O Labirinto dos Espíritos – Carlos Ruiz Zafón

O Labirinto dos Espíritos é o último livro da série do Cemitério dos Livros Esquecidos, de Carlos Ruiz Zafón. O título é lançamento de 2017 da editora Suma.

*Essa resenha contém spoilers dos livros anteriores

Sobre o Livro

Mauricio Valls desapareceu e, como ninguém quer que as pessoas saibam que o poderoso político desapareceu, Alicia Gris é contratada para investigar a situação. A jovem trabalha para um cara que conduz uma agência e que eventualmente atua junto com a polícia, mas tudo o que ela quer é sair dessa vida. Com um problema em decorrência de uma queda no seu passado, ela sofre com dores gravíssimas e também quer trilhar seu próprio caminho.

“Uma lenda é uma mentira concebida para explicar uma verdade universal.”

E, alguém que pode ficar muito interessado com esse desaparecimento (ou até ser considerado suspeito) é Daniel Sempere. Depois de descobrir que ele pode ter sido o responsável por assassinar sua mãe, ficou obssecado por saber mais sobre o homem, assim como tenta, sem sucesso, escrever um pouco de sua história. Enquanto isso, sua relação com Bea segue em frente e Julian está cada vez maior e mais esperto.

De forma muito astuta a vida de Gris e dos Sempere vai se cruzar, quando ela parte de Madrid para Barcelona seguindo o rastro de Valls. O que ninguém sabe é que há muito mais escondido por trás de algo que pode parecer simples, mas que vem tecendo a vida de muita pessoas ao longo dos anos.


Minha Opinião

Eu, sinceramente, não sei nem por onde começar essa resenha. Se eu me recordo bem, a primeira vez que eu li A Sombra do Vento eu tinha apenas 13 anos. De lá pra cá já se passaram quase 15 anos e mais duas leituras. Até bem pouco tempo atrás eu estava contentada em finalizar a história em O Prisioneiro do Céu, mas meu coração deu um grande salto quando O Labirinto dos Espíritos foi anunciado. Essa é uma das histórias da minha vida, que pra sempre, seguindo leitora ou não, eu vou mencionar e recomendar.

A história dos Sempere sempre conversou muito comigo, Daniel sempre foi um dos meus personagem favoritos e eu simplesmente não visualizava Zafón entregando uma história que superasse a do primeiro volume. Eis que eu estava enormemente enganada. Mesmo sendo o primeiro ainda o meu favorito, O Labirinto dos Espíritos é, sem dúvidas, o melhor livro da série e, ao meu ver também, do autor.

“A maioria dos mortais nunca chega a conhecer seu verdadeiro destino; simplesmente, somos atropelados por ele. Quando levantamos a cabeça e o vemos se afastar pela estrada já é tarde demais e temos que trilhar o resto do caminho pela valeta daquilo que os sonhadores chamam de maturidade.”

Se você está lendo essa resenha eu presumo que já tenha lido os demais volumes e saiba que há uma gama grande de personagens e teias que foram desenvolvidas nos outros livros. Aqui, o que o autor faz é costurar absolutamente todos esses personagens em algo só. Mesmo eu, que a pouco tinha feito a releitura, tive que puxar da memória algumas pessoas, porque tudo está incrivelmente conectado e de forma muito sagaz.

Quando eu li a sinopse pela primeira vez não fiquei contente em ter uma nova “protagonista” em cena, e confesso ter começado a leitura de pé atrás. Porém, logo após os primeiros momentos, já foi fácil entender porque ela está ali. Não é apenas uma inserção nova, há uma conexão forte, como sempre há. Além disso, mesmo sendo uma pessoa fechada e com seus altos e baixos, é alguém por quem conseguimos sentir e se relacionar. Ela tem problemas, sente dor, é atormentada, ao mesmo tempo em que é inteligente e destemida. Há vários momentos em que temi por ela e isso fez com que eu visualizasse o quanto já havia me afeiçoado à personagem.

“Uma história não tem princípio nem fim, só portas de entrada.”

Daniel também tem seus momentos e é incrível ver o quanto ele está diferente do menininho que foi pego pela mão pelo pai e levado ao Cemitério dos Livros Esquecidos há vários anos atrás. Nós, leitores, o vemos crescer, não só pela contagem de tempo, mas pelo amadurecimento de sua jornada, pelos tormentos e lembranças que ficaram marcados em sua alma, por tudo o que ele passou e o que ainda está por vir.

Uma das coisas que mais me conecta com a obra de Zafón é que suas narrativas são verdadeiras, suas criações são reais, palpáveis. Não há um único final feliz, porque a vida não é verdadeiramente feita deles. A gente vence um dia de cada vez sem perder as marcas do que já nos feriu, sem esquecer as lições do passado, sem ignorar que já vivemos um longo tempo e que aprendemos mais e mais em cada momento. Daniel pode não ser mais o menino inocente a quem eu fui apresentada no princípio de tudo, porém também não sou a Tamirez de 13 anos que o conheceu.

E, novamente diferente dos outros livros dele, o que temos aqui é outro jeito de contar essa trama. Enquanto A Sombra do Vento é sombrio, O Jogo do Anjo melancólico e triste, O Prisioneiro do Céu uma jornada com pitadas de humor, O Labitinto dos Espíritos é uma aventura investigativa realmente pelos olhos de alguém que vive de analisar pistas. E eu preciso dizer que também acho incrível? O quanto cada pedacinho dessa história passa por estilos diferentes e confere ao leitor sensações diferentes. E, também diferente dos outros, que reza a lenda, podem ser lidos separadamente, eu não recomendo de forma alguma que você pegue esse último sem ter passado pelos três anteriores.

“Meu nome é Isabella Gispert e nasci em Barcelona no ano de 1917. Tenho vinte e dois anos e sei que nunca vou completar vinte e três.”

Esse é um livro sobre a verdade. O que realmente aconteceu com cada uma das pessoas que amamos acompanhar. Qual a história de Isabella, sua ligação com David, os mistérios da família Sempere, os elos com os escritores malditos, o valor do cemitério dos livros esquecidos, o desaparecido Mauricio Valls, o irreverente Fermin, nosso adorado Julian Carax e o novo e pequeno Julian Sempere. Alias, esse último, que especial o que Zafón fez aqui. Se a história como um todo em sua magnitude não fosse o bastante, fomos presenteadas com as últimas dezenas de páginas com as quais eu chorei copiosamente, pelo peso e pela tristeza de me despedir, dessa vez de forma permanente. Que especial ver o quanto a mente desse autor deu voltas e voltas pra nos entregar algo lindo, emocionante e amarrado em cada ponta. Todos os nós foram desfeitos, todas as cartas estão na mesa e, junto com elas, o peso que cada uma representa sobre os personagens. Como eu disse, Carlos Ruiz Zafón não é conhecido por seus finais felizes, mas certamente ele sabe criar bem aqueles que ficam marcados na memória.

Foi uma jornada incrível! E eu sei que mesmo dando tchau agora, daqui a alguns anos vou voltar e reler tudo de novo e mais uma vez. Essa série de livros é preciosa demais pra mim pra ficar esquecida na estante. E eu, sinceramente espero que eu tenha convertido algumas pessoinhas em direção a esses livros desde que voltei a falar sobre eles. Porque compartilhar livros incríveis é algo muito especial.

O Labirinto dos Espíritos encerra a série do Cemitério dos Livros Esquecidos de forma maestral e deixa um vazio enorme no meu coração de leitora. Porém, valeu cada minuto passado junto a esses livros, compartilhando um pouquinho da vida com esses personagens. Espero que a jornada tenha sido bela pra vocês também . <3

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O LABIRINTO DOS ESPÍRITOS

Autor: Carlos Ruiz Zafón

Editora: Suma

Ano de publicação: 2017

Madrid, anos 1950. Alicia Gris é uma alma nascida das sombras da guerra,que lhe tirou os pais e lhe deu em troca uma vida de dor crônica. Investigadora talentosa, é a ela que a polícia recorre quando o ilustre ministro Mauricio Valls desaparece; um mistério que os meios oficiais falharam em solucionar. Em Barcelona, Daniel Sempere não consegue escapar dos enigmas envolvendo a morte de sua mãe, Isabella. O desejo de vingança se torna uma sombra que o espreita dia e noite, enquanto mergulha em investigações inúteis sobre seu maior suspeito — o agora desaparecido ministro Valls. Os fios dessa trama aos poucos unem os destinos de Daniel e Alicia, conduzindo-os de volta ao passado, às celas frias da prisão de Montjuic, onde um escritor atormentado escreveu sobre sua vida e seus fantasmas; aos últimos dias de vida de Isabella, com seus arrependimentos e confissões; e as intrigas ainda mais perigosas, envolvendo figuras capazes de tudo para manter antigos esqueletos enterrados.

É a criadora e autora do Resenhando Sonhos.
Gaúcha do interior do Rio Grande do Sul, hoje mora na capital Porto Alegre e quer conhecer o mundo.
Publicitária por formação, sonhadora por opção. É mal humorada e chata.