Severina (2017) | Crítica

Temos aqui, Severina, um filme brasileiro/uruguaio, com roteiro e direção por Felipe Hirsch e produção de Rodrigo Teixeira, que está sendo roteirista na adaptação do livro O Sol na Cabeça, de Geovani Martins, lançado recentemente pela Companhia das Letras. Há rumores de que esta é uma adaptação fiel de um romance homônimo de Rodrigo Rey Rosas, que, infelizmente, ainda não foi publicado no Brasil. Também temos uma trilha sonora muito boa, composta por Arthur de Faria, que se fez capaz de nos imergir ao drama.

Com uma fotografia simples, carregada de cores frias, mas muito delicada até em suas mais horripilantes cenas, temos Carla Quevedo dando vida a Ana, e Javier Drolas dando vida ao “R”. Ambos não têm um histórico filmográfico extenso, nem muito conhecido, com exceção do filme Medianeras (2011), onde Javier também foi um dos protagonistas. O currículo curto nada impediu esses atores, e quaisquer outros que também tiveram certa participação no longa, de nos entregar uma ótima execução de seus papéis, e assim como qualquer outra questão técnica, a atuação, por óbvio, também foi primordial para termos uma obra de qualidade, bem como bastante verossimilidade à história.

Este é o filme mais livro que você verá, pois ele tem toda uma produção esquematizada que faz parecer que estamos ouvindo um audiobook com imagens, além de ser todo dividido em capítulos, como os livros. Porém, para os amantes da leitura, o filme, por mais fiel que possa ser ao livro, não cessa a nossa vontade/curiosidade de fazer a leitura; por outro lado, para quem não sente necessidade de ler após ter assistido ao longa, ainda assim, se sentirá bastante satisfeito, pois temos aqui um ótimo trabalho não advindo de Hollywood, para variar.

Severina nos contará então a história de um homem, “R”, dono de uma livraria, que se vê obcecado por uma pseudo cliente, Ana, que parece achar completamente normal furtar livros, já que ela realmente os lê, hábito quase extinto numa sociedade que prefere fazer qualquer coisa a ler um livro. Porém, o hábito não é exclusivo, uma vez que a garota já tem fama de ladra entre algumas outras livrarias da cidade. O interesse dele por essa bela mulher – qual realmente compartilha uma paixão em comum – é tanta, que faz com que ele não se importe com as obras que diariamente vem perdendo; e quando ele decide encurralá-la, está mais interessado em puxar assunto com a garota do que dar um basta naquela situação.

Ana acaba entrando naquela brincadeira do flerte junto com o homem que, mais uma vez, não é exclusivo, pois a garota tenta seduzir os donos das livrarias assim que eles a descobrem. Para R, pouco importa se ela está com outras pessoas ou se já teve o mesmo tipo de relação, pois ele crê que se verdadeiramente se empenhar nessa relação, ela gostará dele e irá querer viver ao seu lado… para sempre. Por ter esse pensamento, ele acaba fazendo coisas absurdas por ela; coisas que qualquer pessoa em sã consciência jamais faria. E isso faz com que o espectador pare de torcer pelo casal, pois existe tudo naquela relação, menos amor. É uma relação tão doentia que você só quer que acabe e ponto!

O filme também proporciona a sensação de acharmos que “R” só está se sujeitando a todas aquelas atrocidades para escrever sua nova história, pois há muito tempo não se via inspirado. Ana trouxe o que ele precisava, mas até que ponto um escritor faz tudo por suas histórias? Respondendo a essa pergunta, digo logo, “não sei”. Não sei o que os escritores são capazes de causar a outrem em detrimento de suas obras, mas garanto que esse pensamento traz uma sensação bastante angustiante.

Severina, em especial, nos chama atenção justamente por esse fator angustiante supracitado. Nos é entregue um desfecho, mas a interpretação é dada de bandeja a nossa imaginação, que fica responsável por nos guiar por qual caminho queremos nos forçar à acreditar: será tudo aquilo fruto da imaginação fértil do nosso querido e enferrujado escritor, “R”, ou seria ele um louco capaz de qualquer coisa por um livro bastante… peculiar?

SEVERINA

Diretor: Felipe Hirsch

Elenco: Carla Quevedo, Javier Drolas, Alejandro Awada e mais

Ano de lançamento: 2017

Um conto de amor obsessivo. O dono de uma livraria é logo enredado no mistério de Severina: sedutora e enigmática, de nacionalidade incerta, ela rouba livros. Como em um sonho, o homem desorientado considera que a borda fina entre o racional e o irracional não é mais confiável.

Apaixonada por livros desde que me entendo por gente, me infiltrei aqui no Resenhando Sonhos para poder falar dessa paixão desenfreadamente (sem ser julgada).