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O Ciclista Mascarado – Neil Peart

O Ciclista Mascarado é um livro de Neil Peart. O autor, além de escritor e compositor, é o lendário e cultuado baterista da banda canadense Rush. Escolhido pela Rolling Stone como o melhor baterista do mundo e parte do Hall da Fama do Rock, é autor de vários livros, como também responsável pelas composições da já citada lendária, banda RUSH. O livro foi lançado pela primeira vez em 1996 pela editora Pottersfield Press, do Canadá. No Brasil foi lançado pela editora Belas Letras, no ano de 2016.

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O livro é dividido em três partes, e conta de maneira autobiográfica a aventura de bicicleta que Neil Peart se propôs no oeste da África. Na primeira parte, intitulada “Homem Branco, para onde está indo?”, conhecemos o protagonista da nossa história como alguém que gosta de aventuras, além de estar habituado a viagens longas de bicicleta. Também podemos notar que de tempos em tempos, Neil abandona o seu posto na bateria do Rush para simplesmente viajar anônimo, em busca de aventuras. Não importando muito o esforço que seja necessário, pois segundo o autor, mesmo que a empreitada pareça quase impossível por vezes, a estrada, as pessoas e as vistas sempre compensam o esforço.

Camarões, assim como muitos países da África Ocidental, onde todo percurso acontece é dividida em duas zonas completamente distintas, seja quanto ao clima, topografia, política e religião. Uma zona ao sul, de clima úmido e caracterizada por uma rica fauna tropical é adepta ao cristianismo. Já a parcela do Norte, intermitentemente achacada pelo Saara, é uma parcela seca de savana e caracterizada pelo islamismo. Quanto a política, há uma tensão constante entre as partes norte e sul, que acaba por cultivar um território prolífico para guerras civis (ainda uma ameaça), revoluções e golpes de governos exploradores. Além disso, as características do povo variam consideravelmente, de acordo com qual colônia se estabeleceu no território (inglesa, americana, francesa) e as influências dessas culturas são sentidas de maneira bastante chocante no percurso.

Neil começa a sua sua aventura falando que pelo que ele sabia, as pessoas viajavam a África Oriental pelos animais, enquanto as que optavam pela África Ocidental. Sua primeira experiência na África foi realmente o estupor da magnificência dos savaris africanos, com todos seus animais e sua vida selvagem pungente. Porém, o que levou o autor a revisitar o continente, com uma abordagem mais ligada a experiência, foi a possibilidade de vivenciar as diferentes nuances do convívio com as pessoas.

Andar de bicicleta é um bom modo de viajar em qualquer ligar, mas principalmente na África, onde você se torna independe e móvel, e assim viaja na “velocidade das pessoas” – rápido o bastante para se deslocar até a próxima cidades nas horas mais frescas da manhã, mas devagar o suficiente para conhecer as pessoas: o velho agricultor na beira da estrada que ergue a mão e diz “Vocês são bem vindos”, a mulher incansável que oferece um sorriso tímido ao ciclista, as crianças das risadas que transcendem a casinha mais humilde. As boas-vindas incondicionais aos viajantes cansados são parte do charme, mas também são algo essencialmente africano: os vilarejos e mercados, o modo como as pessoas vivem e trabalham, a aceitação alegre (ou pelo menos estoica) da adversidade, e sua rica cultura: a música, a magia, as esculturas – as máscaras da África.

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Neil começa o trajeto se juntando a outros quatro ciclistas que encararam, o que foi vendida como, a mais exigente excursão de bicicleta no mercado. David, o idealizador do projeto, nativo de Camarões e um entusiasta das maravilhas do povo e território africano; Leonard, ciclista vindo dos Estados Unidos; Annie, a afetuosa e simpática ciclista; E Elsa, a integrante mais velha do grupo, tendo em torno de 60 anos.

Na primeira parte, os ciclistas começam a passar pelos pequenos vilarejos, se atendo a características do povo, que são por vezes completamente diferentes dos costumes ocidentais. Por exemplo, em cada cidade que passam notam que os costumes se adequam a qual influencia, colonial ou assistencialista, o povo teve. Se há uma colônia nativa inglesa, notam-se em ônibus e fachadas a influência da cultura ocidental. Apesar disso, choques são inevitáveis, como a máxima que na África, quem trabalha são as mulheres. Fato confirmado, ao os ciclistas se depararem durante cada manhã, com homens encostados nos decrépitos estabelecimentos enquanto as mulheres suam na sua rotina de afazeres diários.

Outra particularidade, é o fato de os habitantes desconhecerem em muito, a presença de indivíduos de pele negra na América. Sendo recorrente o choque quando Leonard, o único negro no meio do grupo de brancos, afirmava que ele vinha dos EUA, e não sabia de qual tribo ele descendia. O fato também de os jovens camaronenses, principalmente nas zonas mais remotas, terem um hábito de almejarem ter, antes de ser. Por exemplo, em contato com os brancos sempre perguntavam como conseguiriam veículos, ou serem ricos, como se ao entrarem em contato com os brancos encontrassem esse passaporte direto para este fim, sem que precisassem o caminho para chegar a ele.

A parte dois,  intitulada Epifanias e Apostasias, passa pelas experiências dos cinco ciclistas quando entraram em contato com populações nas quais se viam as influências da cultura cristã. Os missionários que normalmente chegavam as populações carentes, eram vistos como pessoas que trariam recursos e desenvolvimento a lugares onde raramente a ajuda chegava. Pois o que se via era o contrário, onde os missionários chegavam, eram erguidas grandes igrejas com os recursos que deveriam ser mobilizados para o desenvolvimento da população. A população era catequizada ao invés de ser alfabetizada, e isso era visto como uma mácula recorrente do cristianismo. As missões, em quaisquer das narrativas históricas com objetivo de narrar os esforços de colônia, delimitavam claramente que os padres não se importavam com a cultura na qual desembarcavam, ou como a catequização iria afetar a cultura do povo. O importante era salvar os infiés.

Esta percepção desconfiada da cultura cristã foi testada quando Neil foi recepcionado em um convento, por freiras e noviças que convidaram os ciclistas para as chamadas Vésperas, onde de maneira sublime entoaram cânticos religiosos. Neil sentiu 0 que ele mesmo interpretou como um arrebatamento que ele, agnóstico desde sempre, almejou durante anos. Lembrando que desde pequeno invejava os seus colegas cristãos, pois notava que eles pareciam diferentes, “especiais”.

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Arrebatamento que não durou, pois ao mesmo tempo que foi tocado pela canção cantada em diferentes e harmoniosos tons, notou que os mesmos resplandeciam em seus rostos um dos maiores pecados, o orgulho. A certeza absoluta que o canto que proferiam era além do que a maioria das pessoas, e que eles, diferentes de qualquer um eram os escolhidos e os mais próximos de deus. Um hábito, que era uma mácula para a cultura cristã, que sob a justificativa de que tinham a palavra da salvação, executaram coisas horrendas como a santa inquisição.

Na terceira parte do livro, “Homem branco, o que você está fazendo”, Neil e seu grupo tiveram as piores experiências da sua aventura. Desde o início eles enfrentaram problemas no seu percurso, alguns entre eles, outros pelo choque com a cultura nativa. Os problemas entre o grupo se davam pela falta d’água, pelo racionamento de comida, pela extrema exigência dos trajetos aos quais o guia David os levava, pelo calor, pelas instalações nas quais dormiam que tinham parco ou nenhum conforto (mesmo que David sempre justificasse que não era uma viagem fácil, e que todos soubessem disso). Também sofreram com os recorrentes chamados de “Homem Branco”, sendo ele para as mulheres ou homens do grupo. A cultura do suborno cada vez mais presente quando se deixava o território do sul, para se aventurar no norte militarizado  e com frequente ameaça de guerra civil. Mas nada fez tanto mal quanto o frequente achaque de policiais e militares que não queriam nada mais do que prejudicar a vida de um estrangeiro, branco, que se aventurava por esporte nas suas terras.

O livro não é fácil de se ler, pois ele é um conjunto biográfico de vivências e impressões sobre um evento que muitas vezes não seria tão interessante, por ser unilateral. Porém, o texto trata sobre uma cultura que é extremamente pertinente, seja pela sua gigantesca influência mundial ou pela herança cultural. A cultura Africana é exótica e cheia de nuances, das diferentes influências que as colônias inglesas e francesas tiveram no povo, para a coexistência das religiões cristãs e islâmica com crenças tribais. As experiências dicotômicas de pessoas que viam o homem branco como um extraterrestre, para pessoas que o estimulavam e faziam com que a viagem se tornasse menos penosa pelas pequenas gentilezas que eram dirigidas aos ciclistas. O livro revela uma faceta diferente de um ícone do rock n’ roll, mostrando suas qualidades, falhas, crenças, particularidades e junto disso tudo, descortina uma cultura extremamente rica, que normalmente é ignorada frente a ocidentalização da cultura mundial

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Pedale com o roqueiro Neil Peart em uma extraordinária jornada de bicicleta por estradas de chão batido, encontros com milícias armadas e crises estomacais na África Ocidental dos anos 1990. Graças a esse meio de transporte – rápido para ir de uma cidade a outra em apenas uma manhã e lento o bastante para perceber a alegria das pessoas humildes pelo caminho – a longa jornada proporciona surpresas, choques culturais, momentos de fome, sede e conflitos internos. Este é o livro de estreia de Neil Peart, compositor do Rush, a lendária banda de rock canadense, publicado originalmente em 1996 e só agora traduzido no Brasil. O clássico indispensável para quem está disposto a viver, como o ciclista mascarado, uma emocionante e desafiadora aventura sobre duas rodas.

É colaborador – intruso – do Resenhando Sonhos.
Formado em publicidade e propaganda, especialista e mestrando em artes visuais, aprendiz de feiticeiro, astrólogo, cozinheiro e da casa Grifinória.