Enraizados – Naomi Novik

Enraizados é da autora Naomi Novik e um lançamento de 2017 da Fantástica Rocco.

SOBRE O LIVRO

Em Dvernik, assim como em todas as outras vilas da região, as pessoas vivem sob duas sombras: a da floresta que oprime e de onde saem criaturas corrompidas que trazem dor e morte; e a do dragão, um mago que de tempos em tempos visita os vilarejos para escolher uma jovem que viverá com ele por 10 anos em seu castelo.

“Nosso dragão não come as meninas que captura, não importa as histórias que contem fora do vale.”

Certos de que Kasia, a mais bonita e prendada, será a escolhida, há uma apreensão no ar, mas também certa tranquilidade por parte das outras famílias que consideram suas filhas à salvo. Porém, para a surpresa de todos, é a melhor amiga de Kasia que acompanhará o dragão. Agnieszka não entende o que aconteceu e vê o medo tomar conta de si quando se vê aprisionada ao lado desse homem estranho.

Enquanto tentar se adaptar a sua nova vida e entender seu captor, descobre que é capaz de manipular magia, entrando assim em treinamento sob o olhar afiado do dragão. Entretanto, os problemas começam a aparecer quando um dos príncipes, obcecado por resgatar a mãe, que há anos foi levada e presa dentro da floresta, manifesta suas intenções de ir em busca dela e seu anseio de não abandonar isso por nada. O problema é que ninguém nunca saiu vivo da floresta e essa parece uma missão suicida.


MINHA OPINIÃO

Esse livro é inspirado em lendas do folclore eslavo, se propondo a utilizar esses elementos para criar uma fábula única. A autora foi indicada ao Hugo Awards e venceu o Nebula em 2015, mas mesmo com o peso das premiações, essa foi uma história que não funcionou comigo.

Se tem algo que aprendemos com os contos de fadas e fábulas ao longo dos anos e com a evolução da sociedade é que eles não eram 100% corretos. Porém, ao fim, havia sempre uma lição que amarrava tudo e justificava certas ações, enquanto punia outras. Basicamente, a missão desse tipo de narrativa é ter uma bela lição de moral a ser ensinada. Enraizados até tem, porém se esqueceu que precisava explicar e trabalhar também o resto do livro.

“A floresta estrangularia todas as coisas e as arrastaria para baixo de suas raízes.”

O que diz respeito à natureza, o problema final, o ato que aponta o propósito da história, é sim muito bacana. É uma abertura de pensamento sobre como o homem desenvolve sua relação com a natureza e como ela não é verdadeiramente igualitária, quando tiramos muito mais do que recebemos. Entretanto, isso só vem nos últimos capítulos do livro, deixando todo um mar de problemas espalhado pelo caminho.

E assim, eu nem vou entrar aqui na discussão da tendência “Bela e a Fera” que temos estampada na sinopse da história. Acho que todo mundo sabe que a tradicional trama do cara “mau” que mantém a mocinha em cativeiro, esconde algum grande segredo e pelo qual a garota sempre se apaixona não é o cenário mais certo do mundo. Não, vou completamente abstrair disso e andar um pouco mais a frente.

Aqui vamos ter um personagem masculino privilegiado e intocável por causa de sua posição. Isso dá a ele o direito de fazer o que ele quiser, desde levar milhares de pessoas à morte por infantilidades, cometer tentativa de estupro, obrigar alguém a se casar e ainda ter tudo isso apontado como algo a que não se pode fazer nada contra. Pior. Que a garota alvo dessas coisas chegar ao ponto de afirmar que “entende” porque o ele é assim e, se estivesse na situação dele, faria igual.

Eu realmente me contorci durante essa leitura tentando achar o fundamento disso, levando em consideração que os quatro momentos absurdos que temos ligados a isso são completamente dispensáveis à trama principal, apontando que isso estar ali, sem ser usado ou trabalhado, acaba por só comprometer a narrativa de uma forma injustificável.

“Pior do que estar sozinha era sentir que nenhum deles era meu amigo nem me desejava nenhum bem.”

E, falando em justificativas, eu esperei por ela até o último minuto. Porque a autora aqui tinha numa bandeja o argumento para expor o personagem, “justificar” seus atos, fazer com que a gente o compreendesse, e isso não acontece. Ao fim, quando parece que Novik quer que o leitor sinta até certa pena do personagem em questão – o que ao meu ver é simplesmente impossível-, ela joga fora a oportunidade de por sobre a maldade, a corrupção ou seja lá o nome que ela quisesse dar, pra costurar esses atos, redimir, problematizar, explicar, dizer que aquilo era errado. Mas a autora não o faz. Ela não captura as coisas péssimas, machistas e opressoras que incluiu em sua história para trabalhar o assunto. Isso está apenas ali e o leitor tem que superar, fazer vista grossa, fazer de conta que faz sentido.

Pra mim, quando a autora se propôs a criar uma história em formato fábula, ela adquire responsabilidade sobre todo e qualquer montante de “coisa ruim” que há em sua obra a fim de dar aquilo uma visão de transformação. Porém, aqui, o que Naomi Novik faz é apenas escolher a parte que lhe convém para passar a mensagem e deixar tudo de errado que foi exposto no livro como algo ok. E isso pra mim simplesmente não funciona, principalmente quando se vê claramente que nenhuma dessas coisas era essencial para a trama principal. Nós realmente poderíamos ter vivido sem ler essas coisas com perda zero na construção da narrativa.

Por baixo dos problemas a autora consegue contar uma história que não fica presa ao básico, que seria apenas acompanhar a protagonista treinando. Vão haver deslocamentos, mudanças de foco e uma ou duas surpresinhas. Agnieszka não é coerente em toda a sua jornada. Assim como por vezes é forte e determinada, por outras soa imatura, com uma preparação e conhecimento que surge do nada e com decisões e posturas de quem bate continência. Ela é exposta o tempo todo com uma garota desastrada e não é difícil reparar, pela constante repetição, que isso marca mais que superficialmente quem ela é ou sua “posição” dentro desse mundo.

Já o dragão é o mago misterioso, que apesar de ter centenas de anos ainda é um jovem atraente e que esconde suas camadas de segredos por baixo do semblante de medo que causa nas pessoas. Ele é o típico boa pinta mau humorado que quer mandar em tudo, mas que fica estudando a menina com rabo de olho e que esperamos a qualquer momento que vá se abrir como uma flor. Então, como dá pra reparar, a história tem seus diferenciais, mas também os clichês que andam de mãos dadas.

A narrativa começa rápida, mas achei que no desenvolvimento fica um pouco arrastada. Há muitas descrições de ambientes e roupas, tornando o fluxo mais lento. A capa é super bonita e a proposta de história também é muito interessante, como já mencionei pelo seu final e o elo com a natureza. Porém tudo o que caminhei pra chegar ao desfecho não valeu a pena. Acho que o que mais me surpreendi foi ver o quanto o livro estava sendo bem cotado e perceber que ninguém estava levantando essas questões. Foi uma daquelas experiências onde eu me senti meio “alien” por ter uma opinião que claramente vai contra o fluxo.

Pra mim, como já deixei claro, foi impossível ignorar esses elementos na história e fingir que estava tudo bem eles estarem ali sem problematização. E, sendo a autora uma mulher, acho que fiquei ainda mais chocada com a leviandade que ela tratou tais assuntos. De qualquer forma, como sempre digo, gosto é gosto e se a história lhe chamar a atenção, leia para tirar suas próprias conclusões.

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ENRAIZADOS

Autor: Naomi Novik

Editora: Rocco

Ano de publicação: 2017

Agnieszka e Kasia são melhores amigas e levam uma vida tranquila no vale. Mas essa tranquilidade cobra seu preço. Afinal, às margens do vilarejo onde moram fica a temida Floresta corrompida, cheia de um poder maligno desconhecido, e para impedir que ele avance para além das fronteiras da Floresta, o povo do vale conta somente com a proteção de um mago frio e ambicioso, que a cada dez anos exige que uma jovem do vilarejo seja entregue para servi-lo. Enquanto a próxima escolha se aproxima, Agnieska teme por sua bela, graciosa e corajosa amiga. Mas pode ser que ela esteja errada. Porque, quando o Dragão chegar, não é Kasia que ele vai escolher.

É a criadora e autora do Resenhando Sonhos. Gaúcha do interior do Rio Grande do Sul, hoje mora na capital Porto Alegre e quer conhecer o mundo. Publicitária por formação, sonhadora por opção. É mal humorada e chata.
  • Natália Costa

    Quanta convicção na sua resenha! hahahha
    Acho super válidos seus argumentos, não li o livro mas tb tenho birra de situações desnecessárias, principalmente quando envolvem atitudes de abuso, e que eu considero falta de caráter! hahaha
    Mas acho que como fábula a história deve ser ótima, me pareceu ser ruim não.

  • Kristine Albuquerque

    Parece que este vai entrar para a lista de decepções do ano, não é? rs.
    Uma das coisas que mais amo nas tuas resenhas é a amplitude que tu traz à leitura, percebendo os pontos fortes e os fracos, aliado à visão de mundo feminista. É mesmo triste que coisas tão absurdas soem como naturais e comuns à grande maioria (romantização de relacionamentos abusivos, personagens femininas como coadjuvantes etc… – e o pior, quando isso é reforçado por autorAS). Enfim, acredito que vou mesmo passar essa leitura, rs.

  • Camila Rezende

    Ola Tamirez,
    Ja tinha lido sobre esse livro antes e ate tinha me interessado pela estória, mas depois dos problemas que vc apontou na sua resenha agora estou com o pe atras.
    Eu gostei da capa do livro, pena que a estória não agradou.

  • rudynalvacorreiasoares

    Tamirez!
    Gosto de livros de fantasia e quando vem com enredo diferenciado, ainda melhor, porque é bem como falou, todos tem sido mais do mesmo.
    Esse nem tinha isto em nenhum blog, é a primeira resenha que leio dele e fiquei fascinada, primeiro pela Floresta ser um tipo de protagosnita no livro, já que tem vida própria e por causa de Dragão, fiquei cheia de curiosidade para saber quais mistérios rodam o sequestro de uma garota a cada 10 anos.
    Entendi mesmo sua indignação e questionamento sobre o procedimento do carinha que faz tudo do jeito dele e como quer, sem pensar nas consequências, mas cada um tem uma forma de ver cada história, não é mesmo?
    “É prova de inteligência saber ocultar a nossa inteligência.” (François La Rochefoucauld)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA novembro 3 livros, 3 ganhadores, participem!

  • Carolina Santos

    Enraizados é tão bom que eu, que tinha o original em inglês no Kindle, comprei a edição nacional com o duplo objetivo de ter na minha estante

  • jady santos

    Não achei tão interessante, amo a “Bela e a fera” e as historias que tem o mesmo estilo, mas não me cativou, não me atraiu os olhares. Mas quem sabe um dia eu leia.

  • Vitória Pantielly

    Oi Tamirez!
    Quando comecei a ler a resenha me empolguei, gosto de releituras de contos de fadas, mas nesse caso a autora de fato não soube usar dos artifícios que tinha.
    Parei quando você disse que o protagonista comete uma tentativa de estupro, pra mim isso não tem justificativa, e é uma pena, achei mesmo que iria gostar. Esse eu deixo passar ..
    Bjs