O Guardião Invisível – Dolores Redondo

O Guardião Invisível é o primeiro livro da trilogia Baztán, escrito pela espanhola Dolores Redondo. É lançamento de 2017 pela editora Planeta.

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SOBRE O LIVRO

Amaia Salazar é uma conhecida e bem conceituada inspetora de investigação da Polícia Flora de Pamplona, Espanha. Seus conhecimentos em perfis criminais a fazem se destacar no trabalho, e graças a sua passagem pelo FBI, nos Estados Unidos, possui uma carreira invejável. Porém, certa noite, Amaia acorda do seu descanso com um telefona: encontraram o corpo de uma jovem adolescente nua próxima ao rio Baztán. Ao chegar na cena do crime, sua mente ágil capta os mínimos detalhes e começa a traçar o possível perfil do criminoso.

Quando as primeiras pistas do crime foram analisadas, Amaia encontra ligação com outro assassinato que ocorrera alguns meses antes, e que havia sido atribuído ao ex-namorado da garota morta. O caso é reaberto pois, devido a similaridade dos dois crimes, seria impossível que ele, que até então estava preso, fosse novamente o assassino. Diante desse fato, a inspetora Amaia é promovida a líder de investigação e passa a comandar um time de policiais formados exclusivamente por homens.

“O assassino se inclinava sobre ela para pentear seu cabelo para os lados, separando perfeitas mechas douradas que praticamente escondiam seu peito nu. E ela procurava seus olhos, desesperada por encontrar piedade.”

Para acelerar a investigação, Amaia precisará voltar a cidade de Elizondo, onde os dois crimes aconteceram. Porém, há mágoas e segredos em seu passado que a atormentam naquele lugar e que ela insiste em esconder, mas que vão aflorar e a atormentar durante toda a investigação. Tendo que lidar com seu passado obscuro e com o conflito com sua irmã, Flora, Amaia encontrará evidências e provas nas cenas dos crimes que desafiam o seu senso científico e lógico.

Logo os boatos vão começar a se espalhar e muitas pessoas começarão a dizer que não foi um homem, mas sim, uma criatura mítica da mitologia basca que cometera os crimes. Amaia se sente cada vez mais confusa e vai precisar de toda a ajuda possível de sua equipe de investigadores para descobrir se de fato há um serial killer na região ou se tudo não passa de ataques do basajaum, o Guardião Invisível.


MINHA OPINIÃO

Eu sou daqueles leitores que não gosta de livros com capa de filme, mas confesso que neste em questão, eu gostei bastante. Aliada ao nome, a capa transmite uma aura de mistério e terror que despertaram o meu interesse pelo livro. Logo que li a sinopse, também fiquei curioso para saber mais sobre o tal basajaum e se era mesmo ele o responsável pelos crimes.

A história, narrada em terceira pessoa, acompanha os passos da inspetora espanhola Amaia Salazar, uma das únicas mulheres presente na Polícia Floral de Pamplona, quase toda formada por homens. Amaia é uma mulher decidida, focada e com uma mente muito brilhante. Seu casamento com James, um famoso escultor americano, é invejável por muitas de suas amigas e sua carreira se mostra promissora. Ainda que sofra com algumas gozações e preconceitos de seus colegas masculinos, a personagem mantém a cabeça firme e elevada, mostrando que não é fraca, nem mesmo inferior a eles.

Ainda que a personagem aparente ser forte em todos os aspectos, seu maior ponto fraco é o seu passado. Amaia nasceu no povoado de Elizondo, e quando criança, sofreu diversos traumas por parte de sua mãe. Sua vida aparentemente só melhorou depois que sua mãe foi internada com diagnóstico de transtornos mentais. Ainda que todos tenham compreendido a gravidade da situação, Flora, sua irmã, passou a culpá-la pela doença e desde então manteve rancor e distância. Se isso já não fosse o bastante, seu marido James a tem pressionado constantemente para terem um filho, algo que para a protagonista é impensável diante de todos os acontecimentos do seu trabalho.

“O mal me obrigou a voltar. Os fantasmas saíram dos seus túmulos, inspirados pela minha presença, e me encontraram.”

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A autora aproveitou boa parte do seu livro para tocar temas críticos como o preconceito e desvalorização das mulheres na sociedade. Por ser a inspetora chefe da seção de homicídios, muitos dos seus colegas homens se sentem incomodado em ter ela no cargo de maior destaque, e outros, como o inspetor Montes, não aceitam de forma alguma o fato de se submeter às ordens de uma mulher. É curioso ter essa questão abordada no livro pois, de fato, não é algo muito diferente do que ocorre na vida real.

Outro ponto também que a autora critica de forma muito pesada é o pensamentos machista de que se uma mulher ou garota está usando uma roupa curta, está diretamente se “oferecendo” ou “pedindo” para ser violentada. Em certo momento da história, um personagem comenta que o que aconteceu com as moças encontradas mortas foi por culpa delas, já que se maquiavam e andavam com roupas “apelativas”. Diante do comentário, tanto Amaia quanto suas tias recriminam o outro personagem, mas este continua afirmando que se uma mulher é morta ou estuprada, é porque se vestiu de forma inadequada e que atraiu aquilo para ela.

“Alguns pais acham que fazendo as filhas voltarem mais cedo as livram do perigo, quando o importante é que não voltem sozinhas. Ao fazerem com que voltem antes do grupo, são eles que as colocam em risco.”

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Porém, ainda que as críticas tenham funcionado super bem dentro da história e cooperado para a trama investigativa, penso que a autora pecou em alguns pontos da execução da obra. Por exemplo, as cenas que envolvem a busca por pistas e coleta de provas são bem curtas, e muitas vezes com várias descrições técnicas. Por outro lado, as narrativas onde são explorado o passado da personagem e de sua família são muito longas, e por várias vezes, cansativas. Mesmo que a explanação do passado da protagonista seja algo importante na história, ela consome grande parte da trama e poucas vezes faz a amarração entre os capítulos.

O basajaum também foi outro aspecto que acredito que a autora poderia ter explorado mais e melhor. No livro, ele é descrito como um humanoide com mais de dois metros de altura, com uma pelagem que lembra um urso e corpo forte e musculoso. É conhecido como senhor do bosque ou guardião invisível, pois preza pela pureza e tranquilidade das matas. Em outro momento é até comparado com o sasquatch ou Pé Grande, lendário ser místico que habita as regiões selvagens dos Estados Unidos. É um importante personagem da cultura basca-navarra, mas que praticamente não apareceu no livro. Sua presença se resumiu em grande parte à boatos e testemunho de um ou outro personagem dizendo que o viu. Talvez venha a ter uma importância maior no segundo ou terceiro livro da série, mas penso que sua inclusão neste primeiro deixou a desejar.

“Amaia sentira presenças tão evidentes naquele bosque que era fácil aceitar uma cultura druida, um poder das árvores acima do poder dos homens, e evocar o tempo em que naqueles lugares e em todo o vale a comunhão entre seres mágicos e humanos era uma religião.”

O final falta um pouco com as expectativas, mas no âmbito geral a experiência vale a pena. Além dos pontos que comentei antes, de ver a luta da personagem por reconhecimento e igualdade, e ver como sua mente funcionava, o livro me proporcionou conhecer outros aspectos da cultura espanhola, como seus seres místicos, crenças e fé. Sempre haverá algo em uma leitura que possamos retirar como um ensinamento ou aprendizado. Ainda não sei se vou continuar lendo a trilogia, mas confesso que estou bem curioso para ver a adaptação no cinema, que vai ser lançado em 2017.

O GUARDIÃO INVISÍVEL

Autor: Dolores Redondo

Editora: Planeta

Ano de publicação: 2017

O corpo de uma adolescente é encontrado às margens do rio Baztán, num pequeno povoado em Navarra, na Espanha, e para desvendar o caso a investigadora Amaia Salazar precisa voltar à sua terra natal, uma região da qual sempre tentou escapar – por motivos que nem seu marido conhece, mas que ainda a atormentam na forma de pesadelos.
Amaia sabe que o local, marcado pela inquisição espanhola, é cheio de velhas crenças pagãs. O que ela não imagina é que, com o avanço da investigação e a descoberta de novos corpos, a fronteira entre mitologia e a realidade ficará cada vez mais tênue. O desafio agora é descobrir se os crimes resultam da ação de um serial killer ou de uma criatura mítica conhecida como basajaun, o guardião invisível.

É colaborador do Resenhando Sonhos. Catarinense, Publicitário formado pela UNOESC, apaixonado por sci-fi, distopias e suspense policial. Fã de Arquivo X e Supernatural, sonha um dia encontrar os aliens.
  • Bruna Prata

    Algo bastante comum de se ver quando uma mulher lidera determinada coisa em vários setores da sociedade é o machismo. Não me recordo se já li algo em que uma mulher liderasse alguma coisa no departamento policiar, mas, terminei recentemente uma série onde uma mulher consegue virar delegada do departamento de homicidios, lugar com uma presença predominantemente masculina, Dá para adivinhar os diversos comentários, não?
    Tudo nesse livro me chamou atenção, gostei bastante da resenha!

    • Reinaldo José Nunes

      Oi Bruna *-*
      Imagino como deve ser, não sei se encaixa bem, mas Arquivo X foi uma das primeiras séries que trouxe a personagem feminina com elemento de maior destaque de uma série (Sem Scully a série não seria o ícone que é hoje, na minha opinião).
      Em livros policiais de fato não é muito comum ver mulheres como líderes, pelo menos também não lembro de outros livros que tenham esse destaque.
      Mas acho super válido, e as criticas que há no livro sobre esse aspecto também é algo super atual.

      Que bom que gostou da resenha, fico super contente *-*
      Beijos

  • Lili Aragão

    Oi Reinaldo, acho que terminei a resenha mais interessada no filme que no livro, pois a história pode ganhar mais agilidade na tela e os pontos negativos que vc citou podem não ter tanto impacto quanto na leitura. Contudo tenho que destacar que as criticas que ela faz na história são importantes e pertinentes, afinal é comum vermos homens revoltados por serem comandados por mulheres mesmo que a competência delas seja maior e o termo ” “pedindo” para ser violentada” sempre me causa revolta, é triste pensar que há pessoas que realmente pensam assim, que não se colocam no lugar do outro ou mesmo de seus parentes. A resenha tá ótima, mas me diz uma coisa, esse livro tem fim? vc disse que a autora pode falar mais do basajaum nos próximos livros?

    • Reinaldo José Nunes

      Oi Lili, pois é, de fato tenho mais interesse no filme também (pelo menos os trailers me convenceram mais do que a história lida em si).
      É esse comentário que a autora inclui na obra não é dificil de ver pela internet ou de pessoas mais “conservadoras”, que acreditam que se uma mulher foi estrupada é porque a roupa que ela usava estava incitando o caso ¬¬
      Sobre o final do livro, sim, há um final para a história, mas como é parte de uma trilogia, algumas coisas ficam para serem resolvidas no próximo, e acredito que no próximo a conexão do basajaum vai ser mais forte, porque neste primeiro ficou bem superficial a relação dele com os crimes e etc.

  • Kete Llyn

    Não gostei muito da capa, mas adorei a sua resenha, quando vi esse livro não dei atenção, mas agora sei que é um que acho que irei gostar e que sera uma boa leitura. Adorei e com certeza entra para a minha lista de desejados

    • Reinaldo José Nunes

      Oi Kete, que bacana saber que a resenha despertou seu interesse. Acho muito legal quando mesmo uma opinião negativa motiva leitores a conhecerem a obra. *–*
      Quando ler me conta o que achou? Beeijos

  • Lara Caroline

    Oi Reinaldo, tudo bem?
    Gostei bastante da proposta do livro, principalmente por abordar os temas como preconceito contra as mulheres. Não sei se eu conseguiria ler este livro sem me irritar, porque me sinto muito incomodada quando vejo situações de machismo, mas ainda assim é importante falar sobre o tema. Fiquei curiosa pela criatura que pode ser o assassino das jovens, e acho que ela deva ser melhor explorada nos outros dois livros.
    Beijos

    • Reinaldo José Nunes

      Ooi Lara, tudo certo e contigo?
      Que bom que gostou da proposta do livro *-* É de fato acredito também que a criatura será melhor explanada no livro seguinte, mas pena que esse deixou a desejar um pouco :/

      Beijos *-*

  • Gislaine Lopes

    Oi Reinaldo,
    A trama, inicialmente, chama bastante atenção, primeiro pela ambientação, pois li poucos livros que se passassem na Espanha (que é um país que tenho muita vontade de conhecer) e, segundo, pelo assassinatos. Mas a autora colocou muitos elementos na história e quase que não consigo encaixar o livro em um gênero, pois poderia ser um thriller policial, uma fantasia sobrenatural ou um livro sobre dramas familiares e preconceito, sobre como a mulher ainda tem que lutar com unhas e dentes pela igualdade e para ser aceita em uma sociedade, ainda, machista. Como se trata do primeiro livro de uma série, muitos pontos poderão ser aprofundados e melhorados nos demais volumes, tudo irá depender do rumo que a história irá tomar!

    • Reinaldo José Nunes

      Oi Gislaine *-*
      Também quero muito conhecer a Espanha ♥
      Pois é, o livro mistura três ou quatro gêneros num só, e deu maior prioridade para o drama (o que tira um pouco do mérito da história, pois o que queremos saber mesmo é sobre os crimes, não sobre o passado da personagem haha)
      Talvez eu continue lendo a série para ver no que vai dar hehe :p

  • Rissia Ribeiro

    Oi mano, eu não sei exatamente o que pensar desse thriller com uma pitada de fantasia, que por sinal eu procurei mais sobre a criatura mas só encontrei textos em espanhol o que não ajudou muito atender bem por isso obrigada pela explicação porque ajudou bastante. Eu confesso que fiquei bem surpresa ao ver que na verdade é uma trilogia, já que é um gênero meio policial eu não esperava que tivesse mais dois livros, vou procurar saber mais sobre o livro e obrigada pela resenha.

    • Reinaldo José Nunes

      Oi Rissia, tudo bem?
      Pois é, o livro não foi convincente quanto a criatura, mas deu pra ter usa base quando eles falam que se parece com o sasquatch.
      Realmente, não é esperado um livro de suspense policial ser trilogia, mas esse parece não seguir muito os padrões hehe

      Magina, eu que agradeço por ler a resenha e comentar nela *-*

  • rudynalvacorreiasoares

    Reinaldo!
    Apesar das ressalvas apontadas por você, fiquei super interessada, porque o enredo mistura um pouco de mitologia/fantasia com thriller policial e ainda aborda temas importantes como o empoderamento feminino em um ambiente a priori masculino, o preconceito, traz o passado que a protagonista quer esquecer, enfim, até aspectos familiares.
    Achei bem interessante e quero ler e ver o filme.
    Semaninha cheia de felicidade!!!
    “Não ganhe o mundo e perca sua alma; sabedoria é melhor que prata e ouro.” (Bob Marley)
    cheirinhos
    Rudy

    TOP Comentarista de MARÇO, livros + KIT DE PAPELARIA e 3 ganhadores, participem!

  • Marta Izabel

    Oi, Reinaldo!!
    Não conhecia esse livro. Mas que história interessante essa!! Fiquei bem interessante em conhecer mais essa história!! Também fiquei bem curiosa para ver a adaptação no cinema, pelo trailer que assisti parece que vai ser muito bom!!
    Bjoss

    • Reinaldo José Nunes

      Oi Marta, pois é, pelo trailer também achei a história mais interessante do que pelo livro em si hehe

  • Marta Izabel

    Oi, Reinaldo!!
    Não conhecia a história do livro mas achei bem interessante a premissa dele!! Também achei bem legal o trailer do filme.
    Beijoss