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Childhood’s End – Qual o preço da Utopia?

Todos os dias, milhares de vidas são subjugadas por fome, guerras, doenças, entre outros males. Mas, imagine se fosse possível mudar tudo isso. Tornar o mundo realmente em um lugar melhor, com qualidade de vida para todos, em perfeita harmonia e paz nos quatro cantos?  E ainda, qual seria o preço a se pagar isso por isso?

É nesse viés que caminha a trama de Childhood’s End, série de ficção científica produzida por Matthew Graham e transmitida pelo canal SyFy em 2015. Baseada na obra homônima de Arthur C. Clarke, O Fim da Infância, a produção conta com três capítulos de uma e hora e vinte de duração que exploram os prós e contras da conquista da utopia social após a intervenção pacífica de uma força alienígena, além de debater sobre religião, filosofia e a própria identidade do ser humano.

“Somos capacitadores, vamos ajudá-los a mudar. Eu sei, é assustador, mas vocês não estão mais sozinhos!”.

O anúncio da Era de Ouro da humanidade é feita por Karellen (Charles Dance), o líder dos Soberanos – nome dado aos alienígenas. Momentos após a chegada deles, um fazendeiro local, chamado Rick Storgreen (Mike Vogel) é abduzido e levado à presenta de Karellen. Dentro da nave, o alienígena explica o plano e dá a Rick  a missão de ser o “profeta” dos novos tempos. Rick possui muitas dúvidas, sendo que para algumas obtém respostas; para outras, não. Porquê estão aqui, e qual o preço que a humanidade pagará pela utopia? O alienígena não responde, mas diz que quando for a hora certa, todos saberão.

Rick é um personagem interessante, ainda que a atuação de Mike Vogel deixe a desejar um pouco. Ele compreende a missão que lhe é passada e a encara de corpo e alma. Mesmo cheio de dúvidas, o resultado coletivo é mais importante do que as questões pessoais. Ou seja, já que a paz está realmente acontecendo, perguntas como de onde vieram e o quanto sabem sobre nós ficam para segundo plano. Além disso, o povo local dá atenção à ele, o que é de grande utilidade para os planos dos Soberanos.

Para muitos, a chegada dos aliens é a demonstração pura da existência de Deus. Para outros, é a sua completa negação. É o caso de Peretta Jones (Yael Stone), que vê significados diabólicos em todas as ações dos visitantes e compreende-os como falso profetas. Para ela, os Soberanos são o anúncio do fim do mundo, e que a humanidade precisa ser avisada da verdade. Além dela, começam a surgir alguns grupos de resistência às boas ações. Uma das razões que aumenta a desconfiança é o fato de que Karellen se recusa mostrar o rosto para todo mundo. Ele alega que sua aparência poderá causar problemas se exposta agora. Então, os humanos precisam serem preparados para o dia da revelação.

“Meu tio Joe criava porcos. Ele contratava um menino do coral da vizinhança para cantar para eles enquanto eram colocados na caminhonete. E os porcos adoravam, ficavam tão tranquilos, por todo o caminho até o abatedouro…”

Esse é de fato uma das partes mais interessantes da série. No final do primeiro episódio, finalmente Karellen revela a sua face, e quando o faz, causa choque em todo mundo. Não é para menos. A aparência de Karellen está além de qualquer uma que poderia ser imaginada ou aceita. Alguns vão ver suas teorias confirmadas; para outros, só o tempo os fará aceitar. A atuação de Charles Dance está ótima e achei genial a sacada da série (no caso, de Arthur C. Clarke) dar à Karellen a aparência daquilo que para nós se mostra oposto ao valores aceitos. Esse simples fato nos leva a questionar no que acreditamos e em relação a quais são os nossos mais profundo temores. Posso estar equivocado, mas nós, seres humanos, não sabemos reagir bem à mudanças radicais de pensamento, muito menos se elas vão de encontro àquilo que sempre julgamos como impróprio ou inaceitável.

A trama fica mais tensa a partir do segundo episódio, onde as peças faltantes começam a aparecer e aí vamos compreendendo de fato onde vai dar o plano dos alienígenas. Toda aquela bondade e benevolência veio com um preço, que aos poucos começa a ser pago pela humanidade. As crianças, até então fora de questão, passam a ser objetos de grande interesse dos Soberanos, e terão grande atuação no episódio final, onde a verdade será revelada. Neste sentido, destaca-se a atuação de  Lachlan Roland-Keen (Jake Greggson) e Rory Bochner (Jeniffer Greggson) que deram aos seus personagens uma caracterização sombria e misteriosa. Houve momentos inclusive que estas duas crianças davam mais medo do que o próprio Karellen.

O final da série foi satisfatório, mas fiquei com a impressão de que deixei alguma coisa passar no meio do caminho. Digo isso porque não ficou muito claro para mim algumas questões, mas nada tão importante que prejudique a compreensão total da série. O final foi, na verdade, triste, mas reflexivo. Somos colocados frente a frente com os nossos medos e anseios, desejos e conquistas, e levados a nos perguntar: valeu alguma coisa a pena? há salvação para nossas ações destrutivas?

“Tudo o que acontece na Terra foi planejado há tempos. É natural, é o Cosmos, é a Mente Suprema.
– Mente suprema?
– A mente suprema de toda a Criação.”

O livro que dá a base para a série foi escrita em 1953 e se passa durante a Guerra Fria, enquanto que na série os eventos ocorrem nos dias atuais. Ainda assim, a essência da obra é mantida de forma pura e surpreendente. É sem dúvida uma das melhores séries que já assisti até hoje. Não é qualquer adaptação que consegue me levar a mergulhar de cabeça na trama e ficar tão ansioso em descobrir o que viria a seguir.

A narrativa de Arthur C. Clarke é envolvente e nos faz refletir sobre o quanto estamos a mercê de nós mesmos. Na série, com a chegada dos visitantes e sua alta tecnologia, a humanidade, invés de buscar evoluir cientificamente, simplesmente pára. Para as pessoas, é mais fácil receber pronto do que buscar saber. Com o tempo, a ciência, a arte e a dança vão se tornando meras lembranças do passado. A humanidade passa a perder sua identidade, sua cultura e sua própria existência independente. O preço pela paz, aquele que os Soberanos não comentaram, seria o mais caro de todos.

Eu ainda não li o livro, mas a vontade de fazê-lo se tornou ainda maior após assistir a série. Mesmo que a trama seja similar, é provável que no livro tenha muitos outros pontos importantes a serem discutidos, como política e filosofia, bem como outras analogias que certamente só podem ser feitas com a Guerra Fria e a cultura daquela época. Em relação a série, acredito que ela atingiu o propósito explorado por Arthur C. Clarke e manteve o tema atual, principalmente em uma época tão instável como a nossa tem sido. Fica a dica para quem gosta de ficção científica, mas que busca algo além de meros alienígenas invasores ou aventuras de naves espaciais.

CHILDHOOD’S END

Diretor: Matthew Graham

Elenco: Mike Vogel, Osy Ikhile, Daisy Betts

Ano de publicação: 2015

Uma invasão alienígena pacífica na Terra está sendo feita pelos misteriosos “Overloads”. A chegada desse povo inicia décadas de aparente utopia sob as leis alienígenas. Porém, o custo disso é a identidade e a cultura humanas.

É colaborador do Resenhando Sonhos.
Catarinense, Publicitário formado pela UNOESC, apaixonado por sci-fi, distopias e suspense policial. Fã de Arquivo X e Supernatural, sonha um dia encontrar os aliens.