À Sombra do Meu Irmão – Uwe Timm

À Sombra do Meu Irmão é do autor alemão Uwe Timm e foi lançado no Brasil em 2014 pela editora Dublinense.

Sobre o Livro

Uwe Timm, autor da obra, ainda muito pequeno viu seu irmão Karl-Heinz, aos 19 anos de idade, se alistar voluntariamente para lutar junto a divisão SS nazista. A curta trajetória do filho dourado da família Heinz, que morreu lutando na Ucrânia, deixou marcas profundas no pai, mão e claro, no próprio Uwe.

Nesse livro, muitas décadas depois da morte do irmão, ele conta através da apresentação e analise das cartas que Karl enviava e do diário que o irmão escreveu durante seu período em batalha, e que lhes foi devolvido junto com os pertences, o pouco que sabe sobre o que aconteceu no front e o quanto isso pode ou não ter mudado o irmão.

“De vez em quando sonhos com meu irmão. Na maioria das vezes são apenas fragmentos de sonhos, algumas imagens, situações ou palavras.”

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À Sombra do Meu Irmão traz o ponto de vista de uma família alemã sobre o que aconteceu, como eles encaravam a política nazista, o que a guerra lhes custou e todas as cicatrizes que ela deixou no pós guerra, quando esse povo orgulhoso de sua pátria viu os americanos e ingleses patrulhando suas ruas e trazendo seus costumes. Além, é claro, do confronto e impacto de descobrir o que realmente acontecia nos fronts de guerra e todo o tratamento dado aos judeus nos campos de concentração.

Minha Opinião

Por algum motivo que não sei explicar, tudo o que diz respeito à 2ª Guerra Mundial me chama a atenção. Gosto de acompanhar as histórias e saber sobre o que aconteceu, mesmo com todo o horror envolvido. Acho que é importante que compreendamos o que se passou naquela época para que jamais seja permitido que aconteça novamente. Porém, sempre me vi observando a história do outro lado, pelos olhos dos judeus, e pensando como foi possível que o povo e os soldados alemães não se opusessem ao que acontecia.

À Sombra do Meu Irmão traz exatamente isso, o ponto de vista de uma família alemã que perdeu o filho de ouro para a guerra e que só realmente percebeu tudo o que vinha acontecendo e os horrores dos fronts de batalha e campos de concentração depois que a guerra acabou. Ao mesmo tempo em que se confrontavam com a perda do filho e as barbáries praticadas pelo seu povo, também precisavam suportar “os invasores” americanos e ingleses circulando entre eles e impondo nos culturas.

“Uma geração inteira viu como lhe tiraram a autoridade política , militar e ideológica e respondeu ofendida, de uma forma orgulhosa e persistente. Mais tarde, com o começo da guerra fria, as forças de restauração foram recobradas, mas, nos primeiros anos depois da guerra perdida, a ânsia pelo poder existiu somente em casa, na esfera privada. E voltava-se contra a cultura do vencedor.”

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A princípio achei que o livro seria sobre a sombra que esse jovem deixou no irmão, mas conforme fui lendo percebi que ela se estendia a toda a família, de formas diferentes. O pai perdeu o filho de ouro, aquele em quem depositava o futuro de seu negócio e de sua linhagem; a mãe perdeu o filho do meio, o menino introspectivo que adorava se esconder e que, apesar da personalidade arisca, sempre lhe tratou com amor; a irmã mais velha, sempre muito excluída pelo pai perdeu aquele que recebeu todo o amor; e o jovem Uwe cresceu à sombra de algo que ele nunca conseguiria alcançar ou substituir, já que todas as expectativas do pai nunca estiveram voltadas pra ele.

Ao invés de questionar os pais e a irmã sobre como se sentiam, o autor esperou para que ao escrever o livro colocasse nele somente a sua interpretação sobre os fatos, sem a influência de ninguém. Com isso, o que temos sobre cada uma das partes é a visão desse filho que herdou nas costas uma herança que não pediu. O receio dele com o pai e o amor pela mãe são coisas bem visíveis no livro. Seu pai nunca foi o mesmo e consequentemente isso refletiu na forma como tratou o filho remanescente, enquanto a mãe se manteve amorosa até o seu último dia.

“É difícil compreender como foi possível separar ou reprimir a compaixão durante o sofrimento, como ocorreu essa divisão entre o que é desumano em casa e o que é desumano na Rússia. Como longe de casa o assassinato de civis era uma coisa normal, corriqueira, sem ter o valor necessário para ser citada uma única vez, enquanto que, em casa, significava a morte.”

Além do problema com o pai é bem difícil captar os sentimentos do livro, já que a narrativa se apresenta de forma bem introspectiva. Karl sempre foi um garoto quieto e que gostava de se esconder em seu próprio mundo, sendo seu alistamento uma grande surpresa. Porém, mesmo seus diários são curtos e secos, fazendo com que seja quase impossível compreender exatamente o que o jovem passou ou sentiu enquanto cumpria seu dever.

O livro é escrito em uma narrativa contínua, sem divisão de capítulos e sem manter uma linha temporal constante. Isso acabou deixando a leitura um pouco cansativa, mesmo a obra contendo apenas 150 páginas. Mesmo assim, por ser um livro pequeno, proporciona que seja lido rapidamente.

Conhecer todos os pontos de vista de uma história real é sempre importante para que possamos alcançar uma melhor compreensão sobre o assunto. Lendo esse livro descobri que os alemães confiavam muito em seu governo e na grandeza do seu país. Mesmo depois, após descobrir tudo e se confrontar com os horrores, não foi fácil abandonar o orgulho de ser alemão e de se perguntar se não havia algum mal entendido. O questionamento de como eles não viram aquilo acontecer se responde ao perceber que, devido a toda a confiança que depositavam em sua pátria, cegavam-se ao que de errado acontecia. Não é uma justificativa, mas serve para entendermos um pouco mais sobre o assunto.

À Sombra do Meu Imão foi uma leitura diferente e esclarecedora em vários aspectos. A todos aqueles que gostam de ler sobre esse período ou se interessam pela temática, eis aqui uma oportunidade de ver as coisas por um outro ângulo e acrescentar um pouco mais de esclarecimento a uma época tão triste da nossa história.

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Usando como matéria-prima um diário escrito a lápis pelo irmão no front, suas próprias lembranças e a trajetória familiar, Uwe Timm constrói um mosaico peculiar de registros documentais, memórias afetivas, sentimentos e reflexões que buscam responder suas próprias dúvidas: quem era esse irmão? Por que se alistou? Foi obrigado a matar? Realmente não tinha opção? Como se pode errar tanto assim? Por que todos fecham os olhos e se calam?

 

É a criadora e autora do Resenhando Sonhos.
Gaúcha do interior do Rio Grande do Sul, hoje mora na capital Porto Alegre e quer conhecer o mundo.
Publicitária por formação, sonhadora por opção. É mal humorada e chata.
  • Josiane

    Adorei conhecer um pouco mais do livro através da sua visão. Fiquei ainda mais instigada pela trama.Espero poder conferir a história em breve.

  • Ilana Rafaely

    Também sinto isso de que coisas relacionadas a segunda guerra mundial chamam a minha atenção. Eu nunca tinha pensado pelo lado alemão nessa guerra e só pela resenha me fez pensar o quão desesperador deve ser você confiar em um governo e depois ver que ele não era como você imaginava. Quero poder ler esse livro logo

  • Daiele

    Oi Tami
    Concordo cegamente ao que vc diz, que mesmo sendo historias horrorosas e desumanas, devemos sim ler, estudar, e tentar entender um pouquinho da grandiosidade de tudo isso. Não consigo ver o fato de os alemães darem como justificativa uma simples “cegueira” por conta do amor e a confiabilidade na pátria em tudo o que aconteceu. Talvez pq vemos de fora, não consigamos mesmo entender como isso foi tão longe.
    Mas tbm acho interessante esse ponto de vista do outro lado da historias, sem serem dos judeus. Mas ao mesmo tempo, nao vejo essa uma historia do ponto de vista alemão para o caso do Holocausto em sim, mas sim para uma familia que perdeu um soldado. Quero um dia poder ler uma historia, não ficticia ou ficticia sobre isso no ponto de vista alemão. Seria realmente interessante tentar entender a mente deles…

  • ADRIANA HOLANDA TAVARES

    Tami, ao contrário de você eu meio que fujo dos livros com temática de Segunda Guerra, não sei porque acho que por se tratar de algo tão denso e tão dramático e doloroso eu não gosto! Achei a capa bonita e muito simples, extremamente clássica, e a sinopse é muito bonita, pois fala sobre a relação entre pai e filho (isso é bem gostoso de se ler). Também fico um pouco incomodada com o fato de não haver uma linha do tempo para o livro, isso me desanima muito a ler!

  • Lara Caroline

    Na boa? Assim como você, eu por alguma razão que também não sei explicar adoro histórias e tudo relacionado a Segunda Guerra Mundial. Este tema me causa tantas emoções que eu nem sei descrever. Quando a este livro, COM TODA CERTEZA me interessou e entrou para minha lista de desejadissimos. PS: sua gata é muito linda *-*

  • viviane baptista

    Eu gostei bastante da resenha e tambem ja estava muito ansiosa para ler esse livro pois adora o assunto da segunda guerra mundial e principalmente agora que temos uma visao de uma familia alema em vez de um judeu ou comunistas.

  • Bruna Prata

    Compartilho da sua opinião de que tudo da Segunda Guerra Mundial me chama a atenção, mas sou muito fraca para esse tema, fico bastante sensitiva, adoro a jorrada de emoções. Mais um livro adicionado a listinha.

  • Thaina Nunes da Silva

    Não me sinto muito bem lendo livros sobre a 2ª Guerra Mundial , sei a importancia da historia para a nossa sociedade , mas esse livro não é para mim .

  • Bárbara Branco

    Gosto bastante de livros que abordam a temática da Segunda Guerra Mundial. É interessante ver a abordagem de cada lado em relação ao assunto. Seria um livro pelo qual eu poderia me interessar.