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Léxico Familiar – Natalia Guinzburg

Léxico Familiar é uma das obras de não ficção da escritora Natalia Guinzburg, e foi publicado em uma nova edição no Brasil pela editora Companhia das letras.

SOBRE O LIVRO

Publicado em 1963, este é um relato sobre a vida cotidiana de uma tradicional família judia da burguesia na Itália, mais precisamente em Turim.  Na primeira metade do século XX o país da escritora era mais um da Europa humanista e incentivadora das artes a sofrer com o avanço dos regimes fascistas e a criação de leis raciais que tornou milhares de cidadãos apátridas sendo obrigados a deixar para trás uma vida junto de seus familiares, ou ainda, por muitas vezes vendo sua família ser destroçada pela guerra que se seguiu.

“Neste livro, lugares, fatos e pessoas são reais. Não inventei nada.”

Sob a perspectiva de um mundo prestes a desabar, o livro se desenrola à partir do ponto de vista da autora que também é quem nos narra os fatos de sua própria vida na casa onde cresceu com seus pais e irmãos. Trata-se da história de uma família real, mas que deve ser lido como um romance.

Começando por uma semana de férias nas famosas montanhas que o patriarca da família proporcionava, as cenas são comuns: um jantar, uma roda em volta da lareira com a mãe contando casos e os resmungos frequentes do pai sempre tão impaciente. É assim que seremos aos poucos levados, por debates exaltados, a nos sentir parte desta família.


MINHA OPINIÃO

É impressionante como a arte de contar “causos”, por mais tristes ou reais que sejam é sentida tão intensamente pelo leitor nessa obra. O que a autora proporciona aqui é que sejamos parte de sua família, escrevendo em forma de romance fatos cotidianos que, não fosse pelo período em que se passam, todos poderiam se identificar.  A doçura de uma mãe, a aspereza de um pai e as diferenças entre irmãos são a cereja do bolo deste livro onde o regime fascista afasta famílias, amigos e amantes. Cada “personagem” desta história colabora em algum momento para que a narrativa flua e encante o leitor cada vez mais.

A história nos é contada como se já a tivéssemos ouvido antes ,mas estivéssemos sendo carregados pela alegria de ouvi-la novamente. Sendo extremamente original por ter sido parte de uma experiência, é sem dúvida fascinante. Acredito que, por este motivo, apesar de ser escrito como se contado verbalmente, não trazendo divisão em capítulos, a leitura transcorra tão facilmente, sendo um pouco difícil, no entanto, parar em uma página e  voltar a lê-lo, perdendo o fio da meada. Este é um livro para ser devorado.

Um dos personagens mais interessantes é o patriarca da família, aquele que chama aos filhos de “negros” ou diz que fazem “negrices” quando se comportam de forma deselegante, ou de “burro” se lhe fazem algo que seja considerado tolo ou inapropriado. O que quero dizer com este exemplo é que é preciso entender que algumas coisas são ditas em sentidos diferentes daqueles que aparentam, outras não passam de uma “parvoíce” do próprio ser que é, e outras não devem ser levadas tão a sério, mas sim, olhadas sob uma outra perspectiva.

Sendo este o relato sobre uma família de judeus, é claro que iremos nos deparar com a representação do que foi o regime fascista na Itália, como os nazistas chegaram e separaram famílias e a autora viu seu pai e dois de seus irmão serem presos, seu marido desaparecer e muitos daqueles com quem cresceu serem dizimados. No entanto, o propósito aqui não é contar a história da guerra, mas sim, contar a história de uma família, uma história que coube a uma de seus integrantes, levar a frente.

“É sempre melhor um governo de padres do que o fascismo – dizia minha mãe. – Dá no mesmo! Você não entende que dá no mesmo! É a mesma coisa! – dizia meu pai”

Apesar de todo o horror que a guerra causou, uma das passagens mais interessantes é a que diz que ao seu fim, uma sensação de embriaguez surgiu, um período de calmaria e tédio, onde já não se tinha mais do que se esconder ou pra onde fugir. É curioso pensar como essas pessoas, pessoas que vivenciaram este período se sentiram antes, durante e depois da guerra.

Posso dizer por fim, que esta é uma experiência fantástica e deliciosa de se viver. Imagine-se sentado em uma varanda com alguém já idoso lhe contando suas histórias enquanto você bebe um chá quente e mordisca um lanche. “Léxico Familiar” entrou para os livros favoritos da minha lista, simplesmente por ser tão pessoal, tão puro, tão distante de preocupações em agradar ou desagradar ao leitor, mas em contar tudo como de fato aconteceu. Seria uma enorme “parvoíce” não se proporcionar tal experiência.

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LÉXICO FAMILIAR

Autor: Natalia Guinzburg

Editora: Companhia das letras

Ano de publicação: 2018

“Neste livro, lugares, fatos e pessoas são reais. Não inventei nada”, escreve Natalia Ginzburg sobre sua obra mais célebre, Léxico familiar, de 1963. Nos anos 1930, como consequência da criação de leis raciais na Europa, inúmeras famílias foram obrigadas a deixar seu lar, tornando-se apátridas ou sendo literalmente destroçadas pela guerra que se seguiu. É nesse cenário que se inscrevem as memórias de Ginzburg. Nelas, o vocabulário afetivo de um clã de judeus antifascistas se contrapõe a um mundo sombrio, atravessado pelo autoritarismo. Trata-se de uma história de resistência, narrada em tom menor, e, sobretudo, da gênese de uma das escritoras mais poderosas do nosso tempo.

É resenhista do Resenhando Sonhos.
Estudante de Direito, 21 anos, mineira, mora em Belo Horizonte e ama o universo literário.