Pokémon Go

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Eu sempre admirei a Nintendo, isso não é segredo para ninguém. Sempre achei que os jogos da Nintendo eram, sei lá, providos de uma alma que por exemplo eu não via em suas concorrentes. Apesar disso, meu primeiro vídeo game foi um Dynavision, lá nos anos de 1994. Vídeo game que não durou muito, pois na mesma hora que ganhei eu o derrubei e ele estragou.

O Pokémon, por sua vez,  é uma criação da Nintendo, e desde sempre foi um universo a parte, onde primeiramente em 1995 os japoneses se deliciavam em capturar, treinar e batalhar com seus monstrinhos, em um paraíso nipônico. Como vocês já devem ter visto vários exemplos, as séries japonesas são um sucesso no Brasil, anos depois do seu lançamento. Com o Pokémon não foi diferente.

Eu lembro de eu e meus colegas, crianças recém chegadas ao novo milênio embasbacados com aqueles 150 monstrinhos colecionáveis e fantásticos, que víamos na TV. Logo fiquei aficionado, e fazíamos competições de quem sabia os nomes de todos os pokémons, quem sabia suas habilidades de cor e como utilizar em batalha, como evoluir e etc… Cheguei ao ponto de inventar pokémons para eu ter aquele pokémon diferente, que ninguém tinha, um tipo de busca a um status de mestre pokémon na pequena cidade.

Lembro que eu tinha um caderno onde eu desenhei, a punho, todos os 150 pokémons, com seus nomes e suas habilidades. Caderno este, que não durava muito, dada a frequência com que eu e os meus amigos o folheávamos em nossas febris conversas de quem venceria quem em uma batalha pokémon. Veio a era dos pokémons nos salgadinhos, e a guerra em casa para comer a maior quantidade possível para conseguir o prêmio dentro da embalagem: tazos, plaquinhas ou mesmo miniaturas dos nossos monstrinhos fantásticos. Jogávamos “bafo” no recreio enquanto algumas meninas nos olhavam com desprezo. Gastei sem piedade todo o pouco dinheiro que eu conquistava cortando grama, comprando revistas que dissertavam sobre os pokémons e suas habilidades.

Cresci, e numa tentativa vã de assumir a maturidade, dei o meu caderno dos pokémons para minha prima. Como se nesse ato eu pudesse abdicar de uma paixão tão profunda. Não poderia ter me enganado mais.

Hoje, com quase 30 anos, ainda lembro de cor os nomes de boa parte dos 150 pokémons, e com orgulho, alguns da segunda geração. Mas o Pokémon sempre fez parte de um universo a parte, que as vezes eu visitava na internet, as vezes no Game Boy ou Nintendo 64, e até nos emuladores de celular. Um universo que infelizmente não era o meu. O que eu não daria para um dia sair de casa, colocar o boné para trás assim como o Ash Ketchum e ir por aí desafiando os Ginásios da Liga Pokémon, seja ela Índico ou Johto.

Então a Niantic e a Nintendo lançam o tão esperado Pokémon Go, que realizou não só o meu sonho, mas o de milhões de pessoas pelo mundo, ao tornar o nosso mundo habitado por pokémons. E realmente tem sido um barato andar e descobrir, que com os óculos da tecnologia eu finalmente consegui ver os Pokémons que antes eu não podia ver. Basta levantar o celular, para que no meu caminho para o trabalho eu, corriqueiramente, encontre um Pikachu, um Bulbasauro, ou até, quem sabe, um Mewtwo?

Para muitas pessoas pode até ser um jogo idiota, mais uma distração talvez. Mas para mim é a materialização de um mundo que só existia na minha imaginação e que agora, divide essa dimensão comigo. Agora, eu posso ser o mestre pokémon que eu sempre quis ser. Agora eu posso provar o meu valor, na expertise que eu consegui em quase 20 anos de espera.

Mas o Pokémon Go, vai muito além disso. O jogo, originário da Nintendo, vai muito além do penso de qualquer empresa de games do mundo. Simplesmente por pensar além do simples jogo. As pessoas estão saindo pras ruas, marcando encontros, indo aos parques, conversando, interagindo e trocando informações. Estão andando, praticando atividade física e saindo de casa para chocar seus ovos pokémon. Há matérias sobre crianças autistas, que passaram a desenvolver a interação com outras pessoas através da justificativa de capturar pokémons. A Nintendo, com a ajuda da Niantic, não criou um jogo, mas revolucionou novamente a indústria dos jogos. Criando um jogo que interage com os pontos turísticos da cidade, estimula a atividade física e a interação entre as pessoas, ao contrário de sentar em casa e jogar por horas a fio sem sair do lugar. Agora, para ser um mestre pokémon, você precisará se aventurar e realmente descobrir onde os pokémons estão. Tudo isso, sob a prerrogativa fantástica de transformar o seu caminho corriqueiro, em um espaço lúdico onde também habitam os monstrinhos mais fantásticos de todos os tempos.

Eu, sedentário, acordei hoje mais cedo e decidi fazer o caminho pro trabalho a pé: capturei três pokémons. Pode ser que eu esteja contando a minha história, mas tenho certeza que ela se repete em cada esquina desse mundão.

É colaborador – intruso – do Resenhando Sonhos.
Formado em publicidade e propaganda, especialista e mestrando em artes visuais, aprendiz de feiticeiro, astrólogo, cozinheiro e da casa Grifinória.