Sempre Vivemos no Castelo – Shirley Jackson

Sempre Vivemos no Castelo foi por muito tempo considerado um dos maiores suspenses psicológicos de sua época. O livro foi escrito pela autora californiana Shirley Jackson e serviu de inspiração para autores como Stephen King, Neil Gaiman e outros. Em 2017 ganhou uma nova edição pela Suma de Letras.

SOBRE O LIVRO

A Blackwood é uma família muito rica que construiu sua própria fortaleza, um castelo que um dia já foi movimentado, mas que agora carrega apenas a sombra de um passado avassalador. Apesar de já ter sido uma família grande, os Blackwood são atualmente compostos por três membros: o cadeirante adoentado tio Julian e suas sobrinhas: Mary Katherine e Constance.

Após Constance ter sido acusada de um crime horrível, a relação dos moradores do vilarejo com a família, que já era ruim, piorou e agora os três vivem reclusos em seu castelo. Apesar de ter sido absolvida, a menina vive com medo dos habitantes e do que ainda pode assombrá-la.

“Eu sempre pensava em putrefação  quando me aproximava da fileira de lojas; pensava em uma putrefação preta, ardente e dolorosa que corroía por dentro.. Era o que eu desejava ao vilarejo.”

O equilíbrio conquistado pela família parece mantê-los a salvo, até a chegada do primo Charles, que parece ter vindo para estragar tudo. Mas Mary não vai permitir que ele estrague tudo que ela conquistou  e fará de tudo para proteger o que sobrou de sua família – o que pode levar a inesperadas atitudes.


MINHA OPINIÃO

Sempre vivemos no castelo foi o último livro publicado pela autora em 1962, antes de sua morte em 65.  Algumas pessoas da época especularam o fato de ela própria ter sido uma pessoa reclusa com as características de seus personagens descritos nessa obra, o que se realmente aconteceu, foi uma maneira brilhante de demonstrar alguns aspectos ao mundo.

Falando inicialmente da família Blackwood, desde o início fica claro que nunca tiveram uma boa relação com os demais habitantes do vilarejo e que sempre tiveram a necessidade de se proteger. Após a morte da maior parte da família e com a acusação de Constance, vendo-se sozinha com um tio doente e uma irmã assombrada pelo passado a menina carinhosamente chamada de Marricat se sente uma provedora da família, tanto emocionalmente quanto materialmente, já que ela é a única pessoa que sai da casa para fazer compras no vilarejo.

“A gente come o ano inteiro, e espera alguma coisa brotar, e come.”

Se tivermos que caracterizar esta obra de alguma forma, podemos dizer que ela trata a todo tempo, do medo e da forma estranha com que as pessoas reagem a ele. Cada personagem tem seus próprios medos… Constance sofre de uma fobia que a impede de sair de casa, Marycat é uma menina extremamente peculiar que tem delírios, podendo ser considerada em uma linha tênue entre neurótica e esquizofrênica.

“Queria que todos vocês estivessem mortos, pensei. E tive a ânsia de dizer em voz alta.”

O grande trunfo do livro são esses delírios, ela é uma personagem extremamente bem construída que tem desejos sociopatas para lidar com a culpa, o medo e a histeria coletiva. Apesar de ser complexa, como é também e, acima de tudo a nossa narradora, somos influenciados e levados a sentir o que ela sente e concordar com ela, apesar de seus pensamentos ruins, sendo extremos entre o amor incondicional e o ódio, tornando a obra seca e ao mesmo tempo poética.

O livro é dividido em duas partes, podendo a primeira metade ser considerada como uma preparação, onde tudo é exposto de maneira devagar e entre linhas, enquanto na segunda parte somos levados ao clímax de tensão e angústia. Apesar de a autora não nos entregar a história de bandeja, desde a primeira metade do livro o leitor já consegue imaginar quem matou, ou quem fez o que.

Para dizer pouco e ainda assim esperar que todos leiam este livro, digo que fui arrebatada por cada momento e cada aspecto, por mais peculiar e sombrio que fosse. Este não é um terror, mas um suspense psicológico de revirar a cabeça do leitor, fazendo com que ele reflita sobre o lado mais sombrio dos seres humanos o que os leva a ser como são.

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SEMPRE VIVEMOS NO CASTELO

Autor: Shirley Jackson

Editora: Suma de Letras

Ano de publicação: 2017

Merricat Blackwood vive com a irmã Constance e o tio Julian. Há algum tempo existiam sete membros na família Blackwood, até que uma dose fatal de arsênico colocada no pote de açúcar matou quase todos. Acusada e posteriormente inocentada pelas mortes, Constance volta para a casa da família, onde Merricat a protege da hostilidade dos habitantes da cidade. Os três vivem isolados e felizes, até que o primo Charles resolve fazer uma visita que quebra o frágil equilíbrio encontrado pelas irmãs Blakcwood. Merricat é a única que pressente o iminente perigo desse distúrbio, e fará o que for necessário para proteger Constance. ‘Sempre vivemos no castelo’ leva o leitor a um labirinto sombrio de medo e suspense, um livro perturbador e perverso, onde o isolamento e a neurose são trabalhados com maestria por Shirley Jackson.

É resenhista do Resenhando Sonhos.
Estudante de Direito, 20 anos, mineira, mora em Belo Horizonte e ama o universo literário.