Suicidas – Raphael Montes

Primeiro livro do autor brasileiro Raphael Montes, Suicidas foi originalmente publicado em 2012 e relançado com um capítulo extra nesta edição em 2017 pela Companhia das Letras.

SOBRE O LIVRO

Aparentemente, nove amigos, em idade universitária e em situação financeira confortável e privilegiada, se reuniram em uma casa de campo da família de um deles e se suicidaram, em uma espécie de roleta-russa. Porém, ao contrário da roleta russa tradicional, a ideia dessa versão parece ter sido que todos os nove morreriam: nove balas, nove suicidas.

“A grande verdade é que estávamos desgastados. A cada tiro morria a própria vontade de morrer.”

O que a narrativa irá revelar, no entanto, é que nada é o que parece. O que realmente aconteceu no porão daquela casa? Quais foram os eventos que levaram aquelas pessoas àquele momento? Estão todos ali de fato com a mesma resolução em se suicidar ou há planos ocultos sendo movidos nas entrelinhas?


MINHA OPINIÃO

Três linhas narrativas, uma em terceira pessoa, no “presente”, comandada por uma delegada e pelas mães dos jovens falecidos, tentando chegar à verdade por trás do mistério acerca da roleta-russa; duas escritas, na maior parte pelo mesmo personagem: um diário, encontrado na sua casa, que conta os eventos que levaram até o momento da viagem e da roleta-russa e no “livro”, um caderno escrito à mão, preenchido durante a roleta-russa, que conta essa parte da história. Os capítulos são intercalados, de modo que demora um pouco para entendermos todas as relações ali presentes, mas, ao mesmo tempo, isso é o que torna também a leitura tão instigante.

Isso porque quando certos aspectos dessa história começam a ser revelados e começamos a entender melhor o propósito da reunião que ocorre no tempo presente, assim como os motivos que levaram cada um a aceitar a proposta da roleta-russa. E, depois que as primeiras pistas são dadas, a nossa cabeça já começa a querer encontrar respostas em cada gesto, em cada frase, em cada detalhe.

“Aqui está o ser humano plenamente dotado de livre-arbítrio. Não há regras. Não há limites.”

Esse é o tipo do livro que não dá para discutir muito a fundo, em termos de história, pois quase tudo são revelações que ocorrem aos poucos e seria Spoiler discuti-las aqui. Então, nesse sentido, vou apenas dizer que eu gostei bastante da forma como o final foi sendo preparado. O autor vai entregando aos poucos a história para nós e, mesmo que seja possível adivinhar uma parte dele, existem aspectos que foram, para mim, bastante surpreendentes.

A única dificuldade que eu tive com o livro foi a visão relativamente estereotipada dos seus personagens. Todos os jovens envolvidos são, no mínimo, de classe média, quando não ricos mesmo, e tanto eles quanto seus pais são uma certa versão de um estereótipo.  Embora tenhamos que considerar que o autor busca aqui, por um lado, ser realista quanto a uma determinada parcela da sociedade e, por outro, escrever pela perspectiva de um personagem específico, esse é um ponto problemático no livro. Está longe de ser um grande problema, mas acaba fazendo com que, por mais que queiramos descobrir o que realmente aconteceu, não nos importamos muito com essas pessoas. É difícil chegar a ter empatia por elas.

“Estou aqui, disposto a morrer por isso. Por minha loucura.”

Esta nova edição é linda e conversa muito bem com duas partes muito importantes do livro: o caderno através do qual boa parte da história é contada e a arma utilizada na roleta-russa. Sem contar que a adição do novo capítulo complementou muito bem a história, principalmente para quem prefere livros mais fechados, onde os eventos são devidamente explicados.

É um livro que pode ser um pouco complicado de navegar no início, por conta das diversas linhas temporais, mas que acaba se tornando um prato cheio para os fãs de romance policial e de suspense, onde o autor sabe como guardar e como relevar seus segredos. Tem algumas cenas fortes e bem explícitas, que podem não ser para o estômago de qualquer um, mas o leitor corajoso é bem recompensado.

SUICIDAS

Autor: Raphael Montes

Editora: Companhia das Letras

Ano de publicação: 2017

Antes que o mundo pudesse sonhar com o terrível jogo da baleia azul, que leva jovens a tirar a própria vida, ou que a série de televisão Thirteen Reasons Why fosse lançada e se tornasse o sucesso que é hoje, Raphael Montes, então com 22 anos, já tratava do tema do suicídio entre jovens, com a ousadia que virou sua marca registrada. Em seu primeiro livro, que a Companhia das Letras agora relança acrescido de um novo capítulo, conhecemos a história de Alê e seus colegas, jovens da elite carioca encontrados mortos no porão do sítio de um deles em condições misteriosas que indicam que os nove amigos participaram de um perigoso e fatídico jogo de roleta russa. Aos que ficaram, resta tentar descobrir o que teria levado aqueles adolescentes, aparentemente felizes e privilegiados, a tirar a própria vida.

Escritora, mestre em Filosofia, mas, acima de tudo, apaixonada por livros. Carioca com preguiça de praia, gosta mesmo de uma tarde aconchegante na companhia de um livro e uma caneca de chá gigantesca.