Milhas de Distância – A. B. Rutledge

Milhas de Distância é o primeiro livro da autora A. B. Rutledge. A publicação é de 2018 pela editora Hoo, selo LGBTQ+ da Universo dos Livros.

Sobre o Livro

Miles completou dezoito anos há pouco tempo, mas ainda não teve muito o que comemorar. Há um ano e meio sua namorada, Vivian, uma garota transgênero, está em coma irreversível provocado por uma tentativa de suicídio. Precisando lidar com diversas questões relacionadas à culpa, perda e raiva, Miles percebe que está difícil aguentar. Ele não sabe o que fazer a partir deste ponto e está cada vez se trancando mais dentro de si. Cada vez mais ele também está entregando os pontos.

A luta para manter no ar o projeto que eles tinham online não deu certo. A família de Vivian, extremamente religiosa e terminantemente contra o fato dela ser uma garota trans, nunca aceitou a condição e os desejos da filha e agora impõe sua vontade ao corpo que respira com ajuda de aparelhos. O que resta a Miles ali? Vê-la definhar em um leito de hospital e se transformar novamente no garoto que nunca aceitou ser? Quem ele é sem ela, sendo que desde os treze eles começaram uma relação tão bonita, tão cheia de parceria e de amor e de compreensão um do outro? Como seguir a vida a partir deste ponto onde os sonhos são desfeitos, as expectativas frustradas, o coração partido e a esperança esvaecida?

“Você odiava tanto o seu corpo e agora ele é tudo o que resta. Tenho estado aqui, esperando que esse ciclo de negatividade termine. Convidei a Raiva, a Comiseração, a Ebulição e a Fúria para a minha festa solitária, mas parece que a Apatia é a única que vai comparecer.”

É o que descobrimos neste livro, através de mensagens de texto que o protagonista envia para a jovem, mesmo com a certeza de que ela nunca as lerá. Ele inicia sua jornada de auto descoberta com a ida para a Islândia, e é ali do outro lado do mundo que ele vai buscar maneiras para enfrentar a situação em que está, que vai tentar se reerguer e seguir com a vida mesmo com suas imposições, ao mesmo tempo em que planeja maneiras de honrar a história e a memória de Vivian. Esteja ela onde estiver.


Minha Opinião

Li poucos livros com personagens transgêneros, mas em todas as experiências que tive estes respectivos personagens tiveram  sempre uma voz ativa na narrativa. A Vivian aqui é protagonista, claro, porque praticamente toda a história do Miles gira em torno dela e ela está presente do começo ao fim, mas de maneira totalmente passiva; sempre sob a perspectiva dele. Esse ponto de vista, aliás, é interessante de acompanhar porque se modifica tal qual seu próprio estado emocional. No começo ele está completamente devastado, e não à toa. A namorada tentou se matar após eles terem uma discussão, daquelas que podem ser resolvidas com um pedido de desculpas sincero. Já havia um tempo que eles viviam juntos, tendo em vista que os pais de Vivian não aceitavam sua condição e a decisão de se assumir enquanto mulher.  E essa sensação de tristeza extrema é muito clara nos textos. Curtos, incisivos, às vezes até grosseiros. Ele usa essas mensagens como uma espécie de desabafo, como uma válvula de escape para colocar para fora e dizer à ela tudo aquilo que precisa. Infelizmente agora ela já não pode ouvi-lo e cabe nós esse papel.

O luto é um tema muito forte aqui. Não falo só sobre aquele tipo de luto que a gente sente quando alguém literalmente morre, mas aquele luto mais simbólico. E ele tem muitos lutos para elaborar… A perda da relação que eles estabeleceram, que era profissional, fraternal, amorosa, cheia de limitações mas ainda assim lindamente mágica. O luto pelos sonhos que construiram juntos e que jamais poderão realizar. O luto pela imagem que Vivian havia lutado tanto para conquistar e que agora voltava a ser exatamente aquilo que causava à ela tanta rejeição pelo próprio corpo. Miles vivenciava todos os tipos de luto, e ele sabia que cedo ou tarde aquele mais definitivo bateria em sua porta. E é complicado acompanhá-lo neste momento porque a narrativa é intensa, mas colocada sempre através de textos muito curtos. A gente sente necessidade de mais, a gente quer que ele escreva mais, que se derrame nas páginas e coloque para fora tudo o que está o matando por dentro. Mas como, se nem ele mesmo sabe como fazer isso?

“Experiências. interação humana genuína. Memórias mais importantes do que megapixels. Era o que eu estava procurando, de qualquer forma. É mais fácil falar do que fazer.”

É aí que surge a ideia dele ir para a Islândia. No decorrer da história a gente entende os motivos disso, mas é a partir dessa viagem que as coisas começam de fato a mudar, e com isso o tom da narrativa muda também. A princípio com certo receio de experimentar o novo, ou com vergonha de admitir para a namorada em coma que ele, um jovem de 18 anos, há um ano e meio imerso num estado emocional lastimável, está pela primeira vez pensando em se divertir. Conhecer pessoas. Fazer sexo – aliás, sexualidade e questões de gênero são temas fortemente discutidos aqui, sempre de maneira simples e respeitosa. É curioso ver como ele expõe essas vontades, meio sem jeito a princípio como se fosse ofender a namorada, ou trair a relação dos dois. Mas que relação, não é mesmo? Esse é outro ponto que a autora trabalha muito bem no livro. Que relação é essa que existe entre ele e Vivian, na atual conjectura? E de que maneira isso pode influenciar na forma que ele decide viver a própria vida?

Quando ele se dá conta disso, timidamente a princípio, começa de maneira consciente seu processo de auto descoberta, de aceitação. E é lindo de ver. Porque o Miles é um sujeito incrível! Como ele mesmo diz durante a narrativa, embora não goste muito de ser rotulado de qualquer coisa, se considera um cara do bem, um vegetariano-ateu-pansexual-pacifista mas que no fundo sabe que está ali meio que no espectro da demissexualidade. Mas tudo isso acaba sendo algum tipo de rótulo, e isso não importa. O que é importante aqui é que ele finalmente descobre que quer viver, mesmo que seja através dos pequenos gestos, das pequenas coisas, e a gente acompanha esse mocinho por lugares bem bonitões com nomes que tenho dificuldade para pronunciar que dirá escrever, mas que procurei no Google e que são reais. O que só aumentou meu prazer ao ler este livro porque eu via as fotos e tentava imaginar o Miles naqueles lugares, fotografando as botas favoritas da Vivian de modo que ela também estivesse presente nesses momentos de ressignificação.

“Olá, mundo. Lembra deste cara? Desta versão do Miles, o bizarro e ousado? Ele está de volta e está afim de se dar bem. E talvez ele consiga mesmo…”

Curioso, não é? Falar sobre sentir prazer em ler um livro que logo na sinopse já joga que a menina tentou se matar e ficou em coma e que é a história do carinha tentando lidar com isso. A premissa é basicamente essa mesmo, mas o livro é mais do que isso. É uma conversa sobre o direito de ser o que se é, independente da opinião alheia, e de merecer respeito simplesmente porque sim. É sobre resiliência, é sobre autoaceitação, é sobre o amor em suas diversas formas e em tudo o que precisamos sublimar para vivê-lo como ele merece. É sobre fazer valer a pena os pequenos momentos, os gestos mais simples. É uma história sobre superar aquilo que a gente não pode lidar e se permitir viver aquilo que a vida nos apresenta. E é neste ponto que Óskar ganha vida. Ele é uma miniatura nórdica com coque bagunçado e imensos olhos azuis. Um jovem que tem seu quinhão de problemas para lidar, mas que estende a mão a Miles e acaba fazendo parte de todo o processo terapêutico que está rolando ali. Eles se ajudam de formas que nem imaginam e é claro que a Rutledge resolveu que finalmente o Miles merecia receber amor romântico no tempo presente.

Ah, Óskar, eu adorei esse personagem! Misterioso, pequenininho, obstinado. Passou por tanta coisa, está tão cheio de amarras… E eles dois super combinaram, e eu de fato gostaria de ter um epílogo, um conto, ou quem sabe um outro livro de repente contando uma aventura entre os dois. E eu espero mesmo que isso aconteça, porque se para um primeiro trabalho a autora já foi capaz de escrever um livro tão incrível, falando sobre temas complexos e pesados de maneira tão sensível, mostra que ela tem talento para a coisa e que instiga a querer ter mais de seu trabalho na estante. Acho que o único ponto aqui que não me deixou completamente satisfeita foi não saber os motivos da Vivian. Eu senti essa necessidade e isso está me agoniando até agora, mas tenho certeza que foi proposital, foi totalmente de caso pensado essa sensação de inconclusão. Porque, em situações assim, as pessoas que ficam nem sempre têm certeza do que levou aquela pessoa querida a fazer tal coisa; principalmente quando ela se escondia atrás do ‘tá tudo bem’.

Então embora seja um livro sensível, cheio de representatividade (tão necessária, principalmente em tempos sombrios como estes que vivemos agora), com uma proposta interessante e linda de se acompanhar; com uma edição bem fofa (menorzinho, com folhas em papel jornal, diagramação bacana com detalhes que remetem à Islândia), e um final que deixa uma sensação de que as coisas se ajeitam na medida do possível, ficou sim uma angústia. E é por conta dessa angústia que fica, e por conta de tudo que a gente sente enquanto acompanha o Miles lidando com suas próprias questões, que eu indico esse livro para aqueles momentos em que a gente se sente mais leve, mais fortalecido. Para momentos em que a gente não está passando por nada semelhante e que sabe que nada do que tem aqui no conteúdo pode nos incomodar além do que a gente precisa e aguenta. Combinado?

MILHAS DE DISTÂNCIA

Autor: A.B. Rutledge

Editora: Hoo

Ano de publicação: 2018

Faz três anos que Miles se apaixonou por Vivian, uma talentosa e deslumbrante garota transgênero. Dezoito meses desde que uma tentativa de suicídio deixou Vivian em coma. Agora, Miles não tem certeza de quem ele é sem ela, mas sabe que é hora de descobrir como dizer adeus. Após chegar à Islândia com uma passagem só de ida, ele vive enclausurado no seu quarto de hotel. Depois de um pequeno empurrão de Óskar, um local que é tanto cativante quanto misterioso, Miles decide honrar a vida de Vivian fotografando seu sapato favorito vazio nas paisagens surrealistas do país. Cada passo que ele dá, é um ponto dado na ferida aberta de seu coração, assim ele começa a aceitar que o coma de Vivian é irreversível.
Narrado totalmente através de mensagens instantâneas para Vivian, esse livro peculiar e completamente fora dos padrões explora o amor, a perda e as distâncias drásticas que às vezes temos que percorrer para seguir em frente.

Uma leitora frenética e inquieta, apaixonada por histórias fantásticas e com uma tendência a se deliciar com romances água com açúcar. Viciada em fotografias e gatos, é uma apreciadora das pequenas coisas e costuma ver beleza até onde não há.