Deadpool 2 (2018) | Crítica

Eu adorei Deadpool, o primeiro. E meu maior medo ao entrar na sessão do segundo foi que o filme fosse uma extensão do de 2016, um lance “o mesmo filme em local diferente” (como foi, na minha opinião, Guardiões da Galáxia Vol. 2). Felizmente, esse medo não se provou real. O segundo filme eleva essa possível franquia a um novo nível, estabelecendo um universo (e personagens!) além de Wade Wilson, essa é sua peça-chave. Além disso, Deadpool 2 é uma comédia refrescantemente autoconsciente, com deliciosas doses de metalinguagem e violência escrachada – tudo o que falta em todos os outros filmes de super-herói.

O time de roteiristas é formado novamente por por Rhett Reese, Paul Wernick e Ryan Reynolds, que dominam o delicado senso de humor do personagem titular e conseguem relacionar as referências perfeitas para amarrá-lo com o público atual ( (as piadas com os Vingadores eu amei). O diretor, no entanto, é outro. Depois que Tim Muller saiu do projeto devido a diferenças criativas com Reynolds; em seu lugar entrou David Leitch, que consegue colorir melhor e expandir a história de Deadpool.

Não vou revelar muito sobre a trama, porque acredito que a experiência vai ser melhor se você não souber bem pra onde o filme está indo – eu não sabia, e adorei. Mas vale saber que o maior diferencial de Deadpool 2 é a inclusão de mais personagens e a relação deles com Wade.

E o humor segue sendo a arma principal, usada com maestria. As gags – como são chamadas piadas curtas e espertinhas (sacadas? tiradas?) – têm timing quase perfeito na maioria das vezes e constantemente referenciam a própria obra, tanto intra-narrativa quanto extra. As doses de metalinguagem e referências estão ainda mais altas do que no primeiro filme, alinhadas com as quebras da quarta parede em cenas específicas. E em meio a um roteiro cheio de diversão, essas quebras acabam sendo cada vez mais sutis – porque o que ele fala pra gente também pode ser falado pros outros personagens.

Essa ousadia da Fox foi lucrativa em 2016 e com certeza será lucrativa dessa vez. E eu planejo contribuir! É bom poder balancear os três-por-ano da Marvel com filmes bem-humorados e selvagens como essa possível franquia Deadpool. Ao assistir, fica claro que o estúdio e as pessoas envolvidas estão mais confortáveis com esse universo criado (na verdade, é o mesmo universo que todos os X-Men, mas me refiro ao tom narrativo e estético dos Deadpool) e esse conforto possibilita uma expansão deliciosa dentro dessa mesma ideia. Por mim, quanto mais personagens melhor.

Aliás, como mencionei, os personagens são os maiores avanços no 2. Eles são exatamente o que todos queríamos: mais figuras nesse mundo escrachado da franquia, divertidíssimos por si próprios e ainda mais intensos em seus relacionamentos com o protagonista. Russell é um mutante pré-adolescente – acho que é o primeiro super-herói gordo do cinema, com exceção de Beto Pera -, que exercita sua rebeldia de formas um tanto perigosas. Enquanto isso Zazie Beetz dá vida a Domino, uma mutante com poderes deliciosos e uma personalidade bem Hit-Girl-esca. Cable, no entanto, é o mais esperado pelo público: nos quadrinhos, o filho de Scott Summers e Jean Grey é um super-herói barra pesada que viaja no tempo e aparece em diferentes linhas do tempo; aqui, Cable vem do futuro para consertar erros que ainda vão acontecer e acaba tropeçando no Deadpool – agora, se eles brigam entre si ou se viram amigos, deixo pra vocês descobrirem no cinema.

Colossus, o X-Man com poder de transformar todo seu corpo em metal cromado, retorna com uma subtrama divertidíssima relacionada a Wade e protagoniza alguns dos momentos mais emocionantes do filme. Junto com ele retorna a Negasonic Teenage Warhead, a adolescente alternativa que também vive na Mansão Xavier; ela traz seu sarcasmo e indiferença para algumas cenas e algumas gags que incluem sua nova namorada, Yukio.

E se você é fã ávido da Marvel, deve estar sabendo que o filme promete ser o primeiro a formar a X-Force – um time de heróis mutantes similar aos X-Men. Não vou revelar muito sobre como isso se desenrola no filme, posso falar apenas duas certezas: 1) a X-Force é formada sim e 2) é muito engraçado.

Tem mais um motivo que me fez gostar muito de Deadpool 2, que é meio pessoal, mas diz bastante sobre a produção. Eu sinto que vou lembrar desse filme, diferentemente do primeiro Deadpool. Eu lembro de gostar do primeiro filme, mas não recordo detalhes da trama nem quais piadas me marcaram – tive que rever antes de assistir ao segundo, pra refrescar a memória quanto a que piadas eram essas que eu lembrava ter gostado. Com Deadpool 2, sei que vou lembrar de algumas cenas, de algumas falas e algumas músicas; isso se deve ao enredo ser mais dinâmico e depender menos de um personagem único, expandindo a narrativa e nos conquistando para além das boas sacadas.

Então, fica a dica: veja Deadpool 2. Deixe se contaminar com as gargalhadas proporcionadas por esse humor contemporâneo que se auto-referencia constantemente e vê a graça no fundo do seu próprio poço.

DEADPOOL 2

Diretor: David Leitch

Elenco: Ryan Reynolds, Zazie Beetz, Josh Brolin e mais.

Ano de lançamento: 2018

Deadpool (Ryan Reynolds) está de volta maior, melhor e mais engraçado do que nunca. Quando o super soldado Cable (Josh Brolin) chega em uma missão assassina, o mercenário precisa aprender o que é ser herói de verdade, recrutando pessoas poderosas, ou não, para ajudá-lo – incluindo a sortuda Domino (Zazie Beetz).

Gaúcho porto-alegrense apaixonado por cinema, séries de televisão e gatos. Relações Públicas por formação; comunicador por natureza.