Jurassic World: Reino Ameaçado (2018) | Crítica

Na moral? Nem é tão ruim. A franquia Jurassic Park tem um péssimo histórico com suas sequências – mesmo com uma mitologia interessante, os filmes tendem a pecar na qualidade dos roteiros, investir em ideias absurdas e criar personagens rasos demais. Ainda é o caso em Reino Ameaçado, mas é através dos olhos do diretor, J.A. Bayona, que os dinossauros da franquia Jurassic se salvam por um fio de se tornar os novos Transformers.

O primeiro Jurassic Park (o favorito absoluto de todos os amantes da franquia) falava de um parque de dinossauros em uma ilha remota, aberto ao público que quisesse conhecer os monstros pré-históricos que a genética conseguiu trazer de volta. Foi uma mistura sofisticada entre ficção científica e terror de monstro, em que Steven Spielberg entregou um de seus trabalhos mais brilhantes até hoje. A ficção científica se perdeu e os caminhos trilhados pela história se tornaram cada vez mais incoerentes, mas dessa vez parece que o brilho no olhar de quem assiste pela primeira vez a obra original pode retornar.

Reino Ameaçado se passa 25 anos depois, na mesma ilha. Um novo parque foi construído e destruído (pelos mesmos dinossauros) e, agora, um vulcão desperta e ameaça todas as formas de vida ali – ou seja, pode ser que os dinossauros sejam extintos novamente. Benjamin Lockwood (James Cromwell), o bilionário que ajudou a criar o parque lá em 1993, e seu braço-direito Eli Mills (Rafe Spall), o gestor de toda sua fortuna, contratam Claire e sua equipe de militantes pelos direitos dos animais para resgatar os dinos, enquanto Owen decide participar da missão com um único objetivo: salvar a velociraptor Blue, que ele viu nascer e ajudou a criar.

Nem preciso dizer que tudo dá errado, né? Depois de cerca de 5 minutos na ilha descobrimos que a missão na verdade só precisava de Owen para conseguir capturar Blue, e que todos os dinossauros “resgatados” na verdade serão vendidos em um leilão para as pessoas mais ricas do mundo. A parte ruim de uma empresa ter controle total sobre a engenharia genética que cria dezenas de animais em laboratório é que uma vez que quem controla a empresa resolve vendê-los como peças de decoração, ninguém pode impedi-los.

Metade do filme consiste na ação na ilha, a erupção do vulcão e a jornada de volta ao continente. Claire, Owen e os novatos Zia e Franklin (Daniella Piñeda e Justice Smith) são levados clandestinamente à mansão de Lockwood, onde o leilão acontecerá. A segunda metade do filme se apropria então de uma estética gótica, tornando-se um horror de mansão assombrada com um detalhe: os dinossauros são os fantasmas. É aí que as coisas ficam boas de verdade.

O diretor J.A. Bayona faz um trabalho espetacular de direção ao capturar quadros milimetricamente desenhados para o prazer visual. Sua parceria com o diretor de fotografia Óscar Faura, sucesso em O Impossível e no terror O Orfanato, novamente dá frutos, rendendo quadros belíssimos tanto na ilha em erupção quanto no terror na mansão.

A ideia de levar os dinossauros para uma nova ambientação teria sido uma loucura; muitas franquias enfrentam dificuldades de se reinventar em suas sequências justamente por não conseguir fazer uma boa transição de cenário, estilo e gênero. Apesar dos dinossauros acabarem sendo um obstáculo nessa reinvenção (podem criar várias espécies novas e melhorar os efeitos especiais, mas no fim são sempre os mesmos truques) e das artimanhas do roteiro para criar as situações desejadas serem cada vez mais inverossímeis, Bayona consegue trazer seu olhar aguçado para o terror clássico e inseri-lo com grandeza na história dos dinos; Reino Ameaçado acaba se tornando o Jurassic mais esteticamente admirável de todos os cinco.

Insisto que há muito mérito nesse quesito: as cenas de perseguição na mansão trazem uma criatividade e uma inspiração pouco vista nos outros episódios da franquia, e prestam homenagens delicadas e tocantes ao filme original. Bayona entrega sequências marcantes que põem os dinossauros como protagonistas, alterando a perspectiva de que eles são determinadamente os vilões – e ainda assim sem abdicar do perigo que representam.

As falhas esperadas ainda estão lá, o enredo ainda é preguiçoso e forçado e os personagens ainda são caricaturas de seus rascunhos, fazendo decisões absurdas e entregando diálogos pífios. Bryce Dallas Howard segue sendo sub-utilizada e colocada permanentemente em posição submissa a seu macho salvador, tendo uma ou duas cenas relevantes que sejam propriamente suas. Aliás, sua personagem Claire, que antes era uma workaholic egoísta que via dinossauros como produtos, agora é idealista e chefia um escritório de lobby a favor dos direitos desses animais – uma contradição que não entendi até agora. O enredo da nova personagem infantil, Maisie, também é confuso, uma vez que se conecta com os dinossauros de forma medonha e sem demais explicações, levantando perguntas enormes e depois fingindo que elas não estão lá (talvez isso seja criação de suspense para o próximo filme da franquia, mas mesmo assim é péssimo!).

O final do filme dá um novo sentido à expressão “reino ameaçado” e reforça mais do que nunca o dilema moral da existência de dinossauros no mundo contemporâneo. Eles devem viver? Onde? Como? Que direitos eles têm e como devemos garanti-los? O roteiro não responde muito disso, ocupando-se demais em levantar o debate e nunca opinar sobre. Enquanto Claire grita “não podemos deixá-los morrer!” depois de passar o filme todo quase sendo devorada, o personagem de Jeff Goldblum, Ian, faz um cameo em que entrega com muito carinho sua clássica fala “eles estavam aqui antes de nós, e se não tivermos cuidado, estarão aqui depois”.

A soma dos fatores acaba valendo a pena: desligue seu cérebro e finja que engole toda aquela bagunça no roteiro, porque os visuais, o suspense e os bons momentos vão compensar por tudo. Faltam performances brilhantes, falta uma trilha sonora menos didática e mais coerente, falta lógica, falta um universo em que podemos acreditar e que tenhamos vontade de investir – mas a diversão ainda está lá.

Como falei no início, os Jurassic ainda não são os novos Transformers, porque enquanto a qualidade de roteiro segue caindo de forma exponencial, a qualidade estética cresce proporcionalmente. E já que é meio impossível de impedir que façam mais trocentos filmes desses, é mais fácil aceitá-los e aproveitar o que eles têm de bom.

JURASSIC WORLD: REINO AMEAÇADO

Diretor: J.A. Bayona

Elenco: Bryce Dallas Howard, Chris Pratt, Rafe Spall e mais.

Ano de lançamento: 2018

Devemos salvar os dinossauros ou deixá-los serem extintos de novo? Frente à erupção do vulcão da Ilha Nuclar, Claire (Howard) e Owen (Pratt) voltam ao parque com o objetivo de resgatar os animais sobreviventes – apenas para descobrir que a missão é parte de um plano para vender os monstros jurássicos em um leilão milionário.

Gaúcho porto-alegrense apaixonado por cinema, séries de televisão e gatos. Relações Públicas por formação; comunicador por natureza.