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O Vermelho e o Negro – Stendhal

O Vermelho e o Negro foi publicado em 1830 em meio a “Restauração Francesa”, por Henri Beyle e assinado sob o pseudônimo de Stendhal. O livro recebeu uma nova edição no Brasil pela editora Nova Fronteira em 2018.

SOBRE O LIVRO

Esta é a história de Julien Sorel, o filho caçula de um carpinteiro que vive em Verrières, um pequeno distrito de Besançon, importante centro político e econômico da França. Os irmãos do garoto seguiam a profissão do pai e acabaram se tornando assim como ele, homens ásperos e de certa forma insensíveis, o que fazia do caçula, que vivia em um mundo de fantasia junto aos livros, um inútil e fracassado.

Ao contrário dos sentimentos que experimentava junto da família ele encontrava certo conforto ao ter aulas com o vigário da região, que lhe ensinava tudo o que havia para saber sobre temas bíblicos e educacionais, sendo de certa forma, seu protetor. Além do interesse pela ficção e pelas histórias bíblicas, Sorel gostava particularmente das histórias com pano de fundo militar, principalmente aquelas que retratavam os feitos de seu maior ídolo: Napoleão Bonaparte.

“Os objetos têm uma escala, digam o que quiserem, em que o coração humano ocupa o primeiro lugar.”

Dotado de uma cultura e inteligência incomuns ele acaba sendo convidado a ser preceptor dos filhos do prefeito, após uma negociação financeira entre o pai e seu futuro patrão.  Inicialmente, o garoto não recebe de forma positiva a notícia que lhe causa a impressão de ter sido “vendido” pelo pai. No entanto, a vida em outro local acaba lhe fazendo bem e despertando sua astúcia e perspicácia e é claro, por ser tão inteligente, ele acaba conquistando a confiança daquela família, e principalmente as atenções da esposa do prefeito.

Alguns acontecimentos acabam levando o rapaz até Paris, e é em meio as suas aventuras e desventuras que vamos acompanhar a trajetória desse jovem ambicioso, inteligente, rancoroso e de caráter um tanto duvidoso.


MINHA OPINIÃO

É difícil falar de um livro tão completo e não ter a sensação de estar deixando algo escapar. Podemos dizer que a verdadeira história começa já no prefácio onde seremos apresentados a Henri Beyle (Stendhal), descrito como um homem de muito talento, mas que teve uma vida conturbada a ponto de deixa-lo perturbado de certa forma. A morte da mãe quando ele ainda era uma criança e um ambiente familiar complicado acabaram por influenciar na formação de sua personalidade, o que é colocado também para o nosso protagonista, Julien.

Pode-se dizer que a narrativa tem um “Q” auto biográfico e acredito que esta seja a cereja do bolo, o que fez com que o autor fosse capaz de construir e desenvolver um personagem ao qual ele já conhecia há tanto tempo. O que Stendhal procura trazer para o seu romance são personagens criados à semelhança das pessoas reais com quem conviveu, de si próprio e daqueles a quem nunca chegaria a conhecer, pessoas reais com sentimentos e atitudes reais, que são capazes de cativar e incomodar aos outros e, agora, aos leitores.

“Quando passamos de um sentimento a outro ordinariamente, é sem saber por quê, e pelas causas mais frívolas; a alma é cambiante, e o próprio homem dez vezes por dia se desmente e se desconhece.”

Quanto ao protagonista, pode-se dizer que ele é o retrato de um jovem criado em um ambiente pouco hospitaleiro, onde o pai o rejeitava por ser franzino e sem talento para a carpintaria, enquanto enaltecia os filhos mais velhos por serem à sua semelhança, verdadeiros brutamontes. É claro que os maus tratos físicos e psicológicos acabaram por fazer do garoto um rancoroso e contribuindo para a formação de seu caráter duvidoso. Formando um link com essa questão está um ponto interessante durante a narrativa: a vontade de Julien de se tornar padre. Apesar das diversas vezes em que ouviu do vigário que aquele não era o seu destino e, de fato não ser, os diálogos que ele trava não só com o seu mentor mas consigo mesmo a respeito da religião e da vocação para o celibato são interessantes e reflexivos.

Outra personagem extremamente bem desenvolvida é a Senhora de Rênal, a esposa do prefeito. Uma mulher para a qual nada se dá, e nada de interessante parece poder fluir de tamanha ingenuidade e inocência e, apesar de possuir tino para a vida política do marido e ser ela quem de fato tem as melhores ideias para sua carreira, nunca foi valorizada. O romance que se desenvolve entre ela e o protagonista faz com que possamos conhecê-la  melhor, o que nos mostra como alguém a quem não atribuímos grandes feitos pode nos surpreender.

A questão política do livro gira em torno da admiração de Sorel pelo líder francês, Napoleão Bonaparte, a quem a maioria dos franceses àquela época repudiavam e ele ao contrário, atribuía enorme devoção e verdadeira paixão. Acompanharemos suas leituras sobre seu herói, sua convivência com as batalhas e mais tarde um posto político do jovem em Paris.

Apesar de ser um clássico histórico e um romance de formação, a leitura se desenvolve de maneira fluída e num piscar de olhos já estamos com saudades de acompanhar as peripécias amorosas, políticas e internas de Julien Sorel.

O VERMELHO E O NEGRO

Autor: Stendhal

Editora: Nova Fronteira

Ano de publicação: 2018

Publicado em 1830, O Vermelho e o Negro é apontado como um dos pioneiros do realismo mundial. Nesta obra-prima, Stendhal nos apresenta Julien Sorel, um humilde carpinteiro cheio de ambições, entre as quais integrar o Exército de Napoleão. Seu sonho, no entanto, cai por terra junto com o império napoleônico. A partir daí, sua luta pela ascensão é impulsionada por um misto de engenhosidade, carisma e hipocrisia, o que de fato faz com que Sorel passe a viver com a burguesia e a aristocracia. Nesse novo mundo, sua vida se transforma em uma torrente impelida pelo amor, pela traição e pelo espírito de vingança.

É resenhista do Resenhando Sonhos.
Estudante de Direito, 21 anos, mineira, mora em Belo Horizonte e ama o universo literário.