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The Florida Project (2017) | Crítica

Indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante, Willem Dafoe interpreta Bobby, gerente de um hotel em Orlando que, apesar de receber alguns turistas ocasionais, acaba sendo utilizado prioritariamente como moradia permanente por pessoas sem condições de manter sua própria casa.

Uma dessas pessoas é Halley, uma jovem mãe solteira presa entre o desejo de se divertir e viver plenamente esta juventude, e a necessidade de sobreviver de bicos e até pequenos golpes para prover não só para si, mas também para sua filha, Moonee. As suas escolhas, sob um aspecto moral, podem ser questionáveis para nós, mas seu amor e vontade de dar a melhor vida possível para a sua filha, diante das suas difíceis circunstâncias, é inegável.

Em meio a tudo isso, Moonee, em uma atuação incrível de Brooklynn Kimberly Prince, a grande protagonista do filme, é uma criança que toma a sua realidade e a transforma em algo mágico, lúdico e de uma felicidade que só a infância permite. Com uma forte pegada pestinha e abusada, Moonee é uma personagem completamente irresistível ao se mostrar como a infância que luta para sobreviver a um contexto que parece querer obriga-la a crescer cedo demais.

Além de contar com excelentes atuações, um dos principais trunfos é o quanto sua fotografia e estética contam, em si, uma história. Com forte uso de tons pastéis, especialmente do lilás, e com uma série de referências ao fato da história se passar em uma Orlando que opera às sombras dos parques Disney, poderíamos assistir o filme no mudo e ainda assim sairíamos dele pensando sobre o efeito de estar à sombra do mundo perfeito que a Disney representa. Um mundo onde só entram, no entanto, aqueles que tem certo status social e financeiro, o que não é nem de longe o caso de nossos personagens. Até o nome do filme, “The Florida Project”, é uma referência à Disney, cujo primeiro nome, quando estava sendo idealizada pelo Walt Disney, era justamente esse.

Vejo esse filme muito como uma declaração de amor à infância e, ao mesmo tempo, uma provocação aos brinquedos caros e ao Glamour de locais como os parques da Disney. Pois Moonee nos mostra o quão pouco precisamos para ser felizes e o quão danoso pode ser permitirmos que nossas prioridades, enquanto indivíduos e enquanto sociedade, sejam deturpadas.

É uma história linda, comovente e que, mesmo em seus momentos mais tristes e pesados, consegue, de alguma forma, nos encher de amor e de esperança, mesmo quando insiste em ser fiel à realidade. O subtítulo do cartaz, “Find your kingdom” [Ache seu reino] representa muito bem, para mim, o sentimento que este filme nos passa; é uma história sobre encontrar aquele espaço mágico, lúdico, na sua vida e torná-lo seu. Toda vida, por pior que seja, permite espaço para encontrarmos nosso reino. Só precisamos saber como.

O filme foi exibido originalmente no Brasil, em 2017, durante o Festival do Rio, mas desde o dia 1º de março voltou a ser exibido, dessa vez em circuito nacional. Imperdível! Principalmente para aqueles que, como eu, sempre quiseram ter oportunidade de assistir a um filme que consegue mesclar seriedade, humor e delicadeza em um longa sobre a infância.

PROJETO FLÓRIDA

Diretor: Sean S. Baker

Elenco: Brooklyn Prince, Willem Dafoe, Bria Vinaite e mais

Ano de lançamento: 2017

Moonee (Brooklynn Prince), uma agitada garotinha de seis anos, apronta com o vizinho Scooty (Christopher Rivera) e faz novas amizades nas redondezas dos parques Disney. Ela vive com a mãe (Bria Vinaite) numa hospedagem de beira de estrada e as duas contam com a proteção do gerente Bobby (Willem Dafoe) na batalha diária pela sobrevivência com poucos recursos e muitos riscos.

Escritora, mestre em Filosofia, mas, acima de tudo, apaixonada por livros. Carioca com preguiça de praia, gosta mesmo de uma tarde aconchegante na companhia de um livro e uma caneca de chá gigantesca.