Demian – Hermann Hesse

Demian, obra original de 1917 e publicada posteriormente no Brasil pela editora Record, é o 5º romance do consagrado escritor, Hermann Hesse. É considerado por muitos críticos a principal obra do autor.

Sobre o livro

Após se envolver em uma roubada, Emil Sinclair se vê confinado em um mundo completamente diferente àquele pregado por sua família, o “isento de pecados”. Ele fora criado durante toda a sua vida a dividir o mundo entre o iluminado e o obscuro, como se fosse céu e inferno. O iluminado é aquele em que só existe bondade, amor, respeito, sendo este completamente seguro, aconchegante e paternal; o obscuro é todo o resto, é a maldade, tentações, desejos, brigas, crimes… Atormentado por não ter as respostas de todas as suas perguntas sobre sua existência, passa a procurar as respostas na sua própria introspecção.

“Quem quiser nascer tem que destruir um mundo. […] destruir no sentido de romper com o passado e as tradições já mortas, de desvincular-se do meio excessivamente cômodo e seguro da infância para a consequente dolorosa busca da própria razão de existir: ser é ousar ser.”

Emil, uma vez que já estava enraizado no mundo obscuro, se permite deixar-se cair em tentação na obsessão por um rapaz novo que aparece em sua classe; garoto um tanto quanto misterioso, muito sábio para sua pouca idade, e que parece ser as respostas de todas as suas tão questionadas perguntas, Demian.


Minha opinião

Bastou um deslize para Sinclair, nosso protagonista, cair no abismo do mundo obscuro. Indignado consigo mesmo, acabou se penalizando por anos por sua estúpida atitude de querer se aparecer para outro garoto que nem mais volta tinha desse “inferno”. Passa a não se achar mais merecedor de seu lar, do aconchego e segurança de sua casa e dos carinhos de seus pais. Mas Demian apareceu em sua vida quase como um anjo, tirando de suas costas o peso de toda a autopunição por não seguir os scripts da vida ditados por outras pessoas.

Cada palavra que saia da boca do garoto sábio é como se fossem guias para que Sinclair continuasse seguindo seu caminho da forma mais adequada, mas sempre dentro de suas próprias crenças e reflexões. Após o início dessa amizade – e por causa dessa amizade -, Emil começou a se permitir experimentar de ambos os mundos em busca de encontrar seu “verdadeiro eu”. Trilhando por esse caminho, ele prova do crime, da amizade, das incertezas, entre outras coisas, e descobre que além da independência, tem poder de decidir entre fazer o bem e o mal. Afinal, “o que é a vida do ser humano senão buscar o caminho que leva em direção a si mesmo”? Homem algum chegou a ser completamente ele mesmo, mas Emil estava destinado a cumprir esse desafio. 

“Hoje sei muito bem que nada na vida repugna tanto ao homem do que seguir pelo caminho que o conduz a si mesmo.”

Trata-se de uma temática bastante delicada por ser claramente uma metáfora a respeito das religiões e de todos os dogmas criados por elas, sendo estilhaçados por alguém que, desde sempre, se viu preso em um mundo em que não queria estar por não ter liberdade de conseguir se autoconhecer. Cansado de se sentir injustiçado por pregações hipócritas, o garoto segue a sua vida ao lado de Demian e de outras pessoas que apreciam o movimento filosófico, do questionamento, e com isso tenta chegar em sua mais pura essência.

“Deus representa o bom, o nobre, o paternal, o belo e também o elemento sentimental… está bem! Mas o mundo se compõe também de outras coisas. E todas essas coisas são simplesmente atribuídas ao Diabo. Glorifica-se a Deus como Pai de toda a vida, ao mesmo tempo em que se oculta e se silencia a vida sexual, fonte e substrato da própria vida, declarando-a pecado e obra do Demônio. Creio que devemos adorar e santificar o mundo em sua plenitude total e não apenas essa metade oficial. Ou mesmo criar um deus que interagisse em si também o demônio e diante do qual não tivéssemos que cerrar os olhos para não ver as coisas mais naturais do mundo.”

Esse é um livro que, para mim, teve o mesmo efeito que Demian propôs na vida de Emil: ter a cabeça aberta para fazer a si mesmo alguns questionamentos, quais muitas vezes podem ir à confronto de muitas coisas que é confortável acreditar. Obviamente não é um livro ditador de verdades, ele apenas propõe questionamentos – como já disse antes – mas, ainda assim, exige de nós um pouco de mente aberta para conseguir alcançar o ponto reflexivo que o livro objetiva.

A história não trata exclusivamente de religião, na realidade, mostra de forma sutil e abstrata os reflexos que as religiões podem causar. Nos faz refletir, buscar o autoconhecimento, a própria essência, por fora da religião, por fora de qualquer coisa que nos limite a sermos quem somos, sendo nós pessoas boas ou não. “Sendo nós os responsáveis por encontrar o que é permitido e proibido a si próprio”. Demian nos propõe a pensar o que estamos fazendo e como estamos lidando com as nossas vidas, nos fazendo, inconscientemente, buscar compreensão se estamos agindo conforme nossa própria essência, ou se estamos existindo apenas para agradar algum grupo da sociedade.

 

DEMIAN

Autor: Hermann Hesse

Editora: Record

Ano de publicação: 1974

Um dos grandes clássicos do autor, relata o amadurecimento de um jovem a partir de sua estranha relação com um rapaz de personalidade misteriosa e sedutora, que muda sua vida para sempre.

Apaixonada por livros desde que me entendo por gente, me infiltrei aqui no Resenhando Sonhos para poder falar dessa paixão desenfreadamente (sem ser julgada).