Fahrenheit 451 – Ray Bradbury

Fahrenheit 451 é uma distopia clássica de 1953, escrita por Ray Bradburry. Foi lançada pela Folha de São Paulo em 2016 em uma coleção de clássicos.

SOBRE O LIVRO

Em um futuro incerto, a sociedade vive em uma fase de total êxtase e oposição intelectual. Pensar por si próprio é visto com maus olhos e possuir ou ler livros é um ato imperdoável. As pessoas vivem constantemente alegres, tomando suas doses diárias de pílulas e o tempo todo assistindo programas nas telas grandes, que por vezes ocupam todas as paredes das suas casas. Nesse mundo distópico vive Guy Montag, um bombeiro que, assim como todos os bombeiros de sua época, são responsáveis por localizar bibliotecas, livros e estantes clandestinas e queimar todos eles.

Dia após dia Montag desempenha sua função com muita alegria e satisfação, mas um encontro ao acaso com sua vizinha, Clarisse McCLellan, começa a desperta nele um profundo sentimento de incômodo. Clarisse, uma jovem de 17 anos, fala das coisas com propriedade e sentimento, fala sobre a chuva e sobre o orvalho, sobre as estrelas e a Lua. Montag não se lembrava mais a última vez em que pensara sobre qualquer uma dessas coisas, e isso o perturbava.

“- Você lê alguma vez os livros que queima? Ele começou a rir: – Está proibido por lei!”

Tudo complica ainda mais após um acontecimento inusitado em sua carreira. Após atender à uma denúncia, ele e sua equipe vão até a casa de uma senhora e lá encontram milhares de livros escondidos. A mulher começa a recitar versos de vários autores, e, quando chega o momento de queimar o livros, ela se joga junto deles no fogo. Montag fica profundamente atordoado e começa a questionar o porque desse ódio aos livros, o que havia neles de tão perigoso para serem queimados e, principalmente, o que levaria uma mulher a se matar junto deles do que simplesmente deixá-los queimar?


MINHA OPINIÃO

O ano de 2012 foi, de certa forma, um marco para as narrativas distópicas: a chegada de Jogos Vorazes no cinema expôs o debate de sociedades ultra radicais, governos totalitários e culturas oprimidas. Mas esse reboliço todo também trouxe à tona clássicos do século XX, onde tais assuntos já eram debatidos, criticados e confrontados. Alguns desses livros que receberam holofote foram Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley),  1984 (George Orwell) e o livro desta resenha, Farenheit 451. A grande diferença destes livros clássicos para os distópicos atuais se dá, não apenas na estrutura da narrativa, mas também no motivo que levaram às sociedades a tal nível de opressão e controle. 

Ray Bradbury imaginou um mundo onde a leitura fosse algo criminoso, punível até mesmo com a morte. Idealizou uma sociedade privada de pensar por si própria, tudo em função da paz e alegria coletiva o tempo todo. Nesse universo, todo mundo abriu mão das formas que traziam tristeza ou melancolia e abraçaram de vez os programas de TV 24 horas passando por diversas telas espalhadas por todos os cantos, drogas de relaxamento e bem-estar e, principalmente, a mecanização do próprio ser humano. Ou seja, as pessoas viviam conforme a mídia mandava.

“Lançou de novo o olhar à parede. Como o rosto dela se parecia também com um espelho! Impossível. Pois quantas pessoas seriam capazes de refletir a luz de uma outra? As pessoas quase sempre eram – procurou uma comparação, encontrou-a em seu ofício – archotes, que ardiam até se extinguir.”

Nesta trama nos é apresentado o bombeiro Guy Montag, um bombeiro com a missão diária de investigar, encontrar e queimar qualquer livro, estante ou biblioteca clandestina. Não é preciso pensar muito: basta receber a denúncia, ir até o local, prender (ou realocar) a pessoa infratora e eliminar qualquer indício de que ali houve livros. Mas, diferente dos demais companheiros de profissão, Montag se vê incomodado ao tentar entender qual o real propósito do que faz. Ele não entende porque os livros se tornaram tão perigosos, e quanto mais tenta deixar esse pensamento de lado, mais se vê tendenciado a obter um livro e lê-lo. Ele anseia por descobrir o que há dentro das páginas, o que há nas palavras que causou tanto desconforto na sociedade. Montag imagina que, já que foram escritos em um passado não distante por outros homens e mulheres, deve ter sentimentos. Mas quais?

Os anseios do personagem se ampliam quando uma pergunta feita por sua vizinha, Clarisse, põem em xeque tudo o que ele acredita. A pergunta que ela faz é forte o suficiente para ele ver que há algo errado com ele, com a sociedade e com as pessoas em geral. Quem seria ele então, no meio de todo esse caos? Os bombeiros sempre queimaram livros? O que faziam antes? Esse é ponto crucial da narrativa de Bradbury, pois, ao invés de transformar o personagem em um herói e líder de uma grande revolução, ele trilha o personagem em um obscuro caminho entre o conhecimento e a angústia, uma jornada sombria e solitária em compreender e encontrar a verdade enquanto todo mundo não a vê. O personagem se torna mais crítico e até mesmo mais revoltado conforme vai desmembrando sua realidade, e por vezes, as respostas que encontram não são das melhores. Pelo contrário, ele começa a entender a razão de os livros terem sido proibidos. Nesse ponto, ele poderia simplesmente concordar com a sociedade e abolir a leitura, mas não o faz, pois mesmo que a leitura traga sentimentos desconfortantes, pela primeira vez em anos faz com que ele se sinta ele mesmo. Ele encontra sua própria identidade no meio daquela massa mecanizada e alienada pelos programas de TV.

“Ninguém mais presta atenção. Não posso falar com as paredes, porque elas estão gritando para mim. Não posso falar com a minha mulher; ela escuta as paredes. Eu só quero alguém para ouvir o que tenho a dizer. E talvez, se eu falar por tempo suficiente, minhas palavras façam sentido”

E é isso que faz o livro ser tão bom e crível, mesmo 65 anos depois de sua publicação original. O autor crítica, através do seu inconformado personagem, a influência e dominação das mídias de massa sobre as pessoas. Em um mundo cada vez mais tecnológico como  o nosso, mais e mais pessoas estão deixando a leitura de lado para se dedicar às telas, já que nelas a informação não precisa ser processada. Não há um grande esforço por parte do receptor. Assim, ler se torna algo antiquado, incômodo, e os que se dedicam à isso são muitas vezes visto como “diferentões”, “nerds” e outros termos em sentido depreciativo. A grande diferença entre uma mídia de massa e uma não de massa, como a literatura, é que na primeira os governos podem difundir suas mentiras e “domesticar” o pensamento da população. Já um livro, não só pode tornar a pessoa crítica ao que está lendo como também propensa a identificar as metáforas que representam o seu mundo real.

Claro que isso não torna as mídias totalmente vilãs; elas apenas facilitam o serviço sujo. O próprio autor comentou em entrevistas que seu objetivo não era criar ódio por elas, mas tornar as pessoas mais céticas ao que está sendo transmitido. Interessante também apontar que hoje em dia esses veículos tem feito críticas a si próprias. Filmes como o já mencionado Jogos Vorazes, O Show de Thruman (1999) e até mesmo o recente o seriado britânico Black Mirror despejam através da tela inúmeras metáforas e pontos negativos de uma sociedade subvertida pela massividade das informações. Isso é até mesmo apontado em alguns conceitos, como o das Sociedades Líquidas (Zygmunt Bauman), onde a vida humana e as estruturas sociais não tem tempo de ganhar forma, de se tornarem estáveis, pois é tudo muito fluido, rápido e fácil de ser obtido e absorvido.

“Não é de livros que você precisa, é de algumas coisas que antigamente estavam nos livros. […] Descubra essa coisa onde puder, nos velhos discos fonográficos, nos velhos filmes e nos velhos amigos; procure na natureza e procure em você mesmo.

Nesta edição que eu li, parte integrante da coleção de clássicos da Folha de São Paulo, há dois adendos. Um deles o autor narra um pouco mais sobre as ideias que deram vida à sua trama distópica, bem como alguns pequenos eventos reais que acabaram ajudando no desenvolvimento. Na segundo adendo, o autor se permite a apontar quem são os queimadores de livros da sociedade atual, e não apenas ligado ao ato literal. Também ele comenta que já recebeu diversas mensagens questionando seus personagens, pedindo para ele mudar para uma personagem feminina, não fazer determinadas criticas, etc. O livro também foi adaptado duas vezes para as telas, sendo a mais recente agora em 2018, pelo canal HBO.

Fiquei bem surpreso com a trama, não apenas pela abordagem da narrativa, mas também pela atualidade com que alguns dos temas são abordados. É bacana saber que mesmo sendo escrito nos anos 50, Ray Bradbury já tinha uma imaginação afrente do seu tempo e, que já via com grande realismo o que poderia acontecer nos anos seguintes.

 

FAHRENHEIT 451

Autor: Ray Bradbury

Editora: Folha de São Paulo

Ano de publicação: 2016

Queimar livros foi um recurso usado em tempos sombrios, como o da Santa Inquisição e o do nazismo, para eliminar ideias resistentes à crença sanitária no pensamento único. No mundo futuro concebido por Ray Bradbury (1920-2012) em Fahrenheit 451, ler tornou-se um ato subversivo e os que insistem em ter pequenas bibliotecas às escondidas podem virar cinzas junto com seus volumes. O devaneio, a poesia, a filosofia e a ficção foram extintos porque não se admite perder tempo com algo que, em vez de puro entretenimento, ofereça inquietação e angústia. Como toda ficção científica, essa distopia publicada em 1953 emite os sinais negativos da época em que foi escrita. Mas, se a redução das ideias ao binarismo, o desprezo ao intelectual, o fluxo de informações num nível inassimilável e a suspeita de qualquer sinal de melancolia já eram considerados fatores de risco em meados do século passado, nossa civilização anestésica fez do futurismo de Bradbury um gênero bem mais próximo do realismo.

É colaborador do Resenhando Sonhos.
Catarinense, Publicitário formado pela UNOESC, apaixonado por sci-fi, distopias e suspense policial. Fã de Arquivo X e Supernatural, sonha um dia encontrar os aliens.