Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos – Ana Paula Maia

Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos, lançado em 2009 pela Editora Record, foi escrito pela autora nacional Ana Paula Maia.

SOBRE O LIVRO

Composta de duas novelas cujas histórias se encontram em dado momento, Entre Rinhas de Cachorros e Porcos AbatidosO Trabalho Sujo dos Outros, a obra trata de personagens que vivem à margem da sociedade, em um subúrbio indefinido, realizando trabalhos dos quais dependemos porém nunca faríamos por nós mesmos. Abater porcos, quebrar asfalto, recolher lixo e desentupir canos de esgoto são apenas algumas das funções que passam pela narrativa de Ana Paula Maia.

“Este livro reúne duas novelas literárias compostas de homens-bestas, que trabalham duro, sobrevivem com muito pouco, esperam o mínimo da vida e, em silêncio, carregam seus fardos e o dos outros”.

Em uma narrativa tão dura e crua quanto seus personagens, iremos conhecer um pouco melhor cada homem e, principalmente, o conjunto de regras que rege as suas vidas, as quais funcionam sob uma lógica ética um pouco diferente do que estamos acostumados. Complexo, duro e intenso, o livro estilhaça com nossa zona de conforto e nos mostra uma ficção mais real que o que encontramos diante de nossos olhos.


MINHA OPINIÃO

Na primeira novela, Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos, conhecemos Gerson e Edgar Wilson, dois homens que trabalham abatendo porcos e que tem como migalha do que poderíamos chamar de diversão a rinha de cachorros, onde apostam em batalhas que, frequentemente, vão até a morte de um dos cães. O que esses homens tem de bestas tem também de verdadeiros, e uma coisa que chamou a minha atenção logo de cara é o modo como é difícil amá-los, mas é mais difícil ainda não gostar deles.

“Para homens como Gerson e Edgar Wilson isso é recompensa: o fim do dia. A trégua do sol. A sensação de dever cumprido. Sentem-se dignos de desfrutar das coisas simples e práticas da vida”.

É uma narrativa bastante violenta, mas que consegue, de alguma forma, ser bela. Maia sabe muito bem manipular as palavras a seu favor, demonstrando um domínio que poucos atingem sobre a língua portuguesa e como usá-la da melhor forma para contar uma história forte e poderosa. Edgar Wilson, em especial, chama atenção por sua complexidade e pelo modo como, passado o choque inicial, compreendemos e até nos identificamos, até certo ponto pelo menos, com o modo como ele se comporta dentro daquele contexto. Pois o mesmo homem capaz de matar com toques de crueldade é capaz de pensamentos como este:

“Dias tristes podem  ser frios ou quentes, cinzas ou azuis. E as sombras revestem as almas, desejos e pensamentos. E as sombras nem sempre são nossas, podem ser de qualquer um. Do muro ao lado, da onda do mar, da imensa asa no céu. Às vezes, até as estrelas parecem fazer sombra. Mesmo mortas, insistem em ofuscar com seu insistente sendo de infinito. E ao pensar nas estrelas, às vezes ele gostaria de ter uma escadaria para o céu. Para apagá-las com um sopro”.

Na segunda novela, O Trabalho Sujo dos Outros, Erasmo Wagner, um gari, nos apresenta ao outro lado da riqueza e da vida contemporânea: quanto mais dinheiro temos, mais lixo produzimos. Vemos o quão perigoso e difícil pode ser o trabalho com o lixo, além de o mesmo tornar a Erasmo e seus colegas presenças invisível em meio a uma sociedade que não quer lidar com os seus restos, quer apenas se ver livre dele.

“Não importa sua cor, seu cheiro, seu paladar. Não importa o que pensa, deseja, planeja ou sinta. O que importa é que recolha o lixo, leve-o para bem longe e desapareça junto dele”.

Embora também bastante forte, sinto que nesta segunda novela existe um peso maior de tristeza e melancolia. A forma como Erasmo se refere à sua profissão, e até à sua própria vida, tem constantemente uma carga de decepção e arrependimento, como se existisse um outro homem ali, por baixo daquelas camadas duras que as suas vivências construíram. Conhecer Erasmo Wagner foi uma experiência tocante e transformadora.

“Gostam de narrar tiros e mortes por bandidos. Grandes fatalidades. Catástrofes. Escândalos. Mas o trabalho que exercem é bem mais perigoso, assim como é grande a frequência de acidentes. Mas um sujeito que vive do lixo, que está tão próximo dele, não soa importante”.

Com uma capa que parece simples, mas contém muitos elementos destas duas novelas, e uma diagramação muito agradável de ler, o projeto editorial ajuda bastante na imersão mais completa possível nessas duas narrativas tão poderosas. No início, confesso que fiquei reticente sobre a validade de reunir duas novelas em um livro só para fins de publicação, mas as duas histórias acabam tendo uma interseção muito interessante e fica claro, no final da leitura, porque faz sentido publicá-las desse modo.

É uma leitura que, no todo, surpreende, transforma nossa visão sobre nosso país, nosso povo e nossos reais problemas, assim como faz com que nos encantemos, primeiramente, pela escrita da Ana Paula Maia e, em um segundo momento, aguça nossa curiosidade pela literatura brasileira, tantas vezes desprezada e que tem aqui um momento bastante especial.

ENTRE RINHAS DE CACHORROS E PORCOS ABATIDOS

Autor: Ana Paula Maia

Editora: Record

Ano de publicação: 2009

Com dois romances publicados. a carioca Ana Paula Maia se firmou como uma das mais festejadas autoras da nova literatura brasileira e chamou a atenção de críticos e formadores de opinião ao publicar. em 2006. uma novela folhetinesca na Internet. em uma ação pioneira. Durante meses. os leitores acompanharam pela web os 12 capítulos de Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos. que chega agora às livrarias com novo final. É o primeiro livro publicado originalmente na Internet a ser lançado por uma grande editora. Com muito sangue. violência e boa literatura. Ana Paula Maia lança o olhar ao outro. com profundos traços de ousadia e peculiaridade. para esmiuçar o cotidiano de homens que lutam para sobreviver em meio à pobreza e a falta de esperança em uma vida melhor. Em silêncio. esses homens-bestas carregam seus fardos e os dos outros. Neste volume estão reunidas duas novelas. A primeira. que dá nome ao livro. é escrita em cinco capítulos e tem como cenário um subúrbio distante. sob um calor sufocante. onde apostar em rinhas de cachorros assassinos é o divertimento mais saudável para dois brutamontes que ganham a vida abatendo porcos e distribuindo-os em frigoríferos. Edgar Wilson e Gerson esperam o mínimo da vida. trabalham muito. cumprem sagradamente suas tarefas e nutrem um pelo outro uma amizade excepcional. O resto importa muito pouco. A segunda narrativa. O Trabalho Sujo dos Outros. em sete capítulos. conta a história de três homens que recolhem o lixo. quebram o asfalto e desentopem esgoto. Quando os coletores de lixo decidem fazer uma greve geral. a cidade começa a sucumbir e Erasmo Wagner inicia uma estranha jornada mística tendo um bode como condutor de um acerto de contas com o seu passado. O trabalho sujo dos outros chegou a ter quatro capítulos veiculados na Internet com outro título.

Escritora, mestre em Filosofia, mas, acima de tudo, apaixonada por livros. Carioca com preguiça de praia, gosta mesmo de uma tarde aconchegante na companhia de um livro e uma caneca de chá gigantesca.