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A Forma da Água (2018) | Crítica

Às vezes, em rotina de ver filmes e dissecá-los, buscar roteiros bem arquitetados, histórias complexas e desenvolvimentos bem amarrados, acabo me esquecendo do verdadeiro motivo de gostar tanto de ir ao cinema: pelo modo como me faz sentir. A Forma da Água me lembrou disso.

A trama é a seguinte: no início dos anos 60, Elisa (Sally Hawkins) é uma mulher que trabalha todas as madrugadas em um laboratório do governo americano como faxineira; certa noite, uma criatura aquática é trazida da América do Sul para ser estudada, e eventualmente Elisa se apaixona pelo monstro (Doug Jones) – é uma história de amor impossível. Ao lado dos melhores amigos – a colega de serviço Zelda (Octavia Spencer) e o vizinho Giles (Richard Jenkins) – e de um aliado inesperado – o cientista soviético Dimitri (Michael Stuhlbarg) -, Elisa tenta salvá-lo, ou resgatá-lo, ou amá-lo, ou por ele ser amada, ou tudo ao mesmo tempo. Michael Shannon vive o chefe de segurança do governo americano, Strickland, responsável por aprisionar a criatura e destruir os sonhos de Elisa.


A história foi criada, co-escrita, co-produzida e dirigida por Guillermo Del Toro, nome importante no cinema de horror e fantasia, responsável por Hellboy (2004), Círculo de Fogo (2013) e A Colina Escarlate (2015). Del Toro não apenas constrói uma narrativa e a ambienta perfeitamente nos anos 60, ele também consegue criar um mundo fantasioso nessa realidade. Algo que já havia feito com perfeição em O Labirinto do Fauno (2006), um de seus maiores sucessos de crítica e público.

Sally Hawkins entrega uma atuação mais do que brilhante – algo que esqueci de mencionar: sua personagem é muda – e certamente é o maior destaque nesse quesito dentro do filme. No entanto, Richard Jenkins e Michael Stuhlbarg conseguem entregar personagens coadjuvantes encantadores, cada um com seu momento de brilhar, e Octavia Spencer traz seu tradicional brilho para um dos núcleos mais doces do filme, interpretando a amiga fiel da protagonista. Shannon também faz um bom trabalho, construindo um vilão mais assustador que o monstro.

O filme tem sucesso ao trazer temas mais do que atuais no contexto de época: fala de amor, amizade, compaixão e coragem, mas também fala de machismo, racismo, homofobia, xenofobia e, é claro, encabeçado por uma personagem muda que luta diariamente para se sentir incluída em um mundo que se esforça para excluir.

Del Toro usa toa habilidade com o horror para mostrar quem é o verdadeiro vilão: o homem típico americano. Com sua família de comercial de margarina e seu patriotismo, Strickland é um cidadão comum que diminui Zelda por ser negra, assedia Elisa por ser uma mulher em posição subalterna no ambiente de trabalho e abusa de sua esposa nos momentos íntimos em casa. Enquanto isso, a criatura aquática é doce e delicada, apaixona-se por Elisa e protege seus amigos; a mulher negra e o homem gay solitário mostram o verdadeiro significado de amizade; e o espião soviético trai tanto seu país quanto os Estados Unidos por acreditar no que é certo. Essa inversão de mocinhos e vilões não é apenas um elemento da narrativa usado para contar o romance, mas uma forte afirmação de Del Toro sobre tópicos que são, mais do que nunca, pertinentes social e politicamente.

Mas mesmo trazendo estes temas à mesa, ainda não teríamos certeza de que daria certo – pelo contrário, ao tentar abordar tantos temas é de se esperar que a narrativa sofra e o filme fique bagunçado. A deliciosa surpresa é que funciona muito bem.

A Forma da Água te desafia a abrir seu coração, a sentir junto com os personagens e a viver essa aventura romântica junto com eles. Isso tudo funciona perfeitamente porque crescemos assistindo a filmes de aventura com enredos similares, crescemos assistindo jornadas mágicas e resgates em mundos de fantasia. É com essa “nostalgia” que Del Toro tem tanta intimidade, usando histórias fantásticas quase infantis para trazer mensagens sobre a realidade adulta – o filme, inclusive, fala de sexo de uma forma muito desconstruída, trazendo à cena como a característica intrínseca do ser humano que é.

Hoje, primeiro de fevereiro, faltam algumas semanas para a cerimônia dos Oscars de 2018. Ao longo destas, esperarei torcendo para que Guillermo Del Toro leve para casa a estatueta de Melhor Filme por A Forma da Água – na competição, há algumas obras-primas, mas este filme consegue se destacar. Para além de uma boa história, um romance emocionante, uma crítica social ou uma fantasia divertida (e não se engane, é tudo isso!), este filme consegue esticar a mão para fora da tela e tocar seu coração e te mostrar o que é ser humano. 

A FORMA DA ÁGUA

Diretor: Guillermo del Toro

Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins e mais

Ano de lançamento: 2018

Década de 60. Em meio aos grandes conflitos políticos e transformações sociais dos Estados Unidos da Guerra Fria, a muda Elisa (Sally Hawkins), zeladora em um laboratório experimental secreto do governo, se afeiçoa a uma criatura fantástica mantida presa e maltratada no local. Para executar um arriscado e apaixonado resgate ela recorre ao melhor amigo Giles (Richard Jenkins) e à colega de turno Zelda (Octavia Spencer).

Gaúcho porto-alegrense apaixonado por cinema, séries de televisão e gatos. Relações Públicas por formação; comunicador por natureza.