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Círculo de Fogo: A Revolta (2018) | Crítica

Existem filmes brilhantes que juntam ideias malucas com mensagens importantes para criar resultados inesperados e inspiradores; Círculo de Fogo, criado, escrito e dirigido por Guillermo Del Toro, é um destes filmes. Mas Círculo de Fogo é um filme de 2013, que eu já vi várias vezes e adoro. Hoje venho falar de Círculo de Fogo: A Revolta, que não tem nenhuma dessas qualidades – com exceção, talvez, das ideias malucas.

Pacific Rim – título original de Círculo de Fogo – não teve bom desempenho em bilheterias americanas quando foi lançado, foi aplaudido por alguns críticos pontuais e respeitado como um bom esforço em tornar ideias batidas em um blockbuster divertido, mas não foi aclamado o suficiente para ter sua sequência produzida na época, tendo sido engavetado diversas vezes. No entanto, cinco anos depois veio a tal sequência, impulsionada pelo investimento de John Boyega (estrela da atual trilogia de Star Wars e produtor debutante) e pela esperança depositada no mercado chinês, principal alvo do filme devido aos apelos da narrativa no país. Del Toro volta como produtor, mas se ocupou com A Forma da Água antes de poder dar atenção a esta sequência desnecessária.

Aliás, pra quem não sabe de nada sobre os filmes, deixe-me explicar. As tramas se passam numa realidade em que monstros alienígenas gigantescos conhecidos como Kaijus invadiram a terra através de um portal entre dimensões que se abriu no fundo do Oceano Pacífico; para reagir a estas ameaças, os países da região se aliaram e construíram robôs também gigantescos e pesadamente armados para combater os aliens, estes ficaram conhecidos como Jaegars. Sim, é uma espécie de Transformers versus Godzillas. Para pilotar os Jeagers, no entanto, é necessário que dois pilotos estejam alinhados mentalmente através de uma neuroconexão, conhecida como “the drift”. Ao longo do primeiro filme, conhecemos Raleigh, Mako, General Pentecost e outros soldados que lutam, dentro dos Jeagars, contra os Kaijus. No segundo filme, apenas alguns destes personagens retornam para combater a tal revolta do título.

Nesta segunda trama, que se passa 10 anos depois, Jake (o nome americano mais cafona que puderam inventar) é um jovem rebelde que insiste em explicar que não é a mesma pessoa que seu pai, Stacker Pentecost, general herói e piloto de Jeager no primeiro filme. Jake conhece Amara na primeira cena, uma adolescente que montou, sozinha, um Jeager pirata (ou seja, um robô gigante operado por apenas um piloto construído com peças de ferro velho sem nenhum patrocínio do governo) e juntos eles “acabam” numa base militar no meio do Pacífico. Lá eles conhecem uma classe de recrutas que se tornarão pilotos de Jeager e juntam-se a eles no treinamento, numa espécie de X-Men First Class, até que um novo vilão surge depois de uma hora de filme. Por que ainda treinam pilotos de Jeager se o portal entre dimensões foi fechado há 10 anos? Não se sabe. Por que os únicos pilotos em toda a base militar são adolescentes? Também não entendi.

Com o progresso da história, os temas do filme ficam evidentes: não deixe que os outros determinem quem você é. Apesar de filho do herói de guerra, Jake usa seu senso de humor e sua rebeldia para ser um outro tipo de herói, rejeitando a projeção da imagem de seu pai em si (apesar desta mesma projeção ter feito muito bem para Mako, sua irmã e protagonista do primeiro filme, que faz uma pontinha neste segundo). O tema ecoa também na trajetória de Amara, que perdeu os pais num ataque de Kaiju e viveu nas ruas desde então, tornando-se um gênio de mecânica, ciência e biologia neste meio tempo (como? também não sei, mas ela construiu um Jeager sozinha com peças de ferro velho, então engulo tudo).

Alguns personagens do primeiro filme retornam, como a própria Mako, que está em algumas cenas bem fofas. Os cientistas Hermann Goettlieb e Newt Geiszler também reaparecem; ambos alívios cômicos no primeiro filme, tomam lugares opostos na nova “revolta”, tornando-se líderes (provavelmente porque seria mais fácil do que introduzir novos personagens para estas posições). Estes dois são interpretados por Charlie Day e Burn Gorman, que já têm certo experiência e sucesso com personagens coadjuvantes queridos pelo público, então aqui eles têm a chance de brilhar. Day, em especial, protagoniza o maior dos plot twists de toda a trama de uma forma bem satisfatória (um dos poucos pontos em que acredito que a produção acertou, e tenho certeza que foi ideia de Del Toro).

A trama engrossa quando uma empresa (ah! o setor privado!) apresenta uma nova tecnologia: robôs similares aos Jeagers, mas que podem ser pilotados remotamente, sem arriscar a vida de pilotos em campo de batalha. (Novamente me pergunto o motivo de estarem desenvolvendo tecnologias assim, se a ameaça foi derrotada no primeiro filme, mas tudo bem.) Estes novos robôs, referidos apenas como “drones”, representam uma nova ameaça, mas não posso revelar muito mais para não estragar a diversão – dica: essa parte é realmente muito boa.

História vai, história vem, tramas fracas e subtramas mal exploradas são impostas em personagens rasos – Scott Eastwood não faz absolutamente nada – e a emoção acaba ficando nas costas de adolescentes cujos destinos não importam a ninguém. As cenas que incluem Kaijus são as mais interessantes (não vou revelar se são flashbacks ou não; vocês vão ter que ver!) e a mitologia do universo se expande, tornando o filme minimamente interessante – novamente, sinto a mão de Del Toro. As falhas, no entanto, seguem: no primeiro filme o general mais alto vai até o Alasca recrutar Raleigh para a guerra pois ele é o melhor piloto, mas dessa vez o governo aceita mandar crianças para a maior batalha da história do planeta? Esquisito. Mas tudo bem.

Nas características técnicas a produção também falha. Mesmo com uma trilha sonora não muito didática e com uma boa utilização da música-tema do primeiro filme apenas em momentos-chave, não há consonância com a câmera, que direciona mal o olhar do espectador e cai no erro de mostrar exatamente o esperado – algo que, nesse tipo de empreitada, é o maior perigo, pois expõe personagens e cenários completamente artificiais a todo tipo de erro do design de produção. Este que, por sua vez, abandona as cores que tornaram o primeiro filme visualmente brilhante para aceitar seu azul-cinza-branco sem muita ambição, se rendendo a uma fotografia blasé, comum.

Enquanto as batalhas no primeiro filme foram todas acontecimentos noturnos, usando e abusando da escuridão e das luzes da cidade e dos helicópteros para direcionar o olhar do público, neste segundo tudo acontece de dia. E isso é péssimo. Por muito pouco este filme não torna-se um Transformers qualquer, exagerando tanto nos furos de roteiro quanto nos furos básicos das leis da física (como um robô desses se mexe tão rápido gente?? no primeiro filme não era assim!). A luz do dia obriga todas as partes dos robôs e alienígenas a estarem expostas, isso implica em muito mais trabalho de CGI, isso implica em muito mais trabalho para os artistas que criam estes conceitos e muito, muito mais oportunidades de erro. É uma bagunça.

Por fim, eu sei que parece que critiquei demais o filme, e ele merece essas críticas mesmo. Mas não se deixe enganar por mim: se você gostou do primeiro Círculo de Fogo, não deixe de assistir a este. A diversão ainda está lá e tem sim momentos satisfatórios.

O primeiro filme foi uma obra-prima incompreendida e, apesar da produtora estar forçando uma sequência desnecessária e muitas vezes absurda, o universo criado por Del Toro faz valer a pena. Eu, pelo menos, vou seguir reassistindo o primeiro filme, me deliciando nas batalhas de Jeagers e Kaiju, com a esperança de que tenham a decência de não fazer um terceiro.

CÍRCULO DE FOGO: A REVOLTA

Diretor: Steven S. DeKnight

Elenco: John Boyega, Scott Eastwood, Cailee Spaeny e mais

Ano de lançamento: 2018

Filho de Stacker Pentecost (Idris Elba), responsável pelo comando do programa Jaeger, Jake (John Boyega) era um promissor talento do programa de defesa, mas abandonou o treinamento e entrou no mundo do crime ao vasculhar ferros-velhos em busca de peças de robôs abandonados. Perseguido após não encontrar uma peça valiosa, ele encontra o esconderijo da jovem Amara (Cailee Spaeny), que clandestinamente está construindo um Jaeger de porte pequeno. Ambos tentam fugir usando o robô, mas acabam sendo capturados. Para escapar da prisão, eles são enviados ao treinamento de pilotos Jaeger. Lá Jake reencontra sua irmã de criação Mako (Rinko Kikuchi), uma heroína da época do combate contra os kaiju, que tenta lhe ajudar a se areadaptar ao ambiente militar.

Gaúcho porto-alegrense apaixonado por cinema, séries de televisão e gatos. Relações Públicas por formação; comunicador por natureza.