Otelo – William Shakespeare

Otelo é do consagrado autor William Shakespeare e foi publicado em 2017 pelo selo Penguin da Companhia das Letras.

Sobre o livro

O general Otelo, um mouro cristianizado, é conhecido por suas diversas vitórias e façanhas em batalhas. Apesar dos prestígios, ele não é visto por todos como um dos seus. Ele se enamora da jovem Desdêmona e casa com ela em segredo, isso gera revolta no pai da moça que cobra satisfações de seus superiores alegando que ele enfeitiçou a sua filha.

Entretanto, a paixão dos dois é mais forte que isso e eles acabam por dar continuidade a essa união. O que o mouro não imagina é que ele possui um inimigo dentro do seu círculo de convivência. Iago, seu alferes, possui grande inveja e, sabendo do ciúmes que o general tem de sua esposa, aproveita para arquitetar uma vingança. Ele insinua por diversas vezes que Desdêmona tem um caso com Cássio, o seu tenente e amigo. E além disso, arma diversas situações para despertar a ira de Otelo.

“Senhor, fique tranquilo. Se eu o sigo, é para servir-me às custas dele. Nem todos podem ser mestres, nem todo mestre pode ser realmente seguido. Há lacaios, desses bem prestativos que dobram os joelhos, tão contentes na sua serventia solícita que, feito asnos do amo, destroçam a vida só por uma ração.”

Em meio a tantas falsidades e armações, grandes tragédias se desenrolarão e o futuro desses personagens é incerto. Muitas serão as reviravoltas existentes nessa trama. E veremos o que o ciúmes exacerbado pode causar nas vidas das pessoas, principalmente na de uma mulher.


Minhda opinião

Otelo, o mouro de Veneza, foi escrito por volta de 1603. Conhecido por muitos por carregar uma história de ciúmes e traição, mostra o quanto esses sentimentos podem enlouquecer uma pessoa e levá-la a cometer atos abomináveis. No começo, temos uma lista de personagens, onde apresentam cada um, e ajuda a nos situar na narrativa. Eu só conhecia essa história em partes, nunca havia lido todo o livro. Além disso, temos uma introdução feita pelo tradutor, uma fala de W. H. Auden e, assim como em Hamlet, notas sobre o texto e tradução que ajudam – e muito! – o leitor.

“Fique de olho, Mouro, seja minucioso, quem enganou o pai pode enganar o esposo.”

O livro já começa em meio a um conflito e aos poucos vamos descobrindo quem é quem e quais suas histórias e motivações. Iago revela-se desde o começo o pior tipo de pessoa. Disfarçado de amigo, sempre solícito, mas pronto para apunhalar as pessoas quando elas menos esperam. Ele é aquele tipo de vilão que odiamos desde o primeiro momento. Dissimulado e cheio de lábia para levar na conversa quem ele quer. Ele observa seus oponentes, descobrindo suas fraquezas, para utilizá-las como forma de adquirir aquilo que deseja para si. E, se já não bastasse toda a sua engenhosidade, ele também conta com a sorte e ajuda daqueles que também querem se beneficiar dessa tragédia.

Além disso, temos todo um contexto histórico retratado e questões referentes à época. Apesar de Otelo ser um general valoroso para os seus, ele ainda não é completamente aceito por causa de sua origem. Mostrando que por mais que ele realize diversas conquistas e seja uma pessoa confiável, a sua cor continua sendo vista como inaceitável. E a sua união com Desdêmona é questionada, como se ela não fosse capaz de amá-lo por vontade própria, mas sim por um feitiço.

“Nobríssimos mestres meus, bons e veneráveis. É verdade, eu roubei a filha desse ancião, é bem verdade. E me casei com ela também. Foi essa a escala, o tamanho do meu delito – e nada mais. Minha fala é rústica e pouco agraciada com obrando fraseado da paz, pois desde o ardor dos sete anos até nove lugas gastas aqui, meus braços foram usados em ações valorosas nos campos, nas tendas, e pouco desse ancho mundo posso falar salvo das façanhas no tropel das batalhas.”

Acredito que ele ame Desdêmona, mas acho que existem problemas que precisam ser expostos. Por mais que ele seja um guerreiro, acostumado com campos de batalha, não podemos deixar de desaprovar seu comportamento com ela. De maneira rude e violenta quando suspeita de sua traição. É claro que entendo o contexto em que a obra foi escrita, mas é impossível deixar passar esse tipo de situação, principalmente por lembrarmos o que as mulheres aguentavam apenas por serem mulheres e serem tratadas como meros objetos. Lembrando – mais uma vez – que Shakespeare não retrata apenas sua época com essas histórias, pois ainda vemos situações desse teor na nossa época. Por isso, será que não devemos questionar que algo tão antigo continue sendo lei hoje em dia? Acho que ainda há muito a se pensar.

“Cuidado, senhor, com o ciúme. Ele é um monstro de olho verde que vive a escarnecer da carne que o nutriu.”

É triste perceber o que o ciúmes leva uma pessoa violenta a fazer. O quanto ele cega pessoas mais propensas a dúvidas. Otelo é uma história que pode nos levar a diversos debates, principalmente por seu final, que seguindo outros tantos outros finais do autor, é extremamente trágico e triste. Essa mulher submissa e essa sociedade machista me incomodam muito, mas o que mais me incomoda é saber que mesmo depois de tantos anos pouca coisa – ou quase nada – mudou. Ainda temos mulheres sofrendo por ciúmes de companheiros, ainda temos pessoas se aproveitando dessas situações para incitar o ódio em outras e ainda temos muito que lutar para que esse tipo de situação deixe de existir.

Convido você a conhecer essa história, mas já alertando para as cenas fortes que você encontrará aqui. Ao terminar esse livro espero que você debata e analise tudo o que encontrou e o quanto continuamos por esse caminho da violência e intolerância. Minha única ressalva foi a capa, que não achei das mais bonitas, enquanto a de Hamlet ficou lindíssima. Mas, fora isso, o conteúdo e tradução estão impecáveis. Recomendo!

OTELO

Autor: William Shakespeare

Tradutor: Lawrence Flores Pereira

Editora: Penguin Companhia

Ano de publicação: 2017

Em Veneza, Otelo, um general mouro à serviço do Estado, conquista Desdêmona, uma jovem, filha de um nobre local. Após enfrentar a ira do pai e defender-se com sucesso contra a acusação de tê-la “enfeitiçado”, ele parte a Chipre em companhia da esposa para combater o inimigo turco-otomano. Lá, seu alferes, o manipulador Iago, consegue paulatinamente instilar na mente do mouro a suspeita de que Desdêmona o traiu. Otelo é a tragédia em que Shakespeare estudou os mecanismos da imaginação, da paixão e do ciúme. Em nova tradução de Lawrence Flores Pereira, que recria a linguagem grandiosa de Otelo e a prosa nefasta de Iago, esta nova edição é acompanhada de uma longa introdução e notas contextuais do tradutor, bem como de um ensaio de W. H. Auden.

 

 

 

 

É colaboradora do Resenhando Sonhos.
Natural de São Sepé, atualmente morando em Santa Maria.
Formada em Gestão da TI pela URCAMP e cursando Produção Editorial na UFSM.
Apaixonada por livros, Johnny Cash e cachorros.