clássica do King, Cidade pequena, moradores e seus segredos mais profundos, conhecemos os maus, observamos o que eles escondem no obscuro da sua mente, vemos os bons pagando por algo que não tem culpa, conhecemos os mesmos personagens cheios de problemas, até a chegada de algo estranho e devastador, recheado com críticas sociais jogadas sutilmente no decorrer do texto. Essa é a fórmula King para fazer uma boa história. E que, claramente, ele conseguiu passar para seu filhote.

Em um primeiro momento, pensar em um evento desse tipo, nos remete a vários questionamentos. Você pode pensar que também vira uma fera quando é acordada, mas nesse caso, as mulheres são capazes de realmente matar. Em outro momento, nos colocamos no lugar dessas mulheres e também dos homens, que percebem o quanto seriam inúteis em sua existência sem as mulheres, por favor, não me levem a mal. Mas se fosse ao contrário, a vida não seria extinta, em razão das diversas clínicas de fertilização. Sem as mulheres, esse seria o fim da humanidade. E, em um terceiro momento, as pessoas podem alegar que essa é mais uma história de apocalipse, das tantas que existem por aí. Ledo engano. Aqui temos questionamentos acerca de religião, moral e machismo.

“Era tão errado se aproveitar um pouco de vez em quando? Pelo amor de Deus, antigamente, se você não metesse a não na bunda de uma garçonete, ela ficava decepcionada. Se você não assobiasse para uma mulher na rua, ela ficava se questionando para que tinha se dado ao trabalho de se arrumar. Elas se arrumavam para mexerem com eles, isso era fato. […] Não se podia mais nem elogiar uma mulher.”

“Para todas as mulheres malvadas que existem, existe um homem por trás disso”. Pode até ser um exagero generalizar dessa forma, mas apenas para e pense em todas as histórias que conhecemos. No quanto ainda existem mulheres oprimidas na nossa sociedade, no quanto esse tipo de situação seria uma bênção na vida daquelas que sofrem nas mãos de homens que abusam física e psicologicamente delas. Esse é um livro para pensar. Para relembrar e questionar tudo aquilo que aprendemos desde a mais tenra idade e que somos levadas a acreditar que é “normal”. Algo que achei completamente inusitado nesse livro foi ser escrito por dois homens.

Entretanto, eles conseguiram expressar o que queriam passar, sem soarem como idiotas. Acho que para esse livro ser perfeito, ele deveria ser escrito por Tabitha e Naomi King também. É nos mínimos detalhes que encontramos as maiores críticas ao machismo. Seja uma frase, situação ou até algo que apenas ficou no ar e que nós, mulheres, que estamos sempre lidando com isso, conseguimos identificar. Achei isso genial.

Por várias vezes doía ler o que cada uma das mulheres passava ou passou na mão dos homens. O pior é saber, que muitas dessas histórias são reais e acontecem todos os dias. Mulheres que achariam essa doença bem-vinda. Mulheres que só querem dormir para se livrar dos homens que fazem parte das suas vidas. Também temos que segurar a raiva enquanto lemos, ao nos depararmos com comentários machistas dos homens remanescentes e que são tão usuais por aí, pois acredito que muitas de nós também já ouvimos algo do tipo.

Algo que achei fantástico foi conhecer um pouco da história de cada presidiária e, também, o motivo que as levou a parar lá. Eu poderia ficar horas desvendando o passado de cada uma delas. Buscando uma forma de entender cada uma, quais suas motivações, no que cada uma acredita. Diversas são as personagens que se destacam nessa narrativa. Tiffany, que possui problema com drogas e com homens abusivos, Angel, que cansou de ser machucada pelo sexo masculino e, claro, Evie, aquela que dá as melhores respostas e que faz os homens pensarem no que eles fazem. No começo pode parecer que ela fala muitas loucuras, mas depois tudo passa a fazer sentido.

Também odiaremos algumas pessoas. O casal Frank e Elaine será responsável por despertar diversas sensações entre os leitores. Alguns afirmam sentir pena, eu apenas senti asco. Frank é extremamente explosivo e é uma perfeita descrição da maioria dos homens que existe. Sempre achando que são donos da verdade e cheio de atitudes impensadas que são motivo de arrependimento depois.

O que as mulheres serão capazes para se manterem acordadas? Como lidar com o desespero perante o desconhecido? O pânico se alastrou e elas estão adormecidas dentro de casulos, ainda a mercê de homens que querem ver o seu mal. O lado mais babaca de alguns homens aflora e observamos seu desespero para entender o que está acontecendo. Ao mesmo tempo que nos deparamos com uma guerra travada entre os homens que restaram. Os diálogos são maravilhosos e as mulheres representam a força feminina. Não deixe de ler esse livro! É uma leitura altamente recomendada por mim para todas as mulheres e, principalmente, os homens.

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BELAS ADORMECIDAS

Autor: Stephen King & Owen King

Editora: Suma de Letras

Ano de publicação: 2017

Pelo mundo todo, algo de estranho começa a acontecer quando as mulheres adormecem: elas são imediatamente envoltas em casulos. Se despertadas, se o casulo é rasgado e os corpos expostos, as mulheres se tornam bestiais, reagindo com fúria cega antes de voltar a dormir. Em poucos dias, quase cem por cento da população mundial feminina pegou no sono. Sozinhos e desesperados, os homens se dividem entre os que fariam de tudo para proteger as mulheres adormecidas e aqueles que querem aproveitar a crise para instaurar o caos. Grupos de homens formam as “Brigadas do Maçarico”,incendeiam em massa casulos, e em diversas partes do mundo guerras parecem prestes a eclodir. Mas na pequena cidade de Dooling as autoridades locais precisam lidar com o único caso de imunidade à doença do sono: Evie Black, uma mulher misteriosa com poderes inexplicáveis. Escrito por Stephen King e Owen King, Belas Adormecidas é um livro provocativo, dramático e corajoso, que aborda temas cada vez mais urgentes e relevantes.

É colaboradora do Resenhando Sonhos.
Natural de São Sepé, atualmente morando em Santa Maria.
Formada em Gestão da TI pela URCAMP e cursando Produção Editorial na UFSM.
Apaixonada por livros, Johnny Cash e cachorros.