O Livro dos Espelhos – E. O. Chirovici

O Livro dos Espelhos é do autor E. O. Chirovici, lançado no Brasil em 2017 pela editora Record.

Sobre o livro

Peter Katz é um agente literário que recebe um e-mail curioso enviado por Richard Flynn. Neste e-mail Flynn envia parte de seu manuscrito para avaliação. A ideia deste livro surgiu não só pelo desejo de tornar-se um escritor famoso, mas porque  Flynn recordou de acontecimentos que mudaram a vida de diversas pessoas para sempre.

É neste manuscrito que ele relata sobre tudo o que viveu em Princeton, sobre seu relacionamento com Laura Baines e sobre o assassinato de um importante psicólogo, pesquisador e professor daquela universidade. Crime este que até então não foi solucionado, mas que as páginas prometem desvendar e revelar o culpado. Ou, talvez, os culpados.

“Sabe como é: você acha que esqueceu algo – um fato, uma pessoa, uma situação – e então, de repente, percebe que a lembrança estava jogada em um canto escondido da mente, e que ela sempre esteve ali, como se o episódio tivesse ocorrido ontem. É como abrir um armário velho, cheio de tralhas: é só tirar uma caixa do lugar que tudo cai em cima de você”.

Peter Katz lê o material e animado entra em contato com o autor para que ele lhe encaminhe o que falta do livro. Acontece que Richard Flynn morreu, e ninguém sabe absolutamente nada sobre a questão. O agente não se conforma com a possibilidade de não finalizar a leitura e também não quer perder a chance de fechar um grande negócio com o lançamento deste livro, por isso contrata um repórter investigativo, John Keller, para descobrir informações.

A partir deste momento o leitor se vê envolvido em uma trama que mistura diversas narrativas e embola muitos pontos de vista, de maneira que fica impossível saber o que é real ou ilusão, o que é verdade ou mentira. Até que ponto é importante continuar investigando e insistindo ou o momento certo de deixar tudo para trás e seguir em frente.


Minha opinião

Após ler a sinopse deste livro criei muitas expectativas. Gosto de suspense e aprecio demais quando ele está aliado a uma história que envolve questões psicológicas: transtornos, características de personalidade, traumas, mecanismos de defesa, enfim, todo um mundo relacionado à mente humana; e pensando nisso O Livro dos Espelhos pode ser um prato cheio.

Uma outra questão que chamou minha atenção e me prendeu à narrativa foi o fato de que nesta obra temos um livro dentro do livro, ou seja,  a princípio temos a história contada no manuscrito de Flynn, que dá ao leitor uma primeira perspectiva para observar toda a trama. Nesta parte nós descobrimos os personagens envolvidos – ou não – na tragédia. Temos uma ideia do Flynn como um pseudo escritor inseguro e que aos poucos desenvolve um relacionamento com a mulher com quem divide a casa, Laura Baines. Ela, por sua vez, é uma mestranda em psicologia, uma pupila do professor Wieder, uma mulher sedutora e que demonstra esconder muitos segredos. Ainda sob o olhar de Flynn, o leitor fica sabendo sobre os projetos obscuros de Wieder, e do quanto ele pode ser sedutor e manipulador para conseguir tudo aquilo que deseja. Além desses personagens conhecemos mais alguns que, de acordo com Flynn, não são relevantes para a trama. Será?

“Eu prefiro manter minhas lembranças, sabe, não importa o quão dolorosas sejam. Às vezes eu as uso como os católicos usam um cilício: eles são abrasivos e você os amarra em volta da cintura ou da coxa. Isso me ajuda a nunca se esquecer do que alguns seres humanos aparentemente normais são capazes, e que, às vezes, por trás das aparências se escondem monstros”.

A partir do momento que o manuscrito termina – praticamente pouco antes do final da obra – temos outros pontos de vista para levar em consideração.  O olhar do próprio Peter influencia o leitor, pois enquanto acompanha a escrita de Flynn ele elabora suas próprias teorias. E é justamente por conta dessas teorias que o repórter investigativo entra em ação. E quando ele chega o leitor precisa acompanhar a mesma história, mas sob outra perspectiva. Isso porque John Keller encontra diversas pessoas citadas no manuscrito, mas cada uma conta a sua própria versão dos fatos. Então aos poucos o leitor percebe que suas teorias, que talvez tenham sido influenciadas pelos questionamentos dos próprios personagens, perdem ou ganham força de acordo com o avanço da investigação de Keller.

Os mistérios se desvelam aos poucos, mas concomitante a isso outras perguntas vão surgindo. Essa característica do livro, de revelar e esconder em igual medida tem tudo para ser fantástica, pois é capaz de prender o leitor na história e deixar os sentimentos de ansiedade e angústia atrelados à leitura.  Conforme a narrativa avançava eu me via envolvida de fato num emaranhado de informações que muito se assemelhava a uma sala de espelhos, como o próprio livro sugere. Sabe aquela atração nos parques em que a gente entra em uma sala com diversos espelhos ao redor, cada um mostrando um reflexo diferenciado – alto, baixo, gordo, magro, desfocado e etc – mas sem deixar uma certeza de que algo ali é real? Essa é a sensação que o livro passa durante toda a leitura.

Dividido em três partes, cada uma com um ponto de vista diferente, a gente vai colhendo informações durante a leitura e especulando o que de fato aconteceu naquele período nebuloso. Eu imaginei uma coisa, mas acabei me decepcionando quase totalmente com a explicação dada pelo autor. Senti como se tivesse sido enganada e levada a pensar em algo completamente errôneo. A verdade é tão mais simples. Tão mais clichê. Aquela verdade que você descobre logo no começo do livro, mas que por ser tão fraca e fútil prefere pensar que não pode ser isso.

“Tive a sensação de estar tateando no escuro, num sótão cheio de coisas velhas, sem conseguir entender o real significado dos objetos que foram largados ali ao longo dos anos por pessoas que eu não conhecia e sobre as quais não fui capaz de descobrir nada de realmente significativo”.

É possível que esse ‘me sentir enganada’ tenha sido justamente a ideia do autor? É claro que sim. Não duvido que esse livro tenha sido escrito levando em consideração justamente o fato de enrolar e enganar o leitor, fazendo com que pensemos em teorias diversas, passando assim toda a leitura naquela expectativa para o desfecho. Essa é uma possibilidade que faz sentido, pois é exatamente isso que o livro faz: prende a atenção, faz o leitor criar teorias e aumentar as expectativas a cada virar de páginas. Mesmo assim, isso não foi suficiente para me fazer gostar do livro. Eu esperava mais, eu queria mais, principalmente por achar que essa obra tem recursos diversos para dar um fechamento digno de um thriller psicológico de primeira categoria.

Mesmo assim, indico o livro. Não gostei porque criei expectativas, isso não significa que outros leitores se sentirão de maneira semelhante, pelo contrário. É possível que todo o envolvimento que a história propõe seja suficiente para esse livro se tornar um cinco estrelas favoritado. Então, se você busca uma trama complexa, confusa e instigante, este livro é uma opção.

O LIVRO DOS ESPELHOS

Autor: E. O. Chirovici

Editora: Record

Ano de publicação: 2017

Quando o agente literário Peter Katz recebe por e-mail um manuscrito parcial intitulado O livro dos espelhos, ele fica intrigado. O autor, Richard Flynn, descreve seus dias em Princeton, e documenta sua relação com Joseph Wieder, um renomado psicólogo, pesquisador e professor. Convencido de que o manuscrito completo vai revelar quem assassinou Wieder em sua casa, em 1987 — um crime noticiado em todos os jornais mas que jamais foi solucionado —, Peter Katz vê aí sua chance de fechar um negócio de um milhão de dólares com uma grande editora. O único inconveniente: quando Peter vai atrás de Richard, ele o encontra à beira da morte num leito de hospital, inconsciente, e ninguém mais sabe onde está o restante do original. Determinado a ir até o fim neste projeto, Peter contrata um repórter investigativo para desenterrar o caso e reconstituir o crime. Mas o que ele desenterra é um jogo de espelhos, uma teia de verdades e mentiras, e uma trama mais complexa e elaborada que a do primeiro lugar na lista de mais vendidos dos livros de ficção.

Uma leitora frenética e inquieta, apaixonada por histórias fantásticas e com uma tendência a se deliciar com romances água com açúcar. Viciada em fotografias e gatos, é uma apreciadora das pequenas coisas e costuma ver beleza até onde não há.