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Mentes Sombrias (2018) | Crítica

Começo essa resenha avisando de antemão: eu não li Mentes Sombrias. O livro foi lançado em 2012 e eu vi o trailer e me pareceu uma aventura simples do gênero adolescentes-com-super-poderes. Fui à sessão com expectativas baixas – e ainda assim saí decepcionado.

Pra quem nunca ouviu falar, Mentes Sombrias começa quando uma doença letal erradica metade das crianças no mundo, e deixa todas as crianças sobreviventes com super poderes. Por que? Não sei. Depois dessa crise, o governo americano começa a prender todas as crianças do país em campos de concentração para estudá-las e reprimir suas habilidades. A doença deu uma de chapéu seletor e dividiu as crianças superdotadas em cinco grupos: verdes (super-inteligentes), azuis (telecinéticos), amarelos (controladores de eletricidades), vermelhos (cuspidores de fogo!) e laranjas (controladores de mentes). Estes dois últimos grupos são considerados perigosos demais, então o governo resolveu simplesmente matar todos.

Nossa protagonista, Ruby (Amandla Stenberg, a Rue de Jogos Vorazes e a Maddy de Tudo e Todas as Coisas), é uma laranja que sobreviveu e vive disfarçada num destes campos de concentração, fingindo ser uma verde. Nossa história começa quando ela é descoberta e consegue fugir, com a ajuda da infiltrada Cate (interpretada por Mandy Moore, de Um Amor Para Recordar e This Is Us). Depois de cerca de 10 minutos com Cate (que não explica muito bem em nome de quem ela é infiltrada), Ruby foge novamente e conhece nossos outros protagonistas, os também adolescentes superpoderosos Liam, Zu e Chubs.

Se algum desavisado chegar a esse filme sem saber que é baseado em um livro, tenho certeza de que vai descobrir logo de cara – tudo acontece de forma tão episódica que fica explícito o cumprimento de um check-list de cenas e personagens a serem incluídos. Depois que Rudy conhece os que se tornarão seus melhores amigos, é hora de um segundo ato recheado de “fases” que os personagens tem que vencer. Elas incluem uma visita de uma caçadora de recompensas que só serve para gritar algumas frases de efeito (fiquei com pena da Gwendoline Christie, eterna Brienne de Game of Thrones, por ter se submetido a esse papel e a essa peruca); algumas cenas de ação para que os personagens mostrem seus poderes envolvendo eletricidade e telecinese, como uma perseguição de carro e a invasão de um shopping. O jovens então decidem chegar a um acampamento onde a única outro criança laranja está escondida – ele é um tipo de líder de crianças e usa seu poder de controle de mentes para manter o acampamento seguro do governo e de todos os adultos.

Como se as cenas de ação não fossem o suficiente, há ainda diversos dramas adolescentes acontecendo. O maior deles, o romance entre Liam e Ruby, é o mais apressado e também o que mais ocupa tempo – cheguei a me perguntar se o romance seria a verdadeira história a ser contada, com o futuro distópico como pano de fundo, mas no fim eu ainda não sei exatamente o que essa história quer contar. Há pinceladas sobre o passado de outros personagens, mas nada que construa uma subtrama relevante. Apesar de termos histórias de famílias separadas a força, crianças forçadas a viver uma vida de criminosos fugitivos e até um abuso sexual que acontece completamente do nada, tudo é ofuscado pelo romance dos protagonistas – só que ele, por si só, não faz muito sentido sem o contexto.

Mentes Sombrias consegue falhar em diversos aspectos, mas o maior deles talvez seja a falta de construção de atmosfera. Não há nenhum esclarecimento acerca dos riscos que os personagens estão passando, não nos importamos com o que vai acontecer porque nada faz muito sentido nesse mundo e o objetivo dos personagens é tão abstrato (um acampamento só para crianças do mundo inteiro?) que não nos faz relacionar com suas jornadas. É tudo corrido e entulhado, sequência após sequência, e é praticamente impossível distinguir que informações são relevantes e quais são apenas recheios obrigatórios porque está no livro.

Há ainda perguntas latentes que não são nem mencionadas, como o estado do mundo – num momento, descobrimos que “a economia quebrou”, mas isso explica porque todas as cidades parecem abandonadas? -, ou o que acontece quando uma criança com super poderes torna-se adulta, ou onde estão os pais de todas essas crianças que são fugitivos, ou de quem foi a ideia de colocar todas as crianças do mundo em campos de concentração, ou de onde surgiram esses poderes…

Compreendo o que levou a autora a achar essa história interessante, afinal crianças com superpoderes sempre foi uma ideia legal, mas qualquer X-Men ficaria decepcionado assistindo a isso, e nem a piadinha sobre Hogwarts consegue suavizar a falta de inspiração do filme. Na sinopse diz ser um futuro distópico mas não há muito na tela além de crianças correndo em bosques e talvez a parte do romance seja uma jornada emocional que valha a pena ser contada, mas então por que tanta confusão ao redor?

Infelizmente é muito evidente que essa adaptação tenta manter o gênero vivo depois de ter atingido seu ápice em Jogos Vorazes. Os estúdios querem a todo custo continuar vendendo franquias com o maior número de capítulos possíveis – Mentes Sombrias tem cinco livros – com o maior número de músicas pop ao longo dos filmes e atores conhecidos pelo público.

Mas duvido muito que esse aqui ganhe uma sequência. Saí da sessão desejando que Ruby pudesse me fazer uma visita e me fazer esquecer do que acabei de assistir. Você, que é fã dos livros da saga, por favor comenta aqui o que achou depois de assistir, porque eu preciso falar com alguém que leu pra saber se a experiência foi tão diferente ou se concordam comigo.

MENTES SOMBRIAS

Diretor: Jennifer Yuh Nelson

Elenco: Amandla Stenberg, Mandy Moore, Harris Dickinson e mais.

Ano de lançamento: 2018

Depois que mais da metade das crianças do mundo morre devido a uma doença misteriosa, todas as que sobreviveram desenvolvem superpoderes. O governo então caça e apreende todas as crianças, para manter seus poderes sob controle. Entre elas está Ruby (Amandla Stenberg), que precisa se fugir e se esconder entre as crianças sobreviventes devido ao grande poder que possui.

Gaúcho porto-alegrense apaixonado por cinema, séries de televisão e gatos. Relações Públicas por formação; comunicador por natureza.