Canção do Cuco – Frances Hardinge

Canção do Cuco é da autora Frances Hardinge e foi publicado pela Novo Século em 2015.

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Sobre o livro

Aproximadamente no ano de 1923 Theresa Crescent, mais conhecida como Triss, foi passar as férias com os pais, Celeste e Piers e a irmã Penny, em Lower Bentling como de costume. Conhecida por ser muito frágil e estar sempre doente, ela assusta os pais ao cair em um lago e após acordar de uma noite de delírios e febre, ela alega não lembrar de nada. A menina volta com um comportamento estranho, com uma fome insaciável e despertando medo na irmã mais nova, que passa a atacá-la verbalmente alegando que ela não é a sua irmã. O que Triss não conta para ninguém é que antes de acordar ela ouviu um riso inquietante proferindo a seguinte frase: “sete dias”.

Triss passa a ser atormentada das mais variadas formas e não sabe o que está acontecendo com ela, por muitas vezes se pergunta se não está ficando louca. Ela passa a ver objetos inanimados ganhando vida na sua frente e sente fome por coisas nada convencionais, mas que parecem ser as únicas que a acalmam. As férias são abortadas e os pais decidem retornar para sua casa em Ellchester, mas os fatos sobrenaturais parecem perseguir a garota. Tesouras voam em sua direção, Penny se mostra cada vez mais agressiva com a irmã, os pais estão estranhos e temem que alguém tenha empurrado Triss no lago, além de comentarem sobre certas cartas. Ela não lembra de nada, inclusive da sua casa, e ao chegar lá se vê em um mundo diferente e as lembranças começam a voltar.

“É a minha irmã, Penny. Pen. Tem nove anos. Costumava ter amigdalite. O primeiro dente de leite caiu quando ela foi morder alguém. Teve um periquito, mas esqueceu de limpar a gaiola, e ele morreu. Ela mente. Ela rouba. Ela grita e atira coisas. E… e ela me odeia. Odeia de verdade. Posso ver nos olhos dela. E não sei por quê.”

Em uma dessas jornadas explorando a casa, que ainda é um ponto de interrogação para Triss, ela descobre um quarto intacto e parado no tempo, o quarto é de seu irmão mais velho Sebastian, que morreu na guerra quando ela era pequena. O fato é que uma gaveta está cheia de cartas do falecido irmão e isso desperta a curiosidade dela. Como o irmão que está morto está escrevendo cartas? E como essas cartas chegam até lá? É isso que ela deseja descobrir.

Além de investigar as supostas cartas do irmão, Triss passa a investigar sua irmã também. Ao seguir Penny, ela descobre que a irmã se encontra com uma figura estranha que chamam de “O Arquiteto”. Ao ouvir suas conversas ela acaba descobrindo coisas que não esperava e mais do que suportava ouvir. E a partir dessas revelações temos o início de uma corrida para descobrir a verdade nesse labirinto de mentiras.


Minha Opinião

Desde o começo fiquei super intrigada com esse livro. A história que praticamente pesava no ar ao meu redor me rendeu boas dúvidas, e logo no começo já fiquei encantada com o que eu estava lendo, e que me surpreendia a cada página, prometendo ser um dos melhores livros. Todo esse mistério em torno dos pais, as cartas do irmão morto, essa mania de sempre passar a mão na cabeça de Triss alegando que ela estava doente e não podia sair de casa nem ter contato com ninguém, enquanto que Penny recebia apenas indiferença e xingamentos. Tudo isso contribuiu para atiçar a minha curiosidade.

Enquanto eu acompanhava tudo que Triss estava passando, mesmo sem ela saber o que ela era, como foi parar lá e todos os ataques da irmã alegando que ela era uma impostora, colocaram minhas engrenagens para funcionar e imediatamente tentei fazer uma ligação entre os eventos. Imaginem a minha frustração ao perceber que nada encaixava? Toda a hora pensamos que Triss enlouqueceu. Todas as desculpas que os pais dão é que ela está muito doente, não temos maiores explicações e isso acaba inflando ainda mais a curiosidade do leitor até o ponto de devorarmos o livro atrás de respostas.

“Pen me odeia. Ela adoraria me ver agora descendo as escadas chorando, soluçando por ter encontrado folhas secas no cabelo. Ela quer que eu pareça louca, para que me mandem embora, me coloquem num hospício. Assim ela teria toda a atenção que sempre quis. Ela faria qualquer coisa pra que isso acontecesse.”

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O livro é super confuso e diferente de tudo que eu já li por aí. Toda essa amnésia de Triss, a forma como ela lida com os fatos novos, essa agressividade da irmã, serviram para deixar um grande clima de mistério no ar. A todo momento eu ficava apreensiva em saber qual o próximo passo e descoberta dela. Por muitas vezes eu me questionava se a louca da história não era eu, pois nada estava fazendo sentido e nada do que eu conhecia parecia se encaixar nisso. Só imaginava que estava na frente de um ser que eu nunca tinha ouvido falar.

As atitudes que ela toma, os fatos que acontecem com ela, tudo isso, confesso, me apavorou um pouco e por muitas vezes pensei estar na frente do meu novo livro favorito. Porém, depois da metade da história, a trama decaiu muito, e apesar de revelar uma boa resposta para os comportamentos da garota, achei bem fraco o final. E, durante a narrativa, a transformação da menina monstro e com tendências de ser meio maluca em uma doce garotinha acabou não convencendo.

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As quatro estrelas foram mais pela originalidade, pela capa que está bem aterrorizante e contribuiu para a atmosfera sombria do livro, além das orelhas que possuem desenhos muito interessantes e que só foram fazer sentido depois de um bom tempo de leitura. A autora apresentou uma proposta completamente diferente nesse livro. Ele tinha tudo para ganhar um coração, mas infelizmente a história deixou a desejar depois de um tempo. Acredito que com a intenção de fazer algo completamente fora do convencional, a autora se perdeu e esqueceu de manter a linha de terror que ela estava empregando desde o começo.

“Eu já ficaria ansiosa se fosse somente a perda de peso, ou o jeito que ela come, come, come feito maluca… feito uma nuvem de gafanhotos! Mas… tem algo além disso. Ela está diferente. Tem algo de lento e esquisito no jeito com que ela fala comigo. Como se ela parasse para escutar outra pessoa antes de me responder. É mais do que um sintoma que me preocupa, é… sinistro. Ela nunca teve um gênio difícil, mas agora tem. Às vezes nos olhos dela eu vejo… uma coisa selvagem que não sei o que é! Não sei o que é! Não sei o que está fazendo no rosto da minha filhinha!”

As duas irmãs contam com a ajuda de pessoas inusitadas nessa jornada em busca da verdade. O fantástico e o sobrenatural passam a caminhar de mãos dadas com elas. A figura enigmática do arquiteto parece estar em todos os lugares a espreita delas, e estamos sempre com a constante sensação de que não podemos confiar em ninguém. Um mundo completamente desconhecido revela-se, e pactos diabólicos, assim como magias antigas de um povo já esquecido entram para dar um novo rumo a essa história. Tudo isso parece não fazer sentido separadamente, mas conforme os segredos são revelados, a essência do que está acontecendo aparece.

Apesar de tudo isso, mergulhei nessa história. Esse é um livro muito inquietante. E vale lembrar que Penny é uma das personagens mais cativantes da história. No começo ela aparenta ser chata e mimada e passa uma ideia de ciúmes de irmã mais nova querendo atenção, mas com o tempo ela mostra que apesar da idade é muito madura, destemida e inteligente. E conforme adentramos na narrativa observamos a sua evolução e a forma como aprende a conviver com o ser que está no lugar da sua irmã, pois a culpa passou a consumi-la. O ar de terror psicológico que estava presente no início foi dissipado com o tempo e acabou sobrando um terror bobinho com toques infantis e com um final fraco. No entanto, é uma leitura muito prazerosa e quem não está atrás de algo tão apavorante, mas com toques de terror, essa é uma boa escolha.

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CANÇÃO DO CUCO

Autor: Frances Hardinge

Editora: Novo Século

Ano de publicação: 2015

Você desperta após um acidente. Você sente uma fome constante e implacável. Você acorda durante a noite várias vezes, com folhas e terra em seus cabelos. Objetos inanimados tentam te atacar. Você atrai tesouras. Em seu pranto, no lugar de lágrimas, teias de aranha brotam como fios de desespero. Sua irmãzinha passa a ter um medo incontrolável de você… Assim tem sido a vida da jovem Triss Crescent. Aos poucos, ela descobrirá que o mal com o qual tem convivido é mais estranho e terrível do que ela jamais poderia imaginar. Tomada por dúvidas, ela parte numa jornada frenética em busca do Arquiteto, projetista de prédios, pontes e destinos sombrios. Acompanhe Triss nesta arrepiante fábula da premiada escritora britânica Frances Hardinge, que desponta como uma das mais incríveis contadoras de histórias de sua geração. Mas lembre-se: nada é o que parece. Nem mesmo você.

 

É colaboradora do Resenhando Sonhos.
Natural de São Sepé, atualmente morando em Santa Maria.
Formada em Gestão da TI pela URCAMP e cursando Produção Editorial na UFSM.
Apaixonada por livros, Johnny Cash e cachorros.