Nas Sombras do Estado Islâmico – Sophie Kasiki

Nas Sombras do Estado Islâmico é o relato de Sophie Kasiki sobre seu período em contato com a organização. O livro é lançamento da editora Best Seller.

Sobre o Livro

Sophie Kasiki nasceu em 1981, em Kinshasa, no Congo e morava com a mãe, até que aos nove anos depois de ficar muito doente viu a mãe falecer. Junto da perda também veio a mudança e ela foi obrigada a migrar para a França para morar com a irmã mais velha de 25 anos. Alice e Serge, o marido, a recepcionaram no aeroporto junto com o filho e tentaram, de forma amorosa, proporcionar um novo lar para a menina.

Porém, Sophie nunca conseguiu verdadeiramente se adaptar e cresceu mergulhada na depressão do pensamento do que ficou pra trás. Com a sombra da mãe sempre em seu ombro ela também desenvolveu a vontade de ajudar os outros, da mesma forma que sua mãe sempre foi altruísta. Foi somente quando sua irmã deu à luz a gêmeos, quando ela estava mais velha, que a garota viu a sua vida se iluminar. O cuidar e ajudar a fazia bem e ela descobriu nisso uma vocação.

“Deixei meu quarto, meu país, meu universo. Tudo desaparecera junto com a minha mãe. À frente, o vazio. E o medo.”

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Ela casou-se e saiu de casa, deixando a asa da irmã para construir sua própria família. Logo engravidou e teve que se afastar um pouco dos serviços comunitários. Quando Hugo completou 1 ano ela começou a dar assistência na Casa do Bairro, que oferecia apoio aos imigrantes das regiões Norte e Oeste da África. Foi ai que ela teve seu contato com a cultura Islã e começou a ver na religião uma forma de curar suas feridas. Por causa desse trabalho que trazia a imensa satisfação que ela não tinha em casa e que afastava a depressão que sempre a rondou, ela viu sua vida mudar.

Ela se converteu ao Islã e adotou alguns dos hábitos, tentando melhorar sua qualidade de vida. Mas o que foi realmente determinante para todo o horror que se seguiu foi que alguns jovens, que frequentavam a comunidade, apenas garotos a seus olhos, acabaram fugindo para a Síria. Sempre que isso acontecia eles precisavam reportar, pois um alerta era posto na pessoa.

Tentando manter uma relação entre os jovens e sua família ela se engajva em conversas pelo Skype, onde os ouvia contar sobre as maravilhas da vida que estavam tendo sobre os cuidados do Estado Islâmico. Eles mandam fotos de seu amplo apartamento e das coisas boas, mas também plantam a necessidade de pessoas para ajudar os mais necessitados, o que é o ponto fraco de Sophie.

Por acreditar na inocência daqueles que ela via como meninos, ela planeja uma viagem a Síria para conhecer e ajudar, mentindo ao marido que irá fazer um trabalho voluntário na Turquia. Leva Hugo consigo e faz um trajeto arriscado até encontrar os jovens logo depois da fronteira, que era completamente sitiada. Porém, ao chegar lá descobre quem nem tudo é as mil maravilhas como lhe haviam contado.

Privada de seus costumes, tendo que sair somente acompanhada e toda coberta, Sophie só pode ir onde eles deixam e a levam e, encontra no hospital que deveria ajudar uma triste realidade. Quando tudo aquilo começa a sufocar a ela e o filho, Kasiki pede pra ir embora e é ai que sua vida realmente vira um inferno, quando ela se vê prisioneira e doente em um país em guerra, sem possibilidades de voltar e completamente à mercê do Estado Islâmico.

Minha Opinião

Quando optei por fazer essa leitura, pelo que diz na contra capa sobre ela “se juntar ao Estado Islâmico”, imaginei que seu envolvimento com aquela situação tivesse sido completamente consciente. Porém, ao começar a ler a história, vi que Sophie foi uma vítima da depressão e da maldade das pessoas.

A depressão ainda é algo que gera muita discussão. Algumas pessoas não acreditam verdadeiramente nas coisas horríveis que essa doença pode causar na vida de uma pessoa e colocam tudo como uma frescura, quando na verdade é algo sério. A tristeza que consome a vida de quem sofre com isso é palpável e não está ali porque a pessoa quer, é uma condição do seu corpo e da sua mente.

“Agradeço àqueles que sabem que a depressão não é uma escolha, um modo de vida ou uma fraqueza moral: é uma doença terrível.”

A Sophie cresceu com isso, sendo tímida e mantendo-se isolada. Ela sentia falta da vida que tinha na África, da mãe e de tudo o que ficou pra trás. Como ela gostava de ajudar e conhecia os meninos, acreditou no que eles lhe diziam e viu na necessidade de voluntários para ajudar as pessoas na Síria, uma oportunidade de se fazer útil novamente. Isso sempre foi o que a moveu, ajudar os outros, trazer luz a vida alheia enquanto vivia na escuridão.

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Com as palavras certas, aqueles jovens que ela conhecia e confiava conseguiram lhe pintar uma realidade distorcida, mas que era a isca perfeita para que ela fosse aliciada. Achando que estava indo por vontade própria e que poderia mudar de ideia a qualquer momento, ela embarca em uma viagem quase sem volta em que acaba por pôr em risco a vida do filho. O marido que ficou, do qual ela já havia a muito se afastado, quando descobre onde ela está e o que fez, faz o que era requisitado na época e a denuncia às autoridades, complicando ainda mais a sua situação.

“Assustada, me perguntava como pudera chegar àquele ponto, dependendo de desconhecidos, fugindo para salvar minha vida e carregando meu filho adormecido, em um país em guerra.”

Perdida em si e mantida em cativeiro por um grupo extremista ela bola planos para tentar escapar, falar com pessoas, pedir ajuda. Mas tudo é muito difícil. Ou ela está trancada ou não pode sair sozinha e também nunca se sabe em quem confiar. Quem faz parte do Estado Islâmico e quem não?

A religião muçulmana é vista por muito com maus olhos por causa de toda a carga de extremismo que vem com ela. Porém, política e religião não andam em todos os casos lado a lado. Quando conheceu o Islã através do Alcorão Sophie encontrou conforto, algo que aquietou sua alma, que lhe trouxe paz. Mudar um pouco os seus hábitos para estar mais plena com relação à religião a ajudou a melhorar, a se sentir mais viva.

Porém, infelizmente, também foi isso que lhe aproximou ainda mais daqueles que a ludibriaram e traíram. Sei que muitos podem dizer que ela sabia exatamente o que estava fazendo e mereceu o que a vida lhe reservou, mas a coisa não é bem assim. Ela tinha uma personalidade fraca em função da depressão, tinha no ato de querer ajudar as pessoas outra fraqueza e, claro, a afinidade que compartilhava com os garotos quanto a religião a fez mais suscetível a confiar.

“Não consigo encontrar um fato isolado, dentro da galáxia de pequenos acontecimentos que compõem minha vida, que possa explicar tudo. O grande erro seria acusar a religião como causa única e suficiente.”

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Sophie Kasiki sofreu por ter perdido a mãe, sofreu com a depressão, sofreu pelo cativeiro, por ser afastada das coisas que conhecia, sofreu por ser enganada e, quando finalmente escapou, sofreu as consequências de ter ido a Síria. Quando pôs os pés na França, depois de uma arriscada fuga que temos um trecho logo no primeiro capítulo, ela foi julgada e condenada por ter “se juntado ao Estado Islâmico”. A culpa pelo que aconteceu pode ser de inúmeras pessoas incluindo a própria Sophie, mas jamais será de um fator só, como a quote que pus a cima diz. Não foi a religião, não foi a depressão, não foi somente os jovens ou somente a vontade de ajudar que aquela mulher sentia. Foi um combinado de todos esses fatores sob uma má influência.

O livro tem somente 160 páginas, mas não é uma leitura leve ou super fluída. Conheceremos a história de Sophie desde o começo, com capítulos bem separados entre os momentos de sua vida. A leitura é rica e enervante. Você realmente sente muito as coisas que ela está sentindo e percebe em suas palavras o peso que aquilo tem sobre ela. Parece que mesmo agora, depois de algum tempo, ela ainda não é capaz de explicar puramente como aquilo aconteceu. É impossível apontar somente um motivo, assim como pra Kasiki naquela época, era impossível enxergar os objetivos ocultos daqueles jovens que ela julgava inocentes.

As Sombras do Estado Islâmico é um livro bem diferente do que eu costumo ler. Foi meu primeiro contato com uma história que envolvia a religião muçulmana ou todo o conflito político que esses países sofrem. Uma das coisas mais normais ao ser humano é o ato de julgar e de tirar conclusões e aqui eu vacilei. Não consegui apontar o dedo para Sophie e dizer o quanto ela era “burra” por não ter percebido o que estava acontecendo, pois conheço tantas pessoas que são sensíveis, lutam contra a depressão, e estariam tão suscetíveis quanto ela. Há tanta gente no mundo passando por isso, pra coisas tão mais simples do que se juntar a um grupo extremista. As vezes é um relacionamento abusivo, uma amizade que suga tudo da pessoa, são os outros se aproveitando de você. Infelizmente é real e está próximo de todos nós.

Fiquei triste com o livro e com o que ela passou. Demorei um tempo para refletir sobre o peso de tudo o que li. Sou uma pessoa que não religiosa mas que acredita em Deus. Sou uma pessoa que não é simpatizante com nenhum partido político, mas sabe da importância da discussão e da militância. Porém essas coisas facilmente saem do controle, levando ribanceira a baixo muitos dos conceitos defendidos. Como falei anteriormente, a religião muçulmana não deveria arcar com o peso da guerra política e com o fato de muitos a usarem como motivo para atos terroristas ou desumanos. Há muita gente que encontra conforto em acreditar em Deus, seja a religião que for, e é tão errado julgar as pessoas por essa escolha quanto é unicamente pelas ideologias políticas.

Nas Sombras do Estado Islâmico é um livro pesado, mas que merece ser lido. A reflexão é enorme e as discussões da jornada contada nele são infinitas. Porém o que Sophie nos ensina com clareza é a não julgar e principalmente a buscar compreender que sofremos de maus diferentes, cada um de nós. A pressa, a depressão, a ansiedade, o excesso de trabalho, o desamor, a traição, a solidão. São todos maus que nos cercam e que nos tornam mais fracos e propícios a errar.

Não sei se há como justificar o que aconteceu, ou até mesmo perdoar para alguns envolvidos. Me pergunto o desespero desse pai ao saber que o filho era refém em um país sitiado. Porém não cabe a nós julgar. Cabe compreender, processar, e lutar por um mundo melhor, onde coisas assim parem de acontecer.

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O testemunho extraordinário da mulher francesa que se juntou ao estado islâmico e conseguiu sobreviver a uma jornada pelo inferno. Sophie Kasiki trabalhava como assistente social nos subúrbios de Paris quando três dos jovens que auxiliava abandonaram a França para se juntar ao Estado Islâmico, na Síria. Em pouco tempo, aqueles que ela carinhosamente chamava de “os meninos” voltariam a procurá-la. A princípio, Sophie ingenuamente esperava convencê-los a voltar, mas o que aconteceria seria exatamente o oposto. Em ”Nas sombras do Estado Islâmico”, Sophie Kasiki relata, de forma muito emocionante, todo o terror que passou na cidade de Raqqa, coração do Estado Islâmico na Síria.

 

É a criadora e autora do Resenhando Sonhos.
Gaúcha do interior do Rio Grande do Sul, hoje mora na capital Porto Alegre e quer conhecer o mundo.
Publicitária por formação, sonhadora por opção. É mal humorada e chata.
  • Daiele

    Essa sinopse é realmente curiosa, eu nunca li nada parecido. Ja li sim muitas historias com temas assim, mas algo do tipo em que a personagem fica meio que “prisioneira” de uma cultura, é realmente intrigante. Me chamou bastante atenção, até pq é uma cultura diferente, que acontece la do outro lado do mundo, e com certeza vale muito entender um pouco do assunto. Acredito ser uma leitura indispensavel, <3

  • Lara Caroline

    Oi!
    Realmente fiquei muito curiosa para ler este livro. Acredito assim como você que não devemos julgar essa decisão que ela tomou, pois existem inúmeros fatores envolvidos e que levaram ela a se juntar ao Estado Islâmico. Adorei demais a sua resenha porque você além de falar sobre o livro conseguiu deixar um ensinamento e a sua opinião sem julgar, o que é o mais importante.

  • Bruna Prata

    Nunca li nada parecido.
    Adorei a resenha, adorei o fato de você expor a sua opinião sem julgar o X ou Y.
    Eu me envolvo muito com os personagens, e esse livro parece conter todos os fatores que me deixa ansiosa e apreensiva. É muito difícil ler algo em que o personagem está sofrendo, tanto internamente quanto no exterior. Vou pensar meticulosamente sobre essa possível leitura.

  • ADRIANA HOLANDA TAVARES

    Não me chamou nem um pouco a atenção, eu geralmente não leio livros assim, corro léguas de livros que pareçam muito com um relato de algo histórico, fico meio cansada e acabo largando o livro bem no começo. E quando ouvi o seu vídeo me lembrei um pouco de uma série que falava sobre uma mulher que ia ajudar as pessoas em outro lugar mas era como parteira. Mas desse jeito aí não sei, eu deixo passar!

  • Bárbara Branco

    Fiquei bastante interessada no assunto que o livro trata. São poucas as histórias que abordam a realidade do Estado Islâmico e mais raras ainda são as vezes que vemos relatos, propriamente ditos.

  • Ilana Rafaely

    Se eu visse Sophie na rua eu só ia chegar nela e a abraçar porque, meu Deus, quão sofrida foi a vida dessa mulher ???? Assim como você juguei ela por ser ”burra” e ter ido a Síria mas também temos que entender essa parte dela que tem depressão e que gosta de ajudar os outros. Não curto muito ler livros com temáticas pesadas mas de vez em quando é bom ler um, com toda certeza esse já entrou para minha lista para quando chegar esses momentos de pegar livros que não costumo ler

  • viviane baptista

    Eu achei a historia muito boa,embora não costume ler esse tipo de livro ver como as coisas funcionam na pratica e com um relato verdadeiro é bem interessante, principalmente tratando-se de um assunto tão polemico como religião e politica.