Lady Bird: A Hora de Voar (2018) | Crítica

Lady Bird é exatamente o que você esperaria de um filme que quebrou o recorde de produção com maior escore no Rotten Tomatoes – brilhantes 100%, depois superados por Paddington 2. É envolvente, engraçado, profundo e emocionante. Ele conta a simples história de uma adolescente rebelde vivendo o seu último ano de ensino médio no interior da Califórnia. Você vai chorar. E logo de início, já recomendo: leve sua mãe para assistir com você.

Não aprovo rotular Lady Bird como sendo sobre a relação da protagonista com a sua mãe, mas é inevitável citar que a maior carga emocional do filme reside na dinâmica das duas. Laurie Metcalf merece cada indicação que recebeu pelo papel, desconstruindo os estereótipos de figuras maternas e reformulando-os numa atuação orgânica e muito profunda – e, o melhor de tudo, muito real. Recomendo assistir com sua mãe justamente pela grande probabilidade de surgirem identificações, emoções e lágrimas.

Mas vamos à características técnicas: o filme é dirigido e escrito por Greta Gerwig (com maestria! Meu Deus, admiro demais essa mulher!) – que protagonizou Frances Ha (2012) e protagonizou e escreveu Mistress America (2015). O papel principal fica por conta da sempre brilhante Saoirse Ronan (Brooklyn, O Grande Hotel Budapeste), que torna a adolescência de Lady Bird mais palpável e real do que qualquer outra comédia que eu tenha visto. Ela e Metcalf brilham nas cenas entre mãe e filha, mas o restante do elenco também entrega atuações firmes e tocantes.

Tracy Letts tem boas cenas como o pai de Lady Bird; Beanie Feldstein interpreta a melhor amiga; Lucas Hedges é o interesse amoroso que se desenvolve da forma mais fofa possível; e até Timothée Chalamet – indicado a Melhor Ator por Me Chame Pelo Seu Nome – dá as caras em um papel tragicamente cômico. Cada um desempenha sua parte na jornada de Lady Bird ao longo de seu ano de formatura e, consequentemente, constroem quem ela será depois do final da sessão.

O filme aborda temas profundos com muita ternura – acho que é esse o adjetivo que eu usaria para descrever Lady Bird: terno -, de forma doce e delicada. Não há grande reviravolta ou um drama pesado para conduzir a trama, mas basta assistir a alguns minutos para compreender como um ano da vida de Lady Bird é, por si só, digno de filme. A forma com a qual Greta constrói a história e os personagens, balançando humor com drama e pesando bem cada palavra do roteiro é o maior diferencial aqui: nunca um filme de adolescentes falou tanto comigo.

É evidente que o filme foi escrito e dirigido por mulheres (no caso, a mesma mulher), por tratar suas personagens de uma forma mais real (menos arquitetada para o olhar masculino, tradicional nos filmes de adolescentes) e pelas quebras de paradigmas, como nos enredos de Julie, a melhor amiga gordinha de Lady Bird, e de Shelly, a menina popular da escola que não é tão Regina George quanto se imagina.

Greta Gerwig já havia mostrado que era uma brilhante atriz e escritora em outros trabalhos; ao sentar-se na cadeira de diretora, se mostra tão ou mais apta ao cargo.

Afirmo com tranquilidade que é impossível não se emocionar com Lady Bird. Seja pelo seu amadurecimento amoroso, pelas suas amizades, pelos seus desafios financeiros, pela estrutura familiar ou pela relação com a mãe – de alguma forma você vai se identificar com algum dos personagens. E Greta Gerwig vai acertá-lo com um golpe no coração. Bom filme.

LADY BIRD: A HORA DE VOAR

Diretor: Greta Gerwig

Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts e mais

Ano de lançamento: 2018

Christine McPherson (Saoirse Ronan) está no último ano do ensino médio e o que mais deseja é ir fazer faculdade longe de Sacramento, Califórnia, ideia firmemente rejeitada por sua mãe (Laurie Metcalf). Lady Bird, como a garota de forte personalidade exige ser chamada, não se dá por vencida e leva o plano de ir embora adiante mesmo assim. Enquanto sua hora não chega, no entanto, ela se divide entre as obrigações estudantis no colégio católico, o primeiro namoro, típicos rituais de passagem para a vida adulta e inúmeros desentendimentos com a progenitora.

Gaúcho porto-alegrense apaixonado por cinema, séries de televisão e gatos. Relações Públicas por formação; comunicador por natureza.

  • Camila Rezende

    Olá Allan,
    Eu li várias críticas positivas sobre esse filme e fiquei com vontade de assistir, mas não no cinema.
    Esse filme não é o tipo que eu vou ver no cinema.
    Pelo trailer eu achava que o filme era focado na história de mãe e filha,mas pela sua resenha não é o que acontece

  • Patrini Viero Ferreira

    Já li várias críticas sobre o filme, e todas elas foram positivas de alguma forma. Confesso que a tua foi tão bonita que me deixou ainda mais curiosa pra ver o filme logo. Eu adoro a atriz protagonista e acho que ela sempre encarna bem os personagens que se propõem a construir. Achei o máximo a importância dada a figura feminina, tanto dentro do enredo do filme quanto por trás dele, em sua produção. Essa valorização é sempre bem-vinda, e gera resultados avassaladores, como esse. Filmes de adolescente em geral fazem com que eu me identifique de alguma maneira, mas tenho a impressão que, por conta da quebra de estereótipos que realizar, esse em especial vai me levar à identificação e às lágrimas com ainda mais facilidade!

  • Natália Costa

    Oi Allan! Adorei a sinopse do filme, mas vendo o trailer amei ainda mais!
    Acho que dá pra gente sentir o que você quis dizer com ser um filme escrito e dirigido por mulher.
    Muito legal sua resenha mostrar que há mais além da relação entre mãe e filha apenas. Valeu pela indicação!!!

  • Pamela Liu

    Oi Allan.
    Eu vi o trailer do filme, mas não tinha me interessado. Mas, depois de ler a sua crítica sobre o filme, fiquei bem curiosa.
    Adorei saber que o filme foi escrito e dirigido por mulher, pela mesma mulher. É ótimo ver filmes sobre outros pontos de vista, menos estereotipado.
    Beijos