Em Ritmo de Fuga (2017) | Crítica

Dirigido pelo aclamado diretor teen, Edgar Wright, “Baby Driver” é seu sexto filme.

Em Hollywood, a indústria gosta de usar fórmulas de sucesso. O problema é que, muitas vezes, essas fórmulas desgastam-se de tanto uso, tornam-se clichês, modelos indolentes. Baby Driver (no Brasil, Em Ritmo de Fuga), contudo, é um filme que usa tais fórmulas de sucesso de maneira autêntica e divertida. O brilho e o talento do diretor Edgar Wright, popular por sua filmografia jovem-geek, oxigenam um roteiro simples e ingênuo que, escrito também pelo diretor, mantém suas marcas de originalidade e criatividade, apesar da trivialidade da trama.

O protagonista é Baby (Ansel Elgort), um jovem e talentoso motorista que tem o hábito de ouvir música o tempo inteiro e é obrigado a trabalhar para um criminoso (Kevin Spacey). Em breve folga de seus serviços, ele se apaixona por uma garçonete chamada Débora (Lily James), o que aumenta a sua urgência em se livrar das atividades criminosas as quais lhes são impostas o cumprimento.

A história é ingênua, algo absolutamente compreensível dentro de uma obra-teen como a de Edgar Wright, despreocupada com qualquer realismo psicológico ou no geral. Os personagens são simples e suas ações às vezes parecem servir mais à narrativa (convencionada nas fórmulas tradicionais) do que às suas personalidades; e, apesar do grande elenco, nenhuma atuação se destaca – todas são competentes à sua maneira. Ansel Elgort, 23 anos, porém, demonstra potencial. A contradição entre a ingenuidade da trama e a violência natural a uma temática sobre crimes, aliada à opção de se usar as tendências violentas dos personagens apenas em trechos específicos da história, ignorando-se outros, é um dos pontos fracos.

O uso de trilha sonora é onipresente a toda a projeção, dadas as características do protagonista. Um dos desafios do filme é empregar tal artifício sem cair no enfado e na mesmice, sendo um risco para tal abordagem o consequente descarte total de utilização do silêncio – ele: tão simples, tão impactante, mas tão negligenciado. As cores da obra são vívidas e a fotografia vai ganhando mais e mais sombras ao longo da trama, seguindo as situação as quais Baby passa; e a câmera, por vezes, dança, movimentando-se, acompanhando-o em suas playlists.

Conhecido por filmes como Scott Pilgrim vs. The World e Heróis de Ressaca, o diretor e roteirista Edgar Wright atinge em Baby Driver uma maior maturidade e alcance comercial, revelando talento para a Ação. Porém, há aqui a ausência de alguns de seus experimentalismos característicos. A direção tenta ao máximo manter-se sóbria: as transições, gags, brincadeiras visuais e de câmera não são utilizadas da mesma maneira que Wright usou em obras anteriores, aliás, neste filme, ele quase não as usa, o que o faz perder seu principal charme. É como se Wes Anderson deixasse o TOC de lado e não mais centralizasse tudo que há na tela ou desistisse de suas cores. Ele perderia algo de estilístico e único seu, mas a boa linguagem cinematográfica e competência permaneceriam ali. É o que acontece neste filme com Edgar.

Acima de tudo, o filme é divertido. É um entretenimento de qualidade – o tipo de filme que recomendo para quem não está afim de obras de arte mirabolantes, mas que ainda assim quer ver algo bom. Baby Driver tem suas incongruências e clichês desgastados na história, mas a direção salva a obra de cair na vala comum. É o tipo de filme que não me deixa satisfeito, deixa-me é instigado a acompanhar o que mais Edgar Wright, que já tem animação programada para lançamento em 2019 e mais um projeto de adaptação do livro Grasshopper Jungle encaminhado, trará de original para o cinema.

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EM RITMO DE FUGA

Diretor: Edgar Wright

Elenco: Ansel Elgort, Lily James, Kevin Spacey, Jon Hamm, Jamie Foxx e mais

Ano de lançamento: 2017

Um jovem e talentoso piloto de fuga chamado Baby, viciado em trilhas sonoras, apaixona-se por uma garçonete, vendo-se obrigado a abandonar de vez sua vida à serviço do crime, perpetuada contra a sua vontade.

É colaborador do Resenhando Sonhos.
Cético, é daqueles que precisam ver para crer.
Pedro é estudante de Jornalismo na UFRGS, cinéfilo e meio míope.