Escola de Mulheres – Molière

Escola de Mulheres é uma peça teatral de Molière, apresentada originalmente em 1662, podendo ser lida na edição de 2007 da editora Paz e Terra.

Sobre o Livro

Paris, século XVII, vive Arnolfo, um quarentão machista que adotou uma garotinha de 4 anos para criá-la, ou moldá-la, do jeito que ele acha que uma esposa deve ser: burra, estúpida, ingênua; não podendo saber mais nada além de lhe amar, cozer e bordar. Tudo isso para evitar que não seja feito com ele o que ele faz ou adoraria fazer com o marido das mulheres bonitas e inteligentes: pôr-lhes um chifre.

“Passar a vida inteira pensando em não ser isso já é ser meio isso.”

Agarrado a esse temor de ser traído, ele cria a pequena Inês da forma mais simplória e isolada possível, para que a moça cresça sendo uma completa asna. Para Arnolfo, ela não precisava nem ser bonita, desde que fosse honesta. Mas jamais imaginara que o seu plano infalível de fazer a mulher perfeita para se casar fosse por água baixo mais rápido do que se poderia supor, e que a honestidade dela lhe causasse tanto desgosto. Criou sua futura tão isolada, tornando-a tão ignorante e ingênua, que em uma viagem longa de Arnolfo em que a moça não o acompanhou, acabou o traindo sem saber que aquilo era uma traição e que sequer aquilo era algo errado. E o ”coitado” de seu futuro prometido descobriu da forma mais cômica e inesperada possível.


Minha Opinião

Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido como Molière, é considerado um dos mestres da comédia satírica. Foi muito criticado por usar suas obras para criticar, de forma que mais ridiculariza, os costumes da época (por volta dos anos 40 a 70). Em Escola de Mulheres ele faz uma sátira crítica social ao domínio masculino sobre as mulheres e das façanhas femininas para driblar e até sobreviver a este poder e, dissimuladamente dar vazão as suas vontades e paixões. Molière traz a essa história o pensamento de que casamento e adultério são interdependentes em uma sociedade que mascara os jogos de poder através desse domínio que cria um ideal de mulher submissa e pouco informada. Quase como se a solução para os problemas do homem fossem o desconhecimento dos desejos femininos, quaisquer que sejam.

Eu poderia resumir minha resenha em uma única frase: este livro é genial e todos deveriam lê-lo. Mas, como não posso fazer isso, vamos de textão, porque embora o livro seja curtinho, é um tema que rende! Este foi o meu primeiro contato com Molière, e por saber de toda a sua fama já iniciei o livro com muita expectativa, afinal, um homem fazendo uma crítica a um homem machista é, no mínimo, muito intrigante! E para nós, mulheres, é muito bom ver um homem que está do mesmo lado da luta que nós. Principalmente quando esse homem é uma referência e, querendo ou não, tem certo poder de influenciar. E se essa influência for para o bem, que mal tem?

Aqui o dramaturgo nos traz um personagem completamente machista, alienado, ciumento e doente. Que embora não retrate ser o tipo de homem agressivo, só o seu jeito de ser e lidar com o casamento já caracteriza certa agressão. Para ele, a pior coisa que pode lhe acontecer é um dia ser corno. Atormentado por esse pensamento a sua vida inteira, ele dedica boa parte dela a criar uma menina, Inês, qual acredita que tornar-se-á sua esposa. E ele faz da vida dela uma escola, na qual ela vai aprender a ser a mulher perfeita para ele: burra, obediente e honesta.

Inês torna-se tudo que Arnolfo quisera, no entanto, por ele ter conseguido moldar a personalidade da jovem da forma como sempre desejou não significa que a vida tomaria o mesmo rumo que ele estava imaginando, afinal, certos acontecimentos são impremeditáveis. Sendo assim, o feitiço vira contra o feiticeiro e a burrice, obediência e honestidade da mulher tornam-se uma grande adaga fincada no coração de seu “dono”.

“Alguém pode negar que as chamas da paixão têm um efeito inacreditável sobre a ação humana?”

Foi muito bom ler uma história que me causasse tantos sentimentos, desde raiva, alegria e também, vingança. Convenhamos que ouvir um homem dizer que “as mulheres nasceram para ser dependentes dos homens, pois estes que possuem a onipotência, e que embora sejamos duas partes de um mesmo todo, não somos iguais, pois uma é suprema e a outra, subalterna” dá muito ódio, por outro lado, ver uma mulher que fora submetida ao isolamento para tornar-se a mais burra de todas, revelando-se tudo que seu “possuidor” sempre temera é incrivelmente delicioso. Na história não tem nenhum tipo de vingança agressiva por parte de Inês, a vida simplesmente acontece a seu favor e isso mais do que basta.

Essa edição da Paz e Terra está bastante bonita e compacta. Embora tenha 130 páginas é um livro curtinho para ser lido, sendo devorado aí em, no máximo, umas duas horas (ou menos). Essa fluidez se dá devido a 3 coisas: por conta de como a problemática é desenvolvida, por ter uma diagramação limpa, com letras e espaçamentos confortáveis, e por ser redigido mesmo em forma de peça, ou seja, a história é contada de forma dialogada, e isso nenhum pouco implica em fazer você imaginar a historinha. Outro ponto positivo de ler uma peça, é que por serem curtas a história se desenvolve muito rápido, não tem certas enrolações que muitas vezes são até desnecessárias.

“Você tem certeza que não foi eu quem escreveu este livro? Parece com algo que eu teria feito.”, disse Tim Burton certa vez para a obra de Ransom Riggs, O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares, onde mais tarde usou para basear o seu filme. O que eu quero dizer com isso, é que eu tive a mesma sensação quando terminei de ler Escola de Mulheres. Eu, por ser mulher, não escreveria diferente do que Molière escreveu. E ele, por ser um homem, conseguiu, genialmente, criar um homem desprezível, que tomou uma lição da forma menos agressiva possível, mas que seria capaz de matá-lo por desgosto.

“O mundo ri na proporção da gravidade com que se enfrenta a coisa.”

A personagem de Inês representa a mulher de uma forma grandiosa, de sabedoria instintiva e de amor puro, sendo assim, impossível estragar-lhe a sabedoria que até as mais ingenuas podem carregar. E isso torna a figura da mulher forte, por mais vulnerável que esteja. Relacionamentos abusivos existem em todas as direções para qual olhamos, infelizmente, mas da forma como é retratado aqui nessa história, da até um gosto de ler pela reviravolta que teve, porque além de tudo, ainda vemos o papel do abusador caindo em si de que está fazendo papel de ridículo.

Escola de Mulheres é um livro que deve ser lido por todos, definitivamente. Tanto pelo tema, quanto por ser uma peça, que acaba sendo um diferencial na bagagem literária. É uma história envolvente, que trata de um tema bastante forte, mas que é captado de forma leve, porém bastante ridícula, justamente para tirar um sarro das pessoas que estão nos papéis de abusadores, mas além de ser errado, horrível e muitas vezes ser crime tais abusos, ainda a maior punição para um homem é quando o próprio ego é atingido.

ESCOLA DE MULHERES

Autor: Molière

Editora: Paz e Terra

Ano de publicação: 2007

Trata de um solteirão, Arnolfo, que sempre fora o algoz dos maridos traídos de Paris. Aos quarenta anos, ele querendo casar-se, porém temendo ser traído, escolhe Inês, uma menina que criara desde os quatro anos de idade, precavendo-se para que lhe ensinassem somente o que pudesse torná-la o mais burra possível. Esta, contudo, apesar das precauções de Arnolfo apaixona-se por um rapaz, Horácio, que toma Arnolfo por amigo e lhe conta suas desventuras amorosas, sem saber que Arnolfo era quem trancafiava sua amada.

Apaixonada por livros desde que me entendo por gente, me infiltrei aqui no Resenhando Sonhos para poder falar dessa paixão desenfreadamente (sem ser julgada).