Moonlight: sob a luz do luar (2016) | Crítica

Moonlight, filme estadunidense com oito indicações ao Oscar 2017 (melhor filme, diretor, ator e atriz coadjuvantes, roteiro adaptado, fotografia, edição e trilha sonora), chega aos cinemas brasileiros no dia 23 de fevereiro.

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Lembra-se da última vez que viu um filme protagonizado exclusivamente por negros? Ok, uns poucos. Mas e um dirigido e escrito por negros? Diminui-se a lista. E um que, além de satisfazer as condições anteriores, alcançou a visibilidade de um Oscar e ganhou prêmios como o Globo de Ouro ou o Independent Spirit Awards? Já imaginou o quão fácil é o assunto quando pensamos em termos de produções feitas por brancos? O diretor e roteirista Barry Jenkins, elenco e equipe superam, em Moonlight, barreiras que cerceiam a participação de negros no cinema americano, a exemplo das polêmicas sobre racismo que polemizaram o Oscar do ano passado e pautaram acontecimentos no país nos últimos anos.

A trama acompanha a vida de Chiron em três capítulos – infância, adolescência e maturidade -, tratando da jornada de autoconhecimento e resistência que o protagonista perpassa ao (sobre)viver em uma periferia estadunidense. Abordando questões sociais relativas às áreas urbanas marginalizadas renegadas à população preta (tal tipo de exclusão não é privilégio do Brasil), o filme surpreende ao inserir um microcosmo étnico que independe de brancos ou de racismo. Exemplificando, outros diretores como Spike Lee e, mais recentemente, Steve McQueen, destacaram-se em grandes filmes ao utilizar do protagonismo negro em obras que tematizaram questões histórico-sociais causadas pela discriminação: como a escravidão, os preconceitos sofridos na zona urbana, as lutas por direitos humanos nos EUA na década de 60, etc.

Moonlight, por outra via, é a perspectiva de um homem e seus dramas, as dificuldades de sua própria comunidade, os conflitos entre seus iguais, os preconceitos que independem de etnias – é um microcosmo realista e cru, que independe do branco e de suas atitudes ou de qualquer questão racial. A peça cinematográfica trata de um indivíduo (que por ventura é negro) por ele mesmo e de sua jornada na vida.

Barry Jenkins, em uma direção competente e sóbria, lança um olhar observador e minucioso sobre o universo de Chiron e seus personagens. Sua câmera acompanha reações e expressões com delicadeza, sempre a observar o que mais parece importar às memórias de Chiron – talvez um olhar, um sonho, uma jukebox, uma onda, partes memoráveis de lembranças. Sempre seletivo e didático, Barry chega a mudar o aspect ratio em determinadas cenas, tornando as barras horizontais pretas da tela mais fechadas, de maneira a compactar ações e enclausurar os personagens em seus momentos de importância emocional. Destaco aqui uma cena que ocorre no primeiro ato do filme, em um mergulho no mar, em que Barry posiciona a câmera entre a água e os personagens (Juan e Chiron), com ondas a baterem na lente, o que compartilha conosco uma sensação de pertencimento àquele momento de tranquilidade – há aqui uma espécie de câmera que observa em terceira pessoa, mas cuja emoção age em primeira. Não sendo raro ao longo da projeção a fusão entre as perspectivas de terceira pessoa que observa (espectador) e de primeira pessoa que sente (Chiron).

Com uma direção de arte preocupada com o azul, cor-chave para a narrativa e sempre presente em acontecimentos importantes para o arco do protagonista, notamos uma abordagem simples para as cores. Estas normalmente estão associadas a emoções específicas (como o azul “da luz do luar”), evitando-se cores que saltem muito aos olhos e com preferência a ambientes mais serenos e contemplativos, que não chamem muita atenção para eles mesmos – o foco são faces e dramas pessoais.

Concomitante a isto, a direção de fotografia tende a valorizar o negro da pele dos personagens, o vermelho de sangue que dela emana e o brilho das lágrimas que das faces refletem; são os atores os mais valorizados pela parte técnica. A trilha sonora (indicada ao Oscar) acompanha a tensão das cenas e o fluxo de consciência proposto pelo filme, realçando-as; mas nunca fabricando-as (há filmes que gostam de pôr uma trilha triste para avisar que aquela cena é para ser triste, tal tipo de muleta aqui não é necessária). Aliás, uma menção honrosa que vale a pena é a presença da canção “Cucurrucu Paloma” na soundtrack, de nosso querido Caetano Veloso.

Com atuações primorosas, é elogioso o trabalho de casting do filme, que perpassa três capítulos da vida de um homem com uma surpreendente unidade dramática. Os atores infantis, adolescentes e adultos compartilham as mesmas semelhanças faciais, os mesmos trejeitos e as mesmas tormentas. Os indicados ao Oscar Mahershala Ali e Naomie Harris tem aparições curtas, mas poderosas; contudo, em minha vil opinião, os destaques vão para Alex Hibbert (Chiron criança) e Ashton Sanders (Chiron adolescente), apesar de não haver aqui atuação que deixe a desejar.

Sem esconder suas fórmulas nem seus propósitos, Moonlight é um filme cujos símbolos e metáforas são entendidos facilmente pelo espectador atento, ou mais ou menos familiarizado com a linguagem cinematográfica – sóbrio em sua narrativa e simples em suas inovações e experimentalismos. Evito aqui de dar spoilers, mas adianto que há inúmeros impactos que um filme emotivo e impactante como Moonlight pode reservar para o espectador.

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MOONLIGHT: SOB A LUZ DO LUAR

Diretor: Justin Kurzel

Elenco: Trevante Rhodes, Mahershala Ali, Janelle Monáe e mais

Ano de lançamento: 2016

Black (Trevante Rhodes) trilha uma jornada de autoconhecimento enquanto tenta escapar do caminho fácil da criminalidade e do mundo das drogas de Miami. Encontrando amor em locais surpreendentes, ele sonha com um futuro maravilhoso.

É colaborador do Resenhando Sonhos. Cético, é daqueles que precisam ver para crer. Pedro é estudante de Jornalismo na UFRGS, cinéfilo e meio míope.
  • Estou simplesmente doida pra ver esse filme, afinal não é sempre (infelizmente) que vemos um filme quase 100% negro. Quero muito que o Mahershala Ali ganhe o Oscar, adoro as atuações dele, principalmente em Luke Cage, onde ele tá muito sombrio.

    Amei a crítica! ❤

    • Pedro Nakamura

      Acompanhei o Mahershala no House of Cards, somente. Possivelmente vou conferir o Luke Cage depois dessa.

      Muito obrigado, Bruna. Abraços!

  • Lili Aragão

    O filme parece ser sensível, real e humano e te causou uma impressão muito boa de acordo com o texto que você escreveu. Fiquei curiosa pra saber como todos os detalhes que você citou no texto são apresentados na tela. O filme parece ter transposto muitas muitas barreiras, nos apresenta uma história protagonizada, escrita, dirigida por negros e que teve e deve mesmo ser reconhecido e premiado. Ótima crítica ;)

    • Pedro Nakamura

      Muito obrigado!

      Evitei de dar spoilers, e te recomendo evitá-los em outros meios. Parte da graça (de graciosidade mesmo) do filme está nas descobertas de Chiron, as quais acompanhamos enquanto espectadores!

  • Lara Caroline

    Oi Pedro, tudo bem?
    Estou torcendo muito para que este filme ganhe o Oscar, nunca assisti a nenhum filme em que os negros fizessem 100% parte. A história parece ser realmente muito tocante, e eu quero muito assistir.
    Beijos

    • Pedro Nakamura

      Também estou na torcida por um bom desempenho de Moonlight, mas acho que o A Chegada vai abocanhar muitos de seus prêmios no Oscar.

      Bjos!

  • Bruna Prata

    Estou muito ansiosa para assistir esse filme, é tanto elogios que mesmo sem assistir eu já to amando. Aparentemente parece transmitir tantas emoções que eu fico extasiada somente com a descrição.

    • Pedro Nakamura

      É um filme bem emotivo e subjetivo, mas que não segue o perfil de um blockbuster ou dos dramas comuns. Espero que gostes!

  • Tays Costa

    Eu nunca estive tão ansiosa para assistir um filme!
    Acho que dos indicados esse é o que eu realmente quero assistir! E A CHEGADA (mas já saiu e eu perdi)
    Dica hiper anotada e todos os desejos de que ela seja o grande vencedor!
    Beijosss

    • Pedro Nakamura

      Os dois são muito bons, não vais te decepcionar!
      Bjos!

  • Thaynara Ribeiro

    Eu geralmente não procuro saber sobre os filmes do Oscar pq nunca me identifico ou fico curiosa com as histórias. Me parece um drama o que não é muito a minha praia, mas devido as indicações e boa crítica eu arriscaria assistir

    • Pedro Nakamura

      Moonlight tem recebido muita credibilidade através dos festivais os quais participou, mas ainda assim é, puramente, um drama.

      Abraços!

  • rudynalvacorreiasoares

    Pedro!
    Gosto demais de filmes carregados de dramas e se é como o trailer diz que entraremos de um jeito e sairemos totalmente modificados pelo filme, já estarei na porta do cinema para assistir, além de todos seus comentários sobre os protagonista, sobre a história e sobre a música.
    Desejo uma semana repleta de realizações!
    “O saber é saber que nada se sabe. Este é a definição do verdadeiro conhecimento.” (Confúcio)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de FEVEREIRO, livros + KIT DE MATERIAL ESCOLAR e 3 ganhadores, participem!

  • Marta Izabel

    Oi, Pedro!
    Devo dizer que não conhecia esse filme!! Mas gostei bastante da história. Sem dúvida não é sempre que temos um filme feito 100% por pessoas da raça negra. Fiquei bem curiosa para conferir esse filme!
    Bjos

  • Gislaine Lopes

    Oi Pedro,
    Ainda não tinha visto nada deste filme, mas adorei a indicação. Gosto da proposta do filme, da ideia de acompanhar a história de um homem e ver os seus desafios e dificuldades durante a vida. O preconceito e as diferentes classes sociais não devem ser inseridas só quando se fala em escravidão, ou quando diminuem o valor do negro na sociedade, pois são questões encontradas em uma mesma comunidade ou cidade onde tem-se uma unica etnia e, confesso que, isso foi o que mais me chamou atenção neste longa.

  • Viviane Baptista

    Esse filme parece ser muito bom e eu estou muito ansiosa para ver parecer ser bem dramatico e bem marcante.