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Jane Eyre – Charlotte Brontë

 

Jane Eyre é um livro da autora Charlotte Brontë. A edição lida foi publicada em 2018 pela editora Nova Fronteira.

Sobre o Livro

Jane Eyre é uma criança órfã, que vive com parentes que não hesitam em demonstrar o quanto ela não é bem-vinda ali e fazem de tudo para dificultar sua vida e transformar sua estadia na casa a mais dolorosa e insuportável possível. Ainda jovem ela é enviada para uma escola para meninas, o que acaba sendo, de certa forma, bom para todos. E é neste ambiente que Jane cresce e percebe que deseja muito mais da vida do que aquilo que conquistou até agora, do que tudo o que jamais pensou que poderia ser possível.

“Supõe-se que as mulheres são muito calmas em geral, mas elas sentem da mesma forma que os homens; precisam tanto de exercício para suas faculdades, e de um campo para seus esforços, quanto seus irmãos.”

Contrariando os costumes da época, Jane tem em si muito forte a vontade de trabalhar e vencer pelo próprio esforço. Ela é esforçada, inteligente e muito batalhadora e tem um sonho, e é para segui-lo que ela aceita o emprego como governanta em Thornfield Hall. Mas não é apenas a possibilidade de ganhar seu próprio sustento que ela encontra ali na mansão cheia de mistério. Jane se depara com uma paixão avassaladora pelo Sr. Edward Rochester, seu patrão.

A vida nunca deu à Jane nada de mão beijada. Portanto essa é a história de uma jovem que lutou contra todas as possibilidades e, a sua maneira, conseguiu vencer.


Minha Opinião

Quando lemos ‘Romances de Época’ uma das características sempre presente é que suas protagonistas sejam, cada uma a sua maneira, muito à frente de seu tempo. Ainda assim, nós, enquanto leitores do século XXI e lendo obras de autores contemporâneos (que se passam em períodos como Medieval, Renascentista, Elisabetano, Vitoriano e etc), ainda sentimos certo assombro com determinadas atitudes de personagens, ou acontecimentos que recheiam estes livros. Tendemos a analisar a obra, que se passa séculos antes do nosso, com um olhar muitas vezes impregnado da nossa própria modernidade. E geralmente julgamos uma história ‘antiga’ comparando-a com nossa experiência atual, o que de certa forma é normal, porém incorreto. Mas o que dizer de um livro que de fato nos apresenta uma protagonista à frente de seu tempo, pois teve sua história contada em 1847?

Nesse clássico de Charlotte Brontë nós de fato compreendemos o uso da expressão citada acima. A história de Jane Eyre é incomum e certamente revolucionária desde o primeiro instante. Aqui, através de uma narrativa em primeira pessoa, conhecemos a história de uma jovem órfã que deseja ser dona da própria vida. Contrariando os ditames da época, nos quais as mulheres tinham como propósito absoluto casar com um homem de bens, constituir família e fazer parte da sociedade abastada, Jane simplesmente se cansa de ser jogada à margem da vontade de todos. Nesta obra conhecemos uma personagem verdadeiramente feminista, que se opõe a desempenhar um papel preestabelecido por uma sociedade patriarcal e que luta contra as situações que a vida impõe utilizando as armas que possui: inteligência, resiliência e a certeza de que ela merece mais.

“Pensa que só porque sou pobre, obscura, sem atrativos e pequena, não tenho alma nem coração? Eu tenho tanta alma e tanto coração quanto você.”

Jane sofre desde o início do livro. Ela apanha, ouve insultos, é tratada como um ser insignificante e sem valor. Não tem ninguém com quem possa contar além dela mesma, não é bonita, não possui riqueza e não se interessa em galgar um lugar na sociedade através de matrimônio e todos esses pontos, tão humanos e abordados de maneira muito direta, torna o livro ainda mais incomum para a época de sua publicação.  Aqui a autora dificultou muito a vida de sua heroína, e fez isso de maneira tão brilhante que sentimos sim suas dores conforme a história avança, mas sentimos também todo o outro lado feminino que Eyre mostra tão abertamente: que ela tem um senso de humor interessante e que possui qualidades que nos inspiram inclusive nos dias de hoje.

E entre todo esse sofrimento, envolvido em uma teia mística bem misteriosa, vemos a possibilidade do romance com o Sr. Rochester surgir e começar a se fortalecer. Ele é quase vinte anos mais velho que ela, gerencia a mansão Thornfield Hall e é aquele tipo de personagem detestável, mas que aos poucos começa a mostrar que merece um voto de confiança. Os diálogos entre o casal são incríveis e uma das partes que mais gostei no livro, porque são cheios de força, coerência e ao mesmo tempo sensibilidade. Mas o Sr. Rochester é obscuro demais e esconde um segredo capaz de direcionar a trama por caminhos ainda mais tortuosos.

“E é pobreza de espírito dos seus privilegiados companheiros dizer que elas devem se limitar a fazer pudins, cerzir meias, tocar piano e bordar almofadas. Condená-las, ou ridicularizá-las se agem ou aprendem mais do que o preconceito permite ao seu sexo – constitui uma insensatez”

É por isso que não podemos esperar, a princípio, que haja a ideia fantasiosa de um rápido final feliz. Não vamos esquecer que Jane é principalmente uma personagem que sofre; mas que é justamente desse sofrimento que vai sublimando e retirando forças para se reerguer e seguir com a vida que planejou para si. Sempre questionadora, levando sua intuição muito à sério e transgredindo regras que considerava desnecessárias, a protagonista prova que não foi à toa que esse livro se tornou um clássico. Charlote da voz à Jane Eyre e essa por sua vez conta sua história de maneira muito íntima, como se estivesse apresentando sua autobiografia ao leitor. Com descrições de paisagens idílicas e sentimentos que não eram verbalizados nesse contexto histórico, através da trajetória de formação da protagonista até sua conclusão, este livro é ao mesmo tempo inquietante e encantador.  Posso dizer que quem lê esta história é transportado para uma época em que a liberdade feminina começou a ensaiar seus primeiros passos, o leitor sente o ônus e o bônus dessa descoberta, e no fim percebe que Charlotte Brontë provou que Jane Eyre foi a personagem perfeita para começar essa luta.

A edição que li, em tamanho maior e capa dura, está incrível e faz parte da Biblioteca Azul; um projeto da editora com a Amazon que tem como objetivo publicar clássicos que são indispensáveis aos leitores. Aliando isso à história incrível e à tradução do Sodré Viana – que derruba por terra a ideia de que clássico tem linguagem rebuscada e enfadonha – Jane Eyre é o tipo de livro que merece ser apreciado sem parcimônia. Sem moderação. E o quanto antes, melhor.

JANE EYRE

Autor: Charlotte Brontë

Tradução: Sodré Viana

Editora: Nova Fronteira

Ano de publicação: 2018

Considerado um dos maiores romances de língua inglesa, este livro acompanha o amadurecimento de Jane Eyre, uma personagem questionadora e carismática que deixou sua marca na literatura. Após tornar-se órfã e, ainda na infância, passar a viver na casa da tia enfrentando as mais difíceis privações, Jane fica anos em um internato, onde recebe educação e, posteriormente, um emprego. Contrariando o que se esperava de uma mulher na época, a protagonista busca novos desafios e se torna governanta de Miss Adèle, protegida de Mr. Rochester. Entre Jane e o novo patrão nasce uma paixão arrebatadora, obscurecida, no entanto, por um grave segredo que ele carrega. Publicado pela primeira vez em 1847, Jane Eyre é uma obra-prima de Charlotte Brontë, que abriu caminho para outras escritoras e revolucionou o fazer literário ao criar uma protagonista com anseios, reflexões e atitudes incomuns para seu próprio tempo.

Uma leitora frenética e inquieta, apaixonada por histórias fantásticas e com uma tendência a se deliciar com romances água com açúcar. Viciada em fotografias e gatos, é uma apreciadora das pequenas coisas e costuma ver beleza até onde não há.