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Kindred: Laços de Sangue – Octavia E. Butler

Kindred: Laços de Sangue é uma ficção científica da autora Octavia E. Butler, lançado em 2017 pela editora Morro Branco.

Sobre o Livro

Dana está de mudança com seu marido Kevim para um novo apartamento. Depois de se conhecerem em um emprego temporário, ambos se apaixonaram por compartilharem várias paixões, entre elas, a escrita. Porém, enquanto organizam as coisas, algo muito estranho acontece, e ao sentir uma vertigem, Dana se vê de frente a um lago com uma mulher gritando e um garotinho se afogando. Após o resgate e de ficar frente a frente com o pai do menino, ela retorna ao seu apartamento, onde se passaram apenas alguns segundos.

O episódio volta a se repetir e a mulher não sabe como controlar, apenas percebe que o fator motivacional é Rufus estar em perigo para que ela volte no tempo, em meados de 1800, em Maryland, nos Estado Unidos. Entretanto, esse é um período escravista e Dana é negra, estando assim sua vida, liberdade e integridade física em perigo o tempo todo em que está fora do seu lugar no tempo de origem.

“Não sabia que as pessoas podiam ser condicionadas com tanta facilidade a aceitar a escravidão.


Conectada através dos anos com esse garoto, ela percebe que há um laço de linhagem que os une, mas também reluta ao não compreender a situção ou o propósito de suas idas e vindas. O que ela sabe é que terá de ser muito esperta ao viver em um momento em que sua vida vale muito pouco e pode pertencer a qualquer pessoa.


Minha Opinião

Quando eu comecei a ler Kindred não sabia que a história iria se passar durante um período tão delicado, e logo ao adentrar a trama percebi o porque de ela ter o peso que tem. A escravidão existiu em muitos lugares do mundo, no Brasil inclusive, e marcou uma era pela desumanidade e brutalidade com que as pessoas eram tratadas. Ao ser levada a esse ponto da história, sendo negra, não é difícil perceber o quão relevante serão todos os questionamentos que saem desse livro.

E é extremamente triste, incomodo e até nauseante ver a descrição das cenas de açoite ou punição que os escravos sofriam. “Assistir” isso através das páginas faz com que sintamos uma impotência gigantesca, é como se ao ler sobre a privação da liberdade, todos nós perdessemos a voz, independente do tempo em que estamos. E essa é uma das morais do livro pra mim, perceber o quanto a liberdade é algo importante e frágil, algo que pode nos ser tirado tão facilmente que assusta.

Dana tem 26 anos e é uma mulher inteligente e trabalhadora, tornando a narrativa madura e adulta. O fato é compensado pela juventude de Rufus, que vai crescendo conforme as idas e vindas acontecem. Mas, acho que o principal pra mim aqui foi ver que ele, mesmo mais velho, tinha o comportamento e ações de uma criança birrenta, talvez não porque eles fossem em literalidade, mas porque a mente arcaica era, ao nosso ver hoje, uma constante de absurdos. As defesas de porque uma mulher negra pode ser estuprada, forçada a “amar”, casar, reproduzir, só porque alguém era seu dono. A falta total de poder sobre os mesmos filhos que saiam disso, a serem vendidos a qualquer momento também como escravos.

“(…) Talvez você tenha razão – disse. – Espero que tenha. Talvez eu seja só uma vítima de roubo, estupro ou algo assim… Uma vítima que sobrevive, mas não se sente mais segura. – Dei de ombros. – Não sei explicar o que aconteceu comigo, mas não me sinto mais segura.”

Aliás, que coisa horrível saber que está pondo uma criança no mundo pra já nascer privado de algo tão valioso como livre arbítrio. E isso tudo era defendido, justificado com a imposição de que o negro era inferior, ignorante e um objeto a ser passado de mão em mão se já não servisse mais. E, como eu recentemente li O ódio que você semeia, livro que trabalha a realidade negra mais atual, os questionamentos iam se misturando, aumentando e eu ia ficando cada vez mais aflita com tudo. Eu sempre acho que um livro tem valor e poder quando faz isso, quando é capaz de tumultuar emoções e fazer com que repensemos nossas atitudes e visões de mundo.

Outra coisa que se destaca é a visão dos próprios negros sob a situação, de como entre eles haviam disputas, pré conceitos e julgamentos. Aqueles que eram mais dóceis eram considerados submissos e renegados. Assim como a presença constante da ânsia por fugir e, após, as consequências da captura.

E, além dos questionamento explícitos da narrativa, a edição conta com uma sessão no final onde disponibiliza outras várias opções para debate em grupo ou apenas para o leitor refletir e intensificar a experiência de leitura. Sendo a primeira e principal delas uma que permeou a minha leitura: qual era o motivo de Dana viajar no tempo? Se ela estava ali é porque sua linhagem havia existido, logo, qual era sua missão? E, certamente não só a personagem tirou tantas coisas dessa situação imprevisível em que foi colocada, como nós leitores, pois é impossível sair incólume dessa leitura.

Kindred: Laços de Sangue é uma ficção científica publicada em 1979, mas que se mantém viva e atual. De um período histórico que o mundo deveria se envergonhar, de uma lembrança de dias injustos e brutais. Me perguntei diversas vezes também o porquê de o título ter demorado tanto tempo para se lançado por aqui, um país com mais da metade da população identificada como negra ou parda. Pode não se passar aqui, mas bem que poderia.

“Então, por algum motivo, me distraí com um dos livros de Kevin sobre a Segunda Guerra Mundial – um livro com memórias de sobreviventes de campos de concentração. Histórias de surras, fome, sujeira, doença, tortura e todo tipo de degradação. Como se os alemães tentassem fazer em apenas um ano o que os americanos praticaram por quase duzentos anos.”

A edição da Morro Branco está muito bonita e pode ser encontrada tanto em capa dura quanto brochura, em uma solicitação da autora de sempre tentar fazer com que suas histórias cheguem a todos os tipos de pessoa. A editora também anunciou que outro livro de Butler chega em 2018, e em breve deveremos ter A Parábola do Semeador em mãos.

Kindred é uma leitura mais do que recomendada a todo leitor. É uma realidade forte e que não deve ser esquecida, trabalhada em formato ficcional de viagem no tempo, mas que transpõe seu peso e valor em uma escrita simples, fluída e cheia de significado.

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KINDRED: LAÇOS DE SANGUE

Autor: Octavia Butler

Editora: Morro Branco

Ano de publicação: 2017

Em seu vigésimo sexto aniversário, Dana e seu marido estão de mudança para um novo apartamento. Em meio a pilhas de livros e caixas abertas, ela começa a se sentir tonta e cai de joelhos, nauseada. Então, o mundo se despedaça. Dana repentinamente se encontra à beira de uma floresta, próxima a um rio. Uma criança está se afogando e ela corre para salvá-la. Mas, assim que arrasta o menino para fora da água, vê-se diante do cano de uma antiga espingarda. Em um piscar de olhos, ela está de volta a seu novo apartamento, completamente encharcada. É a experiência mais aterrorizante de sua vida… até acontecer de novo. E de novo. Quanto mais tempo passa no século XIX, numa Maryland pré-Guerra Civil – um lugar perigoso para uma mulher negra –, mais consciente Dana fica de que sua vida pode acabar antes mesmo de ter começado.

É a criadora e autora do Resenhando Sonhos.
Gaúcha do interior do Rio Grande do Sul, hoje mora na capital Porto Alegre e quer conhecer o mundo.
Publicitária por formação, sonhadora por opção. É mal humorada e chata.