A lenda do homem feminista

dado

Esse é um papo delicado, é a primeira frase que me vem a cabeça, não há dúvida. Pois não busco delimitar com exatidão regras, mas valsar por entre uma fronteira perigosa e cheia de nuances que nem sempre são fáceis de engolir, ou mesmo entender. Mas, se não fosse a petulância, o que seríamos, não?
Eu queria falar sobre uma lenda urbana atual, que achou espaço junto a tantos outros elementos do folclore urbano. Junto da Loira do Banheiro ou o homem do saco, está a figura do homem feminista. E por mais que eu queira tratar como folclore, tenho de assumir que cada vez mais essa lenda vem se reproduzindo, e aparecendo na vida, nas mesas de cerveja e principalmente na mídia. Que o diga a declaração orgulhosa de um dos mais em voga, Dado Dolabella.

Esse cara é um grande exemplo dessa lenda urbana, o mito que o homem é capaz de acessar o meio feminista, e não somente isso. Que tem o poder de o transformar, participar e magnanimamente, dar a sua aprovação.

Ora, só nesta frase já dá pra notar o quão ridículo e incoerente é um homem que se declara feminista. Deixamos claro, o feminismo é um movimento social advindo das mulheres que busca quebrar o padrão de opressão nos mais diversos níveis: social, judicial, comportamental, sexual, mercado de trabalho e etc.

Aí entra a incoerência. Se o homem se declara feminista, ele declara também que acessa toda a opressão que as mulheres nascem vivendo. E não nos enganemos né? Isso não existe.

Não existe homem que corre o risco de ser estuprado ao entrar em determinada rua. Não existe o problema de ter que pensar muito bem se você pode ou não beber pra mais naquela festa, pois você corre iminente risco físico! Levante a mão um homem que passou a vida inteira sendo julgado pelo formato do corpo, pelo comportamento, e sendo oprimido da expressão por regras que não respeitam os seus desejos?

Um homem feminista é lenda por esses motivos, não existe. E quem se diz ser, demonstra no mínimo a ignorância de não entender a importância do movimento. Nem a necessidade de ele ser levado a sério.

E quem sou eu pra dizer isso? Tudo isso que falei aqui não passa de “mansplaining” correto? Eu, homem, que fui desde sempre privilegiado não tenho nada a dizer sobre o feminismo.

Exatamente, eu não tenho o direito de meter o meu bedelho na causa única e exclusiva das mulheres.
Bom, mas se eu não sou um otário, nem acredito que sou uma lenda urbana, como posso ajudar o movimento? É fácil, sabe aquelas piadinhas machistas na rodinha de cerveja? Ou aquele papo que diminui as mulheres a pedaços de carne no churrasco com os amigos? Esse é o momento que o homem deve lutar contra o machismo. No foco do problema. Pois de nada adianta admirar o movimento e na rodinha de amigos se fazer de surdo a machismo velado, não é?

Deixamos o feminismo, por mérito, às mulheres. Tranquemos as fábulas aos livros de fantasia. E usemos as armas que correspondem a cada um de nós para lutar contra a opressão.

Talvez assim faremos com que qualquer desigualdade também vire lenda.

 

É colaborador – intruso – do Resenhando Sonhos.
Formado em publicidade e propaganda, especialista e mestrando em artes visuais, aprendiz de feiticeiro, astrólogo, cozinheiro e da casa Grifinória.