O Navio Arcano – Robin Hobb

O Navio Arcano é o primeiro livro da trilogia Os Mercadores de Navios-Vivos da autora Robin Hobb. A publicação é de 2017 pela editora Leya.

Sobre o Livro

Entre os mercadores de Vilamonte, navegantes de longa data, o maior prestígio é ter um navio-vivo acordado. Feitos da rara madeira arcana, direto dos Esmos Chuvosos, é preciso que três gerações da família a qual ele pertença morram em seu convés para que desperte e sempre é necessário que alguém do sangue esteja a bordo.

A família Vestrit possui Vivácia, há uma morte de despertar, porém, a vida de Ephron Vestrit está por um fio, e enquanto tenta se recuperar, colocou seu cunhado Kyle no controle do navio, navegando ao lado de sua filha mais nova, Althea. Ela sempre navegou junto do pai e quer carregar o legado como herdeira, não entendendo porque ele o passou a Kyle, marido de sua irmã e um homem que conduz as coisas de forma bem diferente e que a descredita completamente como marinheira.

Em outro lugar Kennit, capitão do Marietta, anseia por glória e por algo ainda mais difícil de conseguir, um navio-vivo para chamar de seu. Como eles são adquiridos de forma secreta, custam caríssimo e só obedecem a família a qual pertencem, arrumar um para si não é nem de longe uma tarefa fácil. Porém, como bom malandro que é, acredita que dará um jeito.

Enquanto Althea luta para manter as coisas no caminho certo com sua família e balança entre querer que Vivácia desperte, mas que seu pai também viva; Kennit começa a tramar para alcançar seus objetivos; e um garoto entregue ao sacerdócio tem sua sorte mudada por decisões que ele não tem controle.


Minha Opinião

Eu me tornei uma admiradora da obra da Robin Hobb quando li sua outra trilogia, a Saga do Assasino, composta por O Aprendiz de Assassino, O Assassino do Rei, A Fúria do Assassino, todos já resenhados por aqui. Essa segunda trilogia se passa dentro do mesmo universo, mas em outra parte do mundo, não sendo necessário ter lido a outra. Entretanto, os Seis Ducados são mencionados aqui, e dentro do mundo da autora, ela intercala as séries que envolvem o Fitz (três, até o momento), protagonista da primeira trilogia, com outras duas que não o envolvem, sendo Os Mercadores de Navios-Vivos uma delas. Ao total, são cinco séries que coexistem e se completam.

Primeiro preciso dizer que piratas e navegação marítima são algo completamente novo pra mim em livros de fantasia. A enormidade das coisas que li se passa em terra firme e em alguns casos já explorei os céus, porém nunca os mares. E, como foi incrível desbravar esse novo cenário e aprender dentro do contexto exposto aqui. São vários nomes, terminologias, situações e ramificações em alto mar, que são belamente descritos por Robin Hobb. Ao fim de O Navio Arcano eu praticamente conseguia me enxergar parada em meio ao convés com todas as movimentações ao redor.

Aliás, acho que esse é um ótimo ponto para começar a descrever o quanto a escrita da autora está bela. Há passagens incríveis e reflexões magníficas. E, mesmo que não haja nada demais acontecendo, há trechos em que parece que vocês está lendo poesia, de tão bonita que são as descrições e a condução das palavras escolhidas. E, mesmo esse não sendo uma leitura mega fluída e suas mais de 800 páginas cobrarem seu tamanho, não há com rejeitar a história ou não ficar curioso para saber onde tudo isso vai dar.

“Ter consciêcia de um feitiço é a proteção mais forte contra ele, qualquer que seja.”

Se tem algo que Hobb sabe fazer muito bem é criar expectativa para coisas que já prevemos há tempos. Sabe quando você sabe o que vai acontecer e mesmo assim fica ansiosíssimo sobre aquilo? Então. E não estou dizendo que a trama é previsível em seu todo, mas há alguns pontos onde é sim possível compreender onde aquilo vai dar, o que não é previsível são todas as voltas que a história ainda vai dar pra chegar até lá.

São quase dois anos que se passam entre o começo da narrativa e seu fim. Os personagens evoluem, as navegações são demoradas, há uma série de pequenas situações que vão costurando a narrativa central até termos uma teia de acontecimentos que não podem mais ser desvinculados. E, há um grande mistério aqui. Há uma parte do livro que vemos pelos olhos de Serpentes Marinhas, que buscam algo, seguem algo, farejam algo.

Além disso, há uma discussão bem importante sobre a escravidão, já que os navios de escravos são uma realidade aqui. Há um comércio fortíssimo e uma desumanidade que desponta pela forma como eles são transportados e tratados ao longo da jornada. E, claro, de até que ponto vai a influência, o poder e, porque não, os sentimentos de um navio-vivo, que fala, pensa e age em prol da família que o detém, mas que consegue se vincular a uns mais forte que a outros.

“Mulkin conseguia se lembrar de coisas, tinha memórias de um tempo anterior a tudo o que estavam vivendo.”

Sobre os personagens, digo que fui da admiração à pena, e dela ao rancor e dele novamente a algo que ainda não sei o que é no que diz respeito a Althea. Ela é um tipo de pessoa muito vívida que vai através do momentos, reagindo às situações, fardada do privilégio e se dispindo dele, encontrando coragem, voltando a fraquejar, voltando a ter algo a subir a cabeça, depencando de novo. A jornada dela é uma montanha russa. Enquanto isso, Kennit foi uma surpresa. Achei que ele seria um vilão, e até tem atos nesse sentido, porém, meu apreço pelo personagem foi crescendo, pois ele é astuto, inteligente e capcioso. Tenho certeza que ainda há muito por vir.

Preciso deixar um adendo aos meus dois favoritos: Brashen e Estalão. O primeiro era imediato de Ephron, mas foi rebaixado pelo novo capitão, porém ele vai crescendo dentro da história e se torna uma peça importante e por vezes engraçada. Já Estalão é um navio-vivo que está encalhado depois de ter feito muitas viagens e ter retornado vazio sem ninguém a bordo. Alguns dizem que ele enlouqueceu e outros estão de olho em sua madeira. Os diálogos dele com as pessoas que vão ter com ele são ótimos e podemos compreender um pouco mais sobre a natureza desses ” seres”.

A Vivácia era um navio-vivo. A quilha tinha sido entalhada 63 anos antes, uma longa viga de madeira arcana.”

Mesmo eu já tendo caminhado por esse mundo, essa parte é completamente desconhecida pra mim. São novas lendas, novas formas políticas. Temos muitas ilhas que são governadas por uma certa autoridade, mas que também se auto administram com regras diferentes. Há a ameaça da destruição das tradições com uma onde de novos navegadores, há a escravidão, a incerteza e aquele bom e velho mistério sobre um dezena de elementos que estão aplicados nessa história.

O Navio Arcano foi uma leitura deliciosa, mesmo que lenta. Pra quem é fã de fantasia assim como eu, é uma recomendação com certeza. Desbravar essa história proporciona ao leitor uma aventura e tanto, e que está apenas começando!

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O NAVIO ARCANO

Autor: Robin Hobb

Editora: Leya

Ano de publicação: 2017

Robin Hobb retorna, numa nova trilogia, “Os Mercadores de Navios-Vivos”, ao universo ficcional conhecido como o Reino dos Antigos. Nesse primeiro volume, O navio arcano, Robb faz referências a clássicos como Moby Dick e Mestre dos mares para conduzir o leitor por uma aventura marítima repleta de magia, contando a história de um orgulhoso grupo de famílias que navega por mares bravios repletos de piratas e serpentes, a bordo do seu protagonista: os seus navios-vivos – embarcações raríssimas e mágicas feitas de madeira-arcana, capazes de adquirir vida própria. Com personagens muito bem caracterizados, tanto física quanto psicologicamente, Robin Hobb tece uma trama envolvente e complexa, que seduz o leitor a cada página.

É a criadora e autora do Resenhando Sonhos.
Gaúcha do interior do Rio Grande do Sul, hoje mora na capital Porto Alegre e quer conhecer o mundo.
Publicitária por formação, sonhadora por opção. É mal humorada e chata.