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Duna – Frank Herbert

Duna é um livro clássico de ficção científica escrito por Frank Herbert em 1965. Em 2017 a editora Aleph relançou o título em capa dura.

SOBRE O LIVRO

Num tempo longínquo e futuro, a humanidade colonizou o espaço interestelar e o Império reina absoluto. Caladan, um dos planetas pertencentes ao Império, é o lar do jovem e astuto Paul Atreides, filho de Leto Atreides, o Duque regente do planeta. Treinado desde cedo para ser um Mentat, sua vida sofre uma grande mudança quando o Imperador ordena que Duque Leto e sua família se mudem para o estranho e árido planeta de Arrakis, conhecido como Duna, a fim de supervisionar a extração da substância mais importante e rara de todo o universo: a Especiaria.

Forçados a deixar Arrakis e tendo de retornar ao seu planeta natal, Giedi Prime, o Barão Harkonnen não fica satisfeito em ver seu posto de comando sendo passado ao principal rival. Para ele, a ascensão dos Atreides junto aos domínios do Império representa grave ameaça ao seu poder de influência, e precisa fazer algo logo, antes que a Casa Harkonnen seja rebaixada a uma posição menor. Sendo assim, o Barão inicia um grande estratagema para retomar o poder, e não medirá esforços para colocá-lo em prática.

“Grave isso na memória, rapaz: um mundo é sustentado por quatro coisas… – ela ergueu quatro dedos nodosos – … o conhecimento dos sábios, a justiça dos poderosos, a prece dos justos e a coragem dos bravos. Mas tudo isso de nada vale… – ela cerrou o punho – … sem um governante que conheça a arte de governar. Faça disso a ciência de sua tradição!”

Enquanto isso, em Arrakis, o povo local e constantemente subjugado pelo Império, os Fremen, veem a chegada dos Atreides como um bom sinal e trazem à tona uma antiga profecia de que um dia o Messias viria para conduzir o povo à liberdade e à sonhada evolução ecológica, onde Duna deixaria de ser árido e se tornaria um paraíso rico em água. O fortalecimento da profecia e a aceitação social da família Atreides inicia um grande momento de instabilidade política e social dentro do Império, e Paul se encontra no centro do grande conflito que está prestes a iniciar em Duna.


MINHA OPINIÃO

Desde que eu voltei a ler, há dois anos, Duna estava entre os livros que eu queria muito na minha estante. Sempre que eu procurava por ficção científica, encontrava este livro listado entre os melhores de todos os tempos, como um dos mais importantes do gênero, além de outras positivas adjetivações. Demorei bastante para começar a ler a obra por conta de dois motivos: maturidade e compreensão do conteúdo. Atualmente, eu me sinto muito mais “maduro”, ou em outras palavras, confortável e propenso a ler histórias clássicas do que eu me sentia há meses atrás. Além disso, meu receio em ler livros mais antigos e densos era de não compreender a linguagem ou o objetivo proposto pelo autor. Fico feliz em dizer que com Duna não tive nenhum problema e que a leitura se mostrou uma agradável surpresa.

À julgar pela sinopse, o livro parece ter uma história fácil e parecida com qualquer outra que encontramos hoje em dia, beirando, inclusive, bastante com a fantasia e pouco com a ficção científica. Porém, é notável que o que Frank Herbert fez foi ir além do que as primeiras impressões podem nos dar e praticamente deu uma nova visão ao conceito de ficção científica da época. Duna não é apenas uma história sobre famílias ricas e importantes lutando por poder e com estranhas habilidades, mas é uma narrativa sobre a relação do ser humano com a natureza, com a religião e com seu próprio eu interior. É uma trama que nos leva a fazer inúmeras reflexões e ao mesmo tempo ver previsões angustiantes sobre o nosso futuro. Não é a toa que até hoje a série tenha se mantido tão atual em sua linguagem e críticas oferecidas.

“Não terei medo. O medo mata a mente. O medo é a pequena morte que leva à aniquilação total. Enfrentarei meu medo. Permitirei que passe por cima e através de mim. E, quando tiver passando, voltarei o olho interior para ver seu rastro. Onde o medo não estiver mais, nada haverá. Somente eu restarei.”

O mundo criado pelo autor é complexo e rico em detalhes. Nele, somos apresentado a um futuro onde a humanidade já colonizou vários pontos do universo e a Terra não é mais habitada. As religiões foram unificadas sob o comando do Império e compõem a Bíblia Católica de Orange (BCO), o livro sagrado oficial. O Imperador controla tudo, e cada planeta colonizado é comandado por uma família escolhida a dedo. Cada planeta é chamado de feudo e as famílias regentes compõem as Grandes Casas. Entre elas, as mais importantes são as Atreides, Corino e Harkonnen. Inclusive, é entre essas três casas que reina um longo conflito político, que começou há muitos anos no passado, quando a humanidade precisou lutar contra as máquinas e, por muito pouco, venceu a guerra. Um Atreides foi o responsável pela vitória. Desde então, toda a tecnologia do Império é reduzida a máquinas mecânicas e que não ultrapassem o grau de inteligência dos humanos.

Para suprir a falta de computadores, e evitar o retrocesso tecnológico do Império, uma nova classe de pessoas surgiu: os Mentats. Essa classe era composta por pessoas treinadas desde o nascimento para serem super humanos, verdadeiros computadores ambulantes. Todos os cálculos matemáticos, previsões e medidas passam por eles. São eles, inclusive, que guiam as naves pelo espaço. As viagens espaciais são monopolizadas pela Guilda Espacial. Outra organização extremamente importante é uma irmandade milenar conhecida como Bene Gesserit, criada por mulheres e exclusivamente para mulheres. Lá, elas são treinadas desde muito jovens a terem domínio das emoções, do pensamento, a controlar a Voz (uma forma de hipnose feita pela entonação vocal) e também a serem extremamente observadoras. São guerreiras, e muitas chegam a se tornar Reverendas Madres, um alto cargo de poder que lhes permite fazer previsões sobre o futuro do Comando Imperial, da situação política, etc.

O principal foco do Império é a Mélange, substância misteriosa e com grandes poderes psíquicos, que possibilita visões do futuro. São usadas principalmente pelos Mentats e pelas Madres. É viciante e com o tempo deixa os usuários com os olhos totalmente azuis. O único lugar conhecido pelo Império que produz essa substância, que é impossível de ser sintetizada, é no Planeta de Arrakis ou Duna. Mas extrair essa substância de Duna não é tão simples, já que lá é o lar dos gigantescos Vermes do Deserto, que são atraídos pelo mínimo de movimento na superfície da areia e também por campos elétricos. Além disso, a escassez de água é tão grande que Duna se torna o cemitério para qualquer um que se perca por lá. Ainda que o local seja a personificação da morte, um único povo se mostrou capaz de viver as duras condições de Duna: os Fremen. Para eles, o planeta é um enorme santuário e um dia o grande Messias retornará para libertar o povo da opressão do Império.

“Já ouviu falar de animais que roem a pata para escapar de uma armadilha? É o tipo de truque que um animal usaria. Um ser humano ficaria preso, resistiria à dor e fingiria estar morto, para que pudesse matar o caçador e acabar com essa ameaça a sua espécie.”

Isso foi apenas um resumo da grandiosidade do universo criado por Frank Herbert, que vai sendo apresentado e explorado aos poucos. De começo, a narrativa foca na família Atreides e sua relação com o Império no planeta Caladan, antes da transferência para Arrakis. Assim, a história apresenta um pouco mais o Duque Leto, um homem bondoso e humilde que, apesar de ser de uma Grande Casa, está sempre disposto a dar sua vida em prol do próximo. Essa é, inclusive, um dos principais motivos pelo qual o Barão Harkonnen o odeia: sua simplicidade faz com que todos gostem de Leto, o que possivelmente faz com que o vejam como lorde a ser defendido.

Jéssica é também outra personagem que possui grande importância e destaque. É foi uma discípula Bene Gesserit e cada um de seus passos são meticulosamente pensados e calculados. Jéssica não se deixa enganar tão facilmente, e devido ao seu poder de influência ao lado do Duque, é vista com cobiça por outros lordes. Apesar de aparentar ser fria e calculista, nada é mais importante do que o amor por seu filho Paul, e quando a vida deste está em perigo, ela faz o possível para protegê-lo. Não é uma personagem dependente de um herói masculino ou apenas para preencher espaço. É uma mulher forte, de personalidade inspiradora e guerreira.

Paul, por outro lado, é um personagem que sofre muitas mudanças no decorrer da trama. Com apenas 15 anos, já estava próximo de se tornar um grande Mentat, mas após os conflitos políticos pelos quais sua família passou, ele amadureceu relativamente rápido, tendo que usar todo o seu conhecimento teórico no dia a dia. Ele precisou mudar a forma de ver o mundo a sua volta, e se obrigou a calcular sempre o próximo passo. Paul, apesar de nunca ter estado em batalha, aprendeu rápido como se portar como um guerreiro, como conquistar respeito e aliados. Inclusive, é graças a essa evolução que se aproximou do povo Fremen, onde ele descobriu um grande potencial de guerra.

“Quando religião e política viajam no mesmo carro, os condutores acreditam que nada é capaz de ficar em seu caminho. Seu movimento torna-se impetuoso, cada vez mais rápido. Deixam de pensar nos obstáculos e esquecem que o precipício só se mostra ao homem em desabalada carreira quando já é tarde demais.”

Em Duna, o autor tinha absoluta certeza do que estava fazendo. A trama é intrincada, com várias intrigas, sub-camadas e fragmentos de histórias que vão se conectando aos poucos e formado o quebra-cabeça maior. Os personagens são explorados ao máximo, seja demonstrando seus sentimentos, sua forma de pensar ou até mesmo suas fraquezas. Não temos um super herói ou heroína. Não temos um vilão só por ter. Todos possuem suas razões, convicções e defeitos. São representações fieis do que o ser humano é. Isso não só torna a história mais convincente como também por várias vezes nos perguntamos: no lugar desse personagem, eu não faria a mesma coisa, ainda que fosse errada?

Além disso, a forma como os personagem se ligam ao ambiente da história também é muito bem feita. Duna é um planeta desértico, mas ainda assim, capaz de suportar a vida. O povo Fremen, ainda que ignorado pelo império, desenvolveu uma tecnologia capaz de absorver o máximo possível de água do ambiente. Todos eles usam “trajestiladores”, uma espécie de roupa com camadas ocas, que filtra o suor e a respiração, e resgata a água que seria perdida, evitando assim o desperdício. Além disso, para os Fremen, a água é tão sagrada que, quando alguém de sua tribo morre, eles retiram todos os fluídos do corpo, e depois enterram a pessoa. Os fluídos então passam por um processo de purificação, e a água resultante é distribuída entre os integrantes da tribo. Chorar é proibido, e quando alguém o faz, é visto como enorme ato de humildade e sabedoria. “Dar água” aos mortos é a atitude mais nobre que alguém pode ter.

“Veja bem, o líder é o que distingue a turba de um povo. Ele mantém o nível de indivíduos. Quando são muito poucos os indivíduos, o povo  volta a ser uma turba.”

Duna não é relevante até hoje em dia por acaso. O aspecto que o livro possui serve muito bem de reflexo do futuro do nosso planeta. Hoje em dia fala-se muito em preservar a água, evitar desperdício, etc, mas ainda assim, as medidas efetivas tomadas nesse sentido são poucas. A indústria, principalmente, gasta milhões de litros de água diariamente, e grande parte não pode ser mais reaproveitada. Estudos indicam que em 100 anos não teremos mais tanta água disponível, e que as guerras que hoje são fomentadas pelo petróleo serão, então, fomentadas pela relíquia. Outro detalhe que pode afirmar essa percepção é que, na trama, é dito de forma breve, que a Terra há muito tempo deixou de ser habitada. Os reais motivos disso não são claros, mas podemos fazer várias deduções, desde poluição química, contaminação radioativa decorrida da batalha com as máquinas, ou até mesmo, fim da água no planeta.

Quando pesquisei mais sobre o livro, uma frase em questão era destaque: “Duna é uma aula de ecologia“. E de fato é. Inclusive, é nesse ponto que fica evidente a maior parte da ficção científica do livro. A forma como o autor descreve as condições atmosféricas do planeta Arrakis, como o povo Fremen faz para coletar água da noite, além também de ter nos apêndices um “conto”, vou assim dizer, que narra como o doutor Pardot Kynes – um paleontólogo que viveu em Duna antes dos eventos narrados no livro – pretendia transformar o planeta em um lugar rico em vegetação, água, animais, são exemplos claros da ciência aplicada na vida humana. As descrições são muito precisas e há vários relatos de botânica contida no livro.

“Melhor ter um bocado seco de comida, e com ele a tranquilidade, do que ter a casa cheia de festins com rixas.”

Eu demorei quinze dias para ler o livro completamente, já que é uma narrativa densa, complexa e repleta de reflexões sobre o ser humano e suas ações no mundo em que vive. Porém, foi uma leitura que me prendeu o tempo todo, e que fluiu super bem. Ainda que haja muitas palavras novas que o autor criou para a trama e que a passagem temporal dos eventos não fique tão clara, a narrativa é cativante e a troca de ponto de vista dos personagem também faz com que ela não seja cansativa ou monótona. A cada capítulo, algum personagem tem algo a nos ensinar ou a dizer que nos faça refletir. O mais bacana é que o final do livro permite escolher se vamos continuar a série ou se paramos nele mesmo. Não é daqueles finais que ficam devendo informações. Todos os conflitos, intrigas e linhas de pensamento são fechadas e conectadas, tornando-o um livro muito bem planejado e escrito.

Essa nova edição da Aleph está incrível, em capa dura e com ilustrações do grande artista francês Marc Simonetti, que também ilustra outras obras de renome, como Mistborn, A Song of Fire and Ice, etc. Há também um mapa de Duna, mostrando os principais pontos onde a trama acontece, sem falar dos apêndices que ajudam a compreender ainda mais o universo, bem como um glossário de todos os termos usados no Império. Eu estou bem ansioso para ler o segundo volume da série e continuar explorando ainda mais esse magnífico universo criado por Frank Herbert. Duna deve ser uma leitura obrigatória para qualquer fã de ficção científica e que também pode ser visto como um manual de como construir uma história rica, exuberante e aplicável aos tempos atuais.

DUNA

Autor: Frank Herbert

Editora: Aleph

Ano de publicação: 2017

A vida do jovem Paul Atreides está prestes a mudar radicalmente. Após a visita de uma mulher misteriosa, ele é obrigado a deixar seu planeta natal para sobreviver ao ambiente árido e severo de Arrakis, o Planeta Deserto. Envolvido numa intrincada teia política e religiosa, Paul divide-se entre as obrigações de herdeiro e seu treinamento nas doutrinas secretas de uma antiga irmandade, que vê nele a esperança de realização de um plano urdido há séculos. Ecos de profecias ancestrais também o cercam entre os nativos de Arrakis. Seria ele o eleito que tornaria viáveis seus sonhos e planos ocultos? Ao lado das trilogias Fundação, de Isaac Asimov, e O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, Duna é considerada uma das maiores obras de fantasia e ficção científica de todos os tempos. Um premiado best-seller já levado às telas de cinema pelas mãos do consagrado diretor David Lynch.

É colaborador do Resenhando Sonhos.
Catarinense, Publicitário formado pela UNOESC, apaixonado por sci-fi, distopias e suspense policial. Fã de Arquivo X e Supernatural, sonha um dia encontrar os aliens.