O Homem de Lata – Sarah Winiman

O Homem de Lata é um livro da autora Sarah Winman, seu lançamento é de 2018 pela Faro Editorial.

Sobre o Livro

Em uma Inglaterra sessentista acompanhamos a vida de dois garotos que se conhecem em circunstâncias complicadas e que a partir daí desenvolvem uma amizade capaz de tudo; que está presente nas pequenas coisas, que gira em torno da descoberta do outro e de si mesmo, até a necessidade de amadurecimento para lidar com as imposições da vida. Eles são diferentes em vários aspectos e se complementam de maneira única, nutrindo um amor que transita entre o fraternal e o romântico mas que, no fim das contas, prova não se importar com rótulos ou explicações desnecessárias. Eles sentem, e é isso que importa. Certo?

“Eu me solto e deixo a cabeça cair. Sinto-me destruído pela minha necessidade dos outros. Pela dança erótica da memória que se apodera de mim diante da solidão.”

Dividida em duas partes a narrativa conta a história desses amigos, de suas famílias, de pessoas que foram importantes e que deixaram suas marcas tornando-os  o exatamente quem são. Viajando através das décadas, alternando entre passado e presente se utilizando de memórias ou diários, o livro fala sobre amor, sobre a alegria, sobre a arte em suas diversas formas e a maneira que ela impacta em nossa vida… E fala também sobre o que fica, depois que tudo aquilo que amamos se vai.


Minha Opinião

Junto com Ellis, nesse livro, vamos viver uma verdadeira jornada de vida.  O jovem que se permitiu experimentar o amor, nas diversas formas em que ele se apresenta, vai também nos permitir desfrutar várias de suas vertentes: o amor romântico, que tem sede de corpos juntos e carícias intermináveis. O fraternal, com toda gentileza, conforto e carinho que são possíveis oferecer para aqueles que queremos bem. Ele sentiu também o improvável amor à primeira vista, aquele tipo de sentimento que nasce de uma certeza louca e absoluta de que aquela pessoa é simplesmente seu par perfeito. Para sempre. Mesmo que este lugar já seja ocupado por outro alguém. Com Annie e Michael ao seu lado, pessoas que vão adentrar sua vida, Ellis foi um homem que sentiu demais, que se permitiu viver tudo o que desejou… Até se transformar em uma casca.

Ellis já foi um menino curioso, retraído; um garoto que herdou da mãe o gosto pela arte e o talento necessário para se tornar  um artista importante. Ele já foi feliz, já compartilhou bons momentos com pessoas que amou e que foram importantes em sua vida. Hoje ele revive esses momentos apenas na memória, sem saber se toda aquela alegria de fato aconteceu ou se é tudo fruto de uma mente melancólica. A melancolia, aliás, é o sentimento que permeia toda a primeira parte desta narrativa, contada sob a perspectiva de um homem que já não vê sentido na própria existência.

“-Você é feliz, Ell?
Feliz?
Por Cristo! Você repete a palavra como se não soubesse seu significado.”

Já Michael sempre foi aquele tipo de ser humano capaz de iluminar qualquer ambiente. Ele irradiava energia, contagiava todos ao redor, era a alegria da festa quando não a própria festa. Dotado de uma sensibilidade que se aliava sabiamente a um humor sarcástico, irônico e por vezes sombrio, mudou a vida de todos que tiveram o prazer de conhecê-lo. As mudanças variavam de acordo com a pessoa que se permitia ser tocada por ele, que permitia ter por perto aquela força da natureza. É basicamente essa a construção que vamos fazendo deste personagem conforme a narrativa é contada através do olhar de alguém apaixonado, mas quando o ponto de vista se alterna e passamos a conhecer o outro lado da história, percebemos que estávamos certos somente até certo ponto. Michael é realmente tudo isso. Ouso dizer, inclusive, que ele é a alma deste livro. É aquele tipo de personagem capaz de cativar desde o começo. Mas nem sempre alegria é sinônimo de felicidade. E nem sempre a felicidade pode ser vivenciada ao lado das pessoas que amamos.

É através da leitura de diários que ele deixou que nós conhecemos o seu lado da história. Para onde foi? O que fez enquanto esteve longe de Annie e Ellis? O que, afinal, ele sentia pelos dois? Michael desnuda todos os sentimentos que ficam escondidos atrás da armadura que construiu para si, ele mostra ao leitor o lado frágil, inseguro e muito humano que existe em uma pessoa apaixonada… Ele fala sobre a força necessária para enfrentar, de cabeça erguida, as dores que nossa jornada impõe. Ele dá uma aula de sensibilidade quando fala de questões relacionadas à vida, a morte e sobre tudo aquilo que transita entre estes dois pontos, separados por uma linha tão tênue que às vezes é difícil enxergar.

“Mas era minha humanidade que me levava a procurar, só isso. Que nos leva a todos. A simples necessidade de pertencer a algum lugar.”

É através do olhar desses dois personagens que nós somos convidados a refletir sobre a vida e suas diversas possibilidades. Sobre a importância do amor, da arte, da amizade e da resiliência na existência de alguém. Durante a narrativa a gente sente que segura na mão dos protagonistas e vai junto com eles enfrentar os fantasmas que estão por ali, impedindo-os de seguir adiante. A gente se pergunta: Eles não sabem para onde ir? Não se sentem fortes o suficiente para continuar? Não são capazes de enxergar o que ainda fica, mesmo quando quase tudo se vai? E ao conhecê-los de maneira tão profunda, tal qual a autora propõe, a gente transporta essas perguntas para a nossa própria vida.

Esse foi, para mim, um dos melhores pontos desse livro. Não só os protagonistas cativantes, não só a história sensível ou o fato de temas importantes serem abordados com muito cuidado e assertividade; mas a possibilidade que eu tive de sentir, de maneira intensa, tudo aquilo que os personagens viveram e, a partir daí, questionar a minha própria existência.

E, gente, é tão incrível quando um livro é capaz de nos fazer sentir assim! É tão bacana quando uma história põe Heroes para tocar, na voz de David Bowie, te pega pelo braço e te mostra que um livro, mesmo que curtinho, pode ser muito mais do que papel, tinta e palavras escritas. Ele pode ser um presente, daqueles que a gente guarda no coração e leva para a vida. Leia o homem de lata. Leia o quanto antes.

O HOMEM DE LATA

Autor: Sarah Winman

Editora: Faro Editorial

Ano de publicação: 2018

Em 1963, Ellis e Michael eram dois garotos de doze anos que se tornaram grandes amigos. Durante muito tempo, sempre foram apenas os dois, andando pelas ruas de Oxford, um ensinando ao outro coisas como nadar, descobrir autores e livros e a esquivar-se dos punhos de seus pais dominadores. Até que um dia algo muito maior que uma grande amizade cresce entre eles. Mas então, avançamos cerca de uma década nesta história e encontramos Ellis, agora casado com Annie, e Michael não está mais por perto. O que leva à pergunta: o que aconteceu nos anos que se seguiram? Esta é quase uma história de amor. Mas seria muito simples defini-la assim.

Uma leitora frenética e inquieta, apaixonada por histórias fantásticas e com uma tendência a se deliciar com romances água com açúcar. Viciada em fotografias e gatos, é uma apreciadora das pequenas coisas e costuma ver beleza até onde não há.