Todo o Dinheiro do Mundo (2018) | Crítica

John P. Getty foi o homem mais rico do mundo nos anos 60 e é até hoje um dos homens mais ricos que já viveu. Em 1973, Paul Getty III, um de seus netos, foi sequestrado pela máfia italiana e Getty se recusou a pagar qualquer valor no resgate. Todo o Dinheiro do Mundo acompanha a batalha de uma mãe contra o império do sogro para conseguir recuperar a vida de seu filho, neto do homem mais rico do mundo.

O filme é dirigido por Ridley Scott (Blade Runner, Alien, Gladiador) e estrelado por Michelle Williams, Mark Wahlberg e Christopher Plummer – com este elenco sob o comando de Scott, as expectativas sobem. Baseado no livro Painfully Rich: The Outrageous Fortunes and Misfortunes of the Heirs of J. Paul Getty, o filme acompanha os acontecimentos durante o período em que o jovem esteve sequestrado e pincela a história da família de Getty.

A película nos apresenta John P. Getty – repetidamente nomeado o homem mais rico do mundo – uma figura famosa da história dos Estados Unidos, que é brilhantemente representado por Christopher Plummer (lhe rendendo uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante). Getty é o homem opulento e luxuoso que vem à mente quando imaginamos o 1%, um velho que até consegue ser carinhoso com sua família, mas que não esconde que seu bem mais precioso é sua fortuna. E isso não muda quando Paul, seu neto de 17 anos, é sequestrado: o valor máximo que Getty está disposto a pagar pelo resgate do neto é U$ 0,00.

Quando o sequestro acontece e a polêmica se põe em movimento – o acontecimento obteve cobertura da mídia mundial -, Gail, a mãe do neto de Getty entra em ação para negociar um valor com o ex-sogro. Michelle Williams entrega uma atuação emocionante e brutalmente real, interpretando uma mãe desesperada pelo filho, mas humanamente prática e ágil. Não vemos aqui lágrimas desesperadas, mas uma bravura destemida que vem à tona em cada palavra proferida por Gail – seu medo de perder o filho se transforma em sua coragem para resgatá-lo.

Mark Wahlberg completa o time de protagonistas, dando vida ao chefe de segurança de Getty, que é responsável por recuperar seu neto e negociar com Gail. Mesmo no personagem mais fraco dos três, Wahlberg consegue tornar a discrepância das atuações não tão grande.

 

Scott entrega imagens lindíssimas, viajando ao redor do mundo para mostrar até onde o império bilionário de Getty consegue chegar – cada quadro é uma fotografia muito bem composta e iluminada. Apesar disso, toda essa habilidade parece ter sido usada apenas para compor uma amostra do que é a vida daqueles no topo da pirâmide, como se estivéssemos em um lindo zoológico observando como vive o homem mais rico do mundo.

No entanto, com a intenção de transformar esta biografia-drama em um suspense, o roteiro persiste em depender de reviravoltas de mentirinha e alarmes falsos, que mais impedem a história de se desenvolver (e tornam o filme dolorosamente mais longo) do que estimulam a audiência. Mesmo assim, neste tempo não há desenvolvimento de personagens, que começam e terminam o filme sem grandes progressos ou mudanças – com exceção do personagem de Wahlberg, que até muda, mas ninguém sabe quando ou por quê.

É uma boa surpresa o poder da atuação de Michelle Williams, pois, apesar de central, seu personagem não tem a oportunidade de crescer, se apoiando no mesmo apelo mãe-desesperada-pelo-filho até o último segundo – não é uma jornada, é um recorte da realidade dela.

Este acaba sendo a grande dificuldade do filme: encontrar uma jornada para seus personagens quando, na realidade, o sequestro do adolescente pouco mudou a vida dos envolvidos. O suspense envolvendo a máfia e a polícia tenta intensificar estes momentos, e mesmo assim o filme consegue ser quase tão monótono quanto a realidade.

É um sucesso, no entanto, que o filme tenha conseguido superar os problemas de produção e entregar um resultado coeso. A película inicialmente incluía Kevin Spacey no papel de Getty – ele chegou a gravar o filme inteiro! -, mas, após as denúncias envolvendo abusos e assédios cometidos pelo ator, a produção optou por regravar as cenas do personagem com Christopher Plummer. Pouco foi dito publicamente sobre a substituição, mas é evidente o bom senso da produtora ao não apenas evitar a polêmica, mas não incentivar a contratação de atores envolvidos em tais crimes.

Mesmo depois disso, mais problemas: Mark Wahlberg foi pago U$ 1,5 milhões para as regravações depois da saída de Spacey, enquanto Michelle Williams (a protagonista) foi paga apenas U$ 1,000. A diferença de salários por gênero em Hollywood é um problema quase tão em voga quanto as acusações de assédio.

Todo o Dinheiro do Mundo decepciona na tentativa de transformar-se num thriller, decepciona ao não ter uma história interessante o suficiente para se sustentar; ao não saber se deve priorizar o drama biográfico ou o suspense do sequestro; e ao tentar consertar isso com um miolo evidentemente fictício. O contra balanço é evidentemente o poder das atuações, mas o sentimento de ele que poderia ser posto a melhor uso fica conosco no final da sessão.

TODO O DINHEIRO DO MUNDO

Diretor: Ridley Scott

Elenco: Michelle Williams, Christopher Plummer, Mark Wahlberg e mais

Ano de lançamento: 2018

Itália, 1973. John Paul Getty III (Charlie Plummer) é o neto do magnata do petróleo J. Paul Getty (Christopher Plummer). O sequestro do rapaz coloca a sua mãe, Gail Harris (Michelle Williams), em uma corrida desesperada para tentar convencer o bilionário ex-sogro a pagar o resgate, de US$ 3 milhões.

Gaúcho porto-alegrense apaixonado por cinema, séries de televisão e gatos. Relações Públicas por formação; comunicador por natureza.