Manchester à Beira-Mar (2017) | Crítica

Ganhador do Oscar 2017 nas categorias de Melhor Roteiro Original e Melhor Ator Principal, o filme teve outras quatro indicações no prêmio. 

Dirigido e escrito por Kenneth Lonergan, “Manchester à Beira-Mar” é um estudo de personagem que tematiza o luto e o sofrimento em uma história de drama familiar com nuances trágicas. Levado com simplicidade e sem experimentalismos em seus aspectos técnicos, a força da obra encontra-se em seu roteiro, de qualidade dramatúrgica impressionante, e em suas atuações – não à toa os pontos mais elogiados e vencedores de premiações ao redor do mundo. Produzido, entre outros, por Matt Damon, o filme é estrelado por Casey Affleck, Kyle Chandler, Lucas Hedges e Michelle Williams.

A peça cinematográfica retrata os conflitos vividos por Lee Chandler (Casey Affleck), que retorna a sua cidade natal por conta do falecimento de seu irmão Joe (Kyle Chandler), forçando-o a confrontar-se com seu sofrido passado e a superar as novas adversidades advindas do óbito. O roteirista-diretor Kenneth Lonergan, também escritor de teatro, e por isso seu bom feeling dramatúrgico, tensiona o roteiro na atenção aos detalhes e ao cotidiano, fazendo constante uso das rememorações de Lee. Concedendo uma grande riqueza psicológica para o papel principal e para seus coadjuvantes, a grande sacada do roteiro é a forma como ele conta muito com muito pouco – uma imagem, uma ação, um olhar ou uma frase muitas vezes bastam para a entrega das emoções e avanço das ações com delicadeza.

Casey Affleck, envolvido recentemente em processos de abuso e assédio contra mulheres contratadas por ele para a gravação do documentário “Eu ainda estou aqui” (2010), é o destaque da obra. Matt Damon, ao receber o roteiro para a produção, escalou Casey porque este “era perfeito para o papel” e são notáveis os casos de grandes atuações em filmes cujo os atores tem semelhanças psicológicas com as ficções as quais eles dão vida. Por exemplo, George C. Scott em “Patton” ou Peter Sellers em “Muito além do Jardim”.

No caso de Casey, que vive um Lee de contenção emocional abissal e desamparo existencial intenso, é difícil imaginar que ele não compartilhe algumas das instabilidades, culpas e depressões envolvidas com seu papel, dado que são sabidos seus atos abusivos mencionados anteriormente de forma breve, os quais incluíram falas machistas, atos intimidatórios e assédios sexuais, entre outros. Nada, de maneira nenhuma, justificável. Faço a comparação porque não imagino tais ações vindo de um indivíduo psicologicamente estável, e Casey pode ter usado sua subjetividade problemática para a construção de um personagem igualmente taciturno e obtuso. Não há aqui perdão para suas ações abusivas, apenas ressalto semelhanças entre o ator e sua ficção, a dimensão trágica da arte que imita a vida e as vítimas de Casey que se interseccionam entre o drama e a realidade.

(o trailer faz o filme parecer pertencer à sessão da tarde, mas não o tomem como referência, assim o é para propósitos comerciais, imagino)

Passando-se no litoral do nordeste estadunidense, entre as cidades adjacentes a Boston, os sets e as imagens misturam o mar, o frio, a neve e o visual das cidades. Utilizando-se de cores pouco saturadas, isto é, mais acinzentadas e não destacadas, a obra preocupa-se com um retrato realista, sem maiores construções. Utilizando-se de músicas clássicas para a trilha sonora, tal opção casa muito bem com os momentos das cenas, reforçando, quando necessário, o sublime, o melancólico ou o medidativo (por exemplo, ondas que se movem em volta de um barco no mar). Em uma direção sóbria, Kenneth põe sua câmera parada e parece apenas assistir e acompanhar suas personagens em seus detalhes e momentos de importância emocional, o que traz consigo uma edição eficiente que privilegia os atores e suas reações.

“Manchester à Beira-Mar” é um filme que trata de lutos eternos e das amargas raízes que tragédias e acontecimentos podem deixar nos seres humanos ao longo do tempo. Conforme vamos vivendo, a vida nos deixa marcas, e o sofrimento é inevitável – são o sofrimento e a morte as únicas certezas da existência. A felicidade, porém, é somente condicional, e quando somos agraciados com ela, é efêmera. Contudo, se o sofrer e a mortalidade serão presenças constantes em nossas vidas, é de se ressaltar que as obras de arte que as abordam com realismo, crueza e sinceridade não podem deixar de serem grandiosas.

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MANCHESTER À BEIRA-MAR

Diretor:Kenneth Lonergan

Elenco: Casey Affleck, Kyle Chandler, Lucas Hedges e mais

Ano de lançamento: 2017

Lee Chandler é forçado a retornar para sua cidade natal com o objetivo de tomar conta de seu sobrinho adolescente após o pai do rapaz, seu irmão, falecer precocemente. Este retorno ficará ainda mais complicado quando Lee precisar enfrentar as razões que o fizeram ir embora e deixar sua família para trás, anos antes.

É colaborador do Resenhando Sonhos.
Cético, é daqueles que precisam ver para crer.
Pedro é estudante de Jornalismo na UFRGS, cinéfilo e meio míope.