Fragmentado (2017) | Crítica

Fragmentado chegou aos cinemas em março pela mão de M. Night Shyamalan, aclamado pela crítica em seus primeiros trabalhos, mas que depois pareceu ter se desencontrado da forma certeira de dirigir. Ele foi responsável por O Sexto Sentido, Corpo Fechado e Depois da Terra.

No filme, o protagonista possui 23 personalidade e consegue alterná-las em seu corpo através do pensamento, mudando completamente sua forma de agir, se comportar e vestir. Um dia, uma dessas personalidade sequestra três adolescentes e as mantém presas, à espera de alguém que está por chegar. Enquanto teorizamos sobre quem é, e se é possível que uma 24ª personalidade imerja, as jovens passam a interagir e conhecer as diversas face desse homem, enquanto buscam formas de escapar.

Acho que é inegável o quanto o trabalho de James McAvoy está impecável. Há cenas em que através da mudança sutil de seu olhar somos capazes de descobrir que já não estamos mais lidando com o mesmo personagem. A atuação e o nível de dedicação do ator se mostrou presente durante todo o filme, na caracterização ajustada aos mínimos tiques que cada uma das personalidades possui, sempre afiadas nos movimentos de McAvoy. Eu não sou uma grande conhecedora de seu trabalho, mas fiquei bastante impressionada, pois algo que deve ter exigido imenso trabalho, parecia até fácil na forma como ele fazia as mudanças com naturalidade.

Anya Taylor-Joy, que interpreta Casey Cooke, também fez um bom trabalho aos meus olhos. Através da sua interpretação contida era possível ver que havia algo escondido ali, algo a mais. A contenção dos movimentos, a previsão das posturas, a desistência do confronto. Porém, o que acabou enfraquecendo a personagem pra mim foi o excesso de flashbacks para contar a sua história de “origem”. Somos retirados da trama principal diversas vezes para encontrarmos a personagem pequena, em momentos com o pai e um tio. Logo de cara já é possível ver que há algo errado e, o que poderia ter sido passado em dois flashbacks, foi estendido muito além do necessário.

Isso arrastou a narrativa e junto as cenas em que vemos ela e as outras meninas interagindo e tentando fugir me senti um pouco dispersa. Há também uma médica terapeuta que está fazendo um estudo específico dos casos de TDI (Transtorno Dissociativo de Identidade), mas que não é levada muito a sério. É ela quem mantém um elo com Kevin e parece também ser uma âncora. Essas foram as cenas em que mais fiquei atormentada. Pra mim, ele podia mudar a qualquer momento e confrontá-la, e mesmo assim ela tinha tanta confiança que o pressionava a cada nova sessão, aumentando o nível de tensão.

É somente no último e grande ato do filme que temos cenas mais fortes. Porém, quando o tal elemento apareceu, fiquei bastante inclinada a contestar tudo aquilo que a terapeuta e as características do transtorno até então tinham me apresentado como algo crível. Além de não ter sido uma grande apreciadora do final, o qual não entrarei em detalhes pra evitar spoilers indesejados.

Entendo que ali foi deixada uma porta para algo maior que está por vir e há uma surpresa ao fim ao vislumbrarmos um personagem inesperado, mas mesmo assim não me foi satisfatório junto com os demais elementos que desaceleraram o andamento da trama.

Quanto a direção, acho que o filme conseguiu passar bem várias sensações, principalmente quando a câmera trabalha em lugares fechados ou as cenas em que há uma certa “perseguição”. O espectador consegue ficar aflito e enclausurado junto com os personagens. Foi bom também ver certa inteligência nas jovens capturadas, principalmente em Casey Cooke, enquanto as outras adolescentes demoram bastante pra demonstrar alguma sensatez.

Fragmentado teve uma boa apresentação, depois caiu no marasmo e por último me apresentou um final que não satisfez toda a curiosidade ou ânsia por desfecho que eu senti vendo o filme se desenrolar. M. Night Shyamalan que tem seus baixos muito mais que altos, parece ter acertado bem mais aqui, mas ainda achei que o filme deixou a desejar em uma série de aspectos.

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FRAGMENTADO

Diretor:M. Night Shyamalan

Elenco: James McAvoy, Anya Taylor-Joy, Betty Buckleye mais

Ano de lançamento: 2017

Kevin (James McAvoy) possui 23 personalidades distintas e consegue alterná-las quimicamente em seu organismo apenas com a força do pensamento. Um dia, ele sequestra três adolescentes que encontra em um estacionamento. Vivendo em cativeiro, elas passam a conhecer as diferentes facetas de Kevin e precisam encontrar algum meio de escapar.

É a criadora e autora do Resenhando Sonhos.
Gaúcha do interior do Rio Grande do Sul, hoje mora na capital Porto Alegre e quer conhecer o mundo.
Publicitária por formação, sonhadora por opção. É mal humorada e chata.